TMDQA! Entrevista: Fresno e a densidade de uma “Carta de Adeus”

A Fresno sempre foi mestre em transformar o luto em combustível criativo, mas com o seu novo capítulo, o trio gaúcho decidiu ir além da melancolia e abraçar o desapego. Formada em 1999 e consolidada como uma das maiores forças do rock nacional nos últimos anos, a banda está cada vez mais próxima de apresentar oficialmente o álbum Carta de Adeus, um trabalho que, apesar do nome, está longe de ser uma despedida.
Nesta nova fase, Lucas Silveira (voz, guitarra e produção), Vavo (guitarra) e Guerra (bateria) deixam de lado a urgência dos gritos juvenis para dar lugar a uma maturidade visceral. Gravado com o pé no chão e o ouvido no analógico, o álbum busca a pureza do som: guitarras que não escondem seus ruídos e baterias que respiram sem o auxílio de muletas digitais. É um disco feito de memória, terapia e a coragem de dizer tchau para o que já não cabe mais no peito.
O TMDQA! teve a chance de bater um papo com “os guris”, onde discutimos o mergulho terapêutico de Lucas, o olhar analógico de Vavo e a pulsação apaixonada de Guerra, revelando como a Fresno transformou a melancolia em um abraço coletivo e orgânico.
Você, fã, pode até achar que já conhece cada grito dessa trajetória, mas a verdade é que, em cada adeus da Fresno, existe um novo começo para descobrir. Bora nessa?
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Fresno apresenta “Carta de Adeus”: uma viagem ao essencial
Após o sucesso da turnê que reafirmou o trio como uma potência de palco, Carta de Adeus surge como um manifesto orgânico. Produzido pelo próprio Lucas Silveira – que assumiu o leme das produções da banda desde 2012 -, o disco é um exercício de “tirar o excesso”. Aqui, a tecnologia digital deu um passo atrás para que equipamentos clássicos da década de 80, como câmaras de eco e unidades de chorus, tingissem as faixas com texturas quentes e reais.
A sonoridade de Carta de Adeus é um “desenho atual pintado com tintas de outra época”. O disco equilibra o DNA do emocore brasileiro com influências que Lucas absorveu em sua adolescência em Porto Alegre, frequentando pistas que tocavam desde o pós-punk do Joy Division até o pop sofisticado de Engenheiros do Hawaii e OMD.
Entre as dez faixas inéditas, alguns momentos se destacam como pilares dessa nova era:
- “Tentar De Novo e De Novo”: Uma síntese perfeita entre a new wave oitentista e o peso emocional da Fresno. É uma canção sobre resiliência, culminando no verso forte: “Eu peço perdão para mim mesmo por esquecer quem eu era antes de conhecer você”.
- “Carta de Adeus (BYE BYE TCHAU)”: A faixa-título desafia as estruturas convencionais do gênero, trocando a explosão comum da Fresno por guitarras limpas e vocais graves.
- “Sóbria”: Com um instrumental carregado e letra que transborda de sentimentalismo, a única certeza é de que os fãs irão amar gritar “Tu não precisa de nada pra estragar tudo” com a banda no palco.
- “Pessoa” (o cover): Pela primeira vez em um álbum de estúdio, a banda gravou uma versão própria de uma faixa já existente. A escolha recaiu sobre a composição de Dalto, imortalizada por Marina Lima, trazendo um ar de reverência à MPB que agora faz parte do léxico sonoro da banda.
O lançamento de Carta de Adeus também foge do padrão frio dos algoritmos. No dia 18 de abril, o público de São Paulo terá a chance de ouvir o disco pela primeira vez no Espaço Unimed, em um show que precede a chegada às plataformas digitais (marcada para o dia 24). É um pacto de exclusividade com o fã, reforçado pela edição física em vinil e CD, que traz uma faixa bônus exclusiva.
Mais do que música, o projeto envolveu um time criativo de peso, com nomes como Camila Cornelsen na direção criativa e Gabriel Rolim no visual do show, garantindo que a identidade visual fosse tão orgânica e cuidadosa quanto o áudio.
E aí, bora conferir o papo?
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TMDQA! Entrevista Fresno – Especial “Carta de Adeus”
TMDQA!: Pessoal, primeiramente, é um prazer receber vocês! Muito obrigado pela oportunidade e pela honra. Queria começar perguntando para o Vavo: ao utilizar equipamentos analógicos da década de 80, vocês sentiram que esses aparelhos acabaram impondo limites criativos que geraram soluções mais interessantes do que as infinitas possibilidades do digital usado em Eu Nunca Fui Embora?
Vavo: Cara, que pergunta complexa! [risos] Eu vou dar uma resposta mais ampla. Acho que uma tendência da Fresno, depois de 11 discos, é sempre experimentar e incorporar coisas novas ao nosso som. Não ficamos presos; cada época teve seu método, gosto muito de citar a gravação do Ciano (2006).
Naquela época, tínhamos um método que, na nossa cabeça, era o único possível: paredões de guitarra, vários amplificadores, gravando acorde por acorde para a transição ficar “perfeita”. Hoje, a gente se adapta e varia muito mais.
O nosso tecladista, Lucas Romero, sugeriu que não gravássemos tudo apenas no estúdio do Lucas – ouvimos o conselho e alugamos outros estúdios para buscar timbres específicos: um sintetizador no estúdio X, uma bateria no estúdio Y. Sobre as “parafernálias” específicas que você citou, acho que o Lucas saberia responder melhor, porque são coisas que ele estuda e traz para a banda!
Guerra: Deixa eu complementar. Percebi que isso já vem acontecendo nos últimos discos, não é algo exclusivo deste álbum – estamos vindo com sonoridades nesse caminho há uns três discos. Ficou algo muito confortável.
Acho que este disco aprofundou essa estética mais clean. É um álbum “cleanzão“, mas com momentos pesados, bem Fresno. Foi um processo de “colorir” as faixas; coisas que surgiram secas foram ficando “molhadas” conforme entendíamos o conceito.
TMDQA!: Pessoal, ótima resposta. Guerra, pegando esse gancho: como foi buscar essa sonoridade que remete ao rock nacional e ao new wave que vocês ouviam na infância, mantendo a pegada contemporânea do emocore que vocês mesmos consolidaram?
Guerra: Acho que o emocore é algo que sempre estará conosco, é a nossa origem, mas somos muito livres para fazer o que nos dá tesão e o que estamos ouvindo no momento. Como eu disse, este momento é maior que o disco em si; já faz dois ou três álbuns que estamos nos aprofundando nessa textura. Estamos apaixonados por essa estética agora, mas a Fresno caminha conforme seus desejos. Daqui a um tempo, pode ser outra coisa. O grande lance é essa renovação constante.
Lucas: Complementando sobre a “roupagem”: antes, o rock brasileiro pós-internet ficava na armadilha de tentar soar “gringo”. A qualidade era medida pelo quão parecido você soava com Queens of the Stone Age, Blink-182 ou The Used. Com as ferramentas digitais de hoje, chegar em um resultado perfeito não é mais um desafio, então a busca por sonoridade perdeu um pouco o significado.
Por isso, este disco partiu da ideia de que as músicas não tivessem uma “produção” artificial: a guitarra tem som de guitarra, a bateria tem som de bateria. Esse caminho nos levou ao analógico. Chegamos em um som anos 80, mas não o “anos 80 synthwave” que a “Geração Z” imagina; chegamos no rock brasileiro clássico dos anos 80, o “clean profundo”. Os versos têm uma dinâmica muito maior, partes baixas muito contidas e refrões explosivos. É quase um grunge clássico com as cores novas da Fresno.
TMDQA!: Isso me faz pensar que são quase 30 anos de carreira, vocês são significativos demais pra uma galera e nem consigo mensurar o significado para vocês também. Lucas, você mencionou que Carta de Adeus é como um “desenho atual feito com tinta de outra época”. Se pudéssemos traduzir o som desse álbum em um objeto físico encontrado no sótão da casa dos seus pais em Porto Alegre, que objeto seria esse?
Lucas: Cara… a “carta de adeus” só existe quando você deixa algo para trás voluntariamente, e eu tive uma brisa recente: os discos da Fresno têm caras diferentes dependendo se eu estou fazendo terapia ou não – exemplo: Eu Nunca Fui Embora é um disco de época de terapia.
Na terapia, revisitamos a infância e os padrões que repetimos. Acho que “Carta de Adeus” é dizer adeus a esses padrões.
Sobre o objeto… minha mãe tinha umas raquetes de tênis de madeira antigas, com um aro de ferro para não empenar. Eu ficava vasculhando os armários dela, sem celular ou TV, apenas descobrindo o passado dela.
Vavo: Eu lembro de um objeto da minha infância: a espada do meu pai! Ele fez CPOR [serviço militar] e tinha uma espada de guerra em casa. Até hoje não sei onde está. [risos]
Lucas: Imagina um clipe com o pai do Vavo dando rolês com uma espada por Bagé?
Vavo: Ele é a cara do Sean Connery gaúcho! Já pediram foto com ele na Europa achando que era o ator.
TMDQA!: Meu Deus [risos] Meninos, em “Carta de Adeus (BYE BYE TCHAU TCHAU)”, vocês exploram registros graves e guitarras limpas onde o fã esperaria uma explosão. Esse minimalismo é uma forma de dizer que a Fresno não precisa mais gritar para ser ouvida?
Lucas: Ah, eu adoro gritar, vocês sabem! [risos] Nos ensaios eu já estava gritando e o Vavo perguntou: “Por que você não canta como gravou?” – nossa formação envolve o pensamento de “Se estou dizendo algo importante, vou dizer alto”.
Mas, com o tempo, você percebe que grandes artistas dizem coisas fortes em silêncio. Como somos a Fresno, no final a gente não se aguenta e estoura tudo [risos] o fã precisa ter uma paciência que talvez não esteja acostumado, mas a recompensa vem no final.
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TMDQA!: Assim como discutimos, o título “Carta de Adeus” sugere encerramento, mas o disco aponta para expansão. Como equilibrar essa “leveza amarga” de um adeus sem que pareça o ponto final da banda? Lembro que os fãs ficaram desesperados!
Lucas: A gente quis, intencionalmente, confrontar o fã com a ideia de adeus, sabíamos que isso ia acontecer. No mundo de hoje, as pessoas dão pouca importância às coisas; às vezes só valorizam quando acham que vão perder.
Queríamos que essa ideia provocasse uma “cristalização” do que o fã sente pela banda. Não é uma despedida, mas nada é eterno. É importante ter a noção do adeus presente para valorizar o agora.
TMDQA!: Em “Tentar De Novo e De Novo”, há o verso: “Peço perdão para mim mesmo por esquecer quem eu era antes de conhecer você”. Olhando para os 27 anos de banda, em que momento vocês sentem que a Fresno “esqueceu quem era” e como este disco funciona como esse pedido de perdão interno?
Lucas: Acho que nunca esquecemos. Podemos ter tido fases onde “viajamos” em certas escolhas, mas nada foi movido por um esquecimento de essência.
Esse verso é muito sobre o perdão interno após as concessões que fazemos em relacionamentos. Na vida de banda, também enfrentamos “casamentos” que terminam – pessoas que saem, mudanças de gravadora ou empresário. São saltos no abismo. Se isso não for baseado no amor pela construção desses anos todos, você se arrepende.
É preciso pedir desculpa para si mesmo pelas vezes que você se transformou em algo que não queria para manter algo de pé.
TMDQA!: Pela primeira vez em todos esses anos, vocês incluíram um cover em um álbum de estúdio: “Pessoa”, do Dalto (famosa na voz de Marina Lima). Por que essa escolha para dividir o disco em dois atos e como foi “emoficar” um clássico da MPB?
Lucas: Essa música é perfeita! [risos] O Dalto tem tesouros escondidos na fase pop dos anos 80 e estávamos ouvindo muito Sullivan & Massadas e Sandra de Sá. “Pessoa” apareceu no algoritmo e decidimos gravar.
Não era para o álbum, mas quando o disco ganhou essa cara oitentista, percebemos que ela encaixava perfeitamente – inclusive, muita gente acha que é nossa! Quando você traduz aqueles acordes para a guitarra distorcida, ela ganha uma profundidade que lembra Nirvana ou o início do Foo Fighters. O nosso mixador, que mora nos EUA e não conhecia a original, disse que era a melhor do disco. Eu fiquei tipo: “Pô, justo a única que eu não compus!” [risos]
TMDQA!: Em “O Cantor e o Taxista”, o lirismo confunde a persona pública com a vida privada. Em que ponto o cantor deixa de ser personagem e passa a ser o homem encarando o precipício?
Vavo: É tudo verdade, eu era o taxista! [risos]
Lucas: O artista está sempre atento; é difícil desligar isso. Essa história é real.
Eu estava voltando da casa de uma ex-namorada, arrasado, e o taxista era um senhorzinho que começou a contar que foi para a guerra, que tomou tiro… e eu ali, querendo morrer porque tive o coração partido. Senti-me mal por achar que minha tragédia era pior que a dele e escrevi esse texto num blog há 16 anos. Ele já gerou três músicas diferentes, mas só agora virou essa canção completa.
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TMDQA!: Vocês vão tocar o álbum na íntegra no Espaço Unimed antes do lançamento digital. Isso é um movimento de resistência contra o consumo frio do algoritmo?
Vavo: Falou tudo! Este é o terceiro disco que fazemos essa movimentação coletiva. Queremos trazer de volta o ritual de sentar junto para ouvir música, como nossos pais faziam com o vinil. É sobre unir a “tribo”.
Lucas: A melhor forma de apresentar uma música é ao vivo. Queremos provar para nós mesmos que temos um público fiel e interessado no que fazemos hoje. Liberamos o acesso antecipado para quem comprou ingresso, e claro que sabíamos que iria vazar, mas isso gera um sentimento de pertencimento. Remete ao nosso início, quando eu e o Vavo baixávamos músicas no Napster e compartilhávamos entre amigos. A Fresno é fruto do compartilhamento.
TMDQA!: Para encerrar: o disco termina com “Eu Não Sei Dizer Não”. Se essa “Carta de Adeus” fosse postada hoje, qual seria o P.S. para os fãs?
Guerra: “É tudo mentira, estamos aí!” [risos]
Lucas: “É os guri! Vivão e vivendo. Sobrevivemos.”
TMDQA!: Rapazes, foi um prazer enorme. Eu sou o Eduardo, representando o Tenho Mais Discos Que Amigos!. Temos uma tradição ao final de cada entrevista, e queria perguntar primeiramente: vocês também consideram ter “mais discos que amigos”?
Lucas: Pô, eu tenho muitos amigos, mas tenho muitos discos também!
Vavo: Eu só tenho 4 amigos e 5 discos, então! [risos]
Guerra: Os discos são nossos amigos e nos ajudam a fazer novos amigos.
TMDQA!: Para finalizar, quais seriam cinco discos (de outros artistas) fundamentais para a trajetória da Fresno?
Lucas: A banda existe por causa de uma coletânea da revista ShowbBizz chamada RockMotor. Tinha No Use For a Name, NOFX… aquilo sintetizou tudo para a gente. Também a banda The Ataris, com o álbum So Long, Astoria. E no Brasil, o Bloco do Eu Sozinho, do Los Hermanos. É um disco absurdo, e precisamos parar com o cinismo de não admitir o quão óbvio é que esse disco é um marco!
Guerra: Eu era o moleque grunge, então Pearl Jam e Alice in Chains foram fortes. Mas em casa rolava muita brasilidade por causa do meu pai e do meu tio, acho isso muito massa.
Lucas: Só não perguntem da Laura Pausini para o Vavo, senão ele não para de falar! Ele só ouve ela. Se quiser dar um presente, dê algo da Laura Pausini. [risos]
TMDQA!: Que final maravilhoso. [risos] Muito obrigado, pessoal!
Fresno: Valeu Edu!
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Eduardo Ferreira
TMDQA! Entrevista: Fresno e a densidade de uma “Carta de Adeus”




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