Como os artistas e seus fãs enfrentam mudanças de sonoridade?

Na indústria musical, uma vez que a base de fãs se consolida, parece cada vez mais difícil experimentar arte em outros moldes. Em um momento em que comentários nas redes sociais parecem ter um peso ainda maior na formação da opinião pública, são poucos os músicos que, de fato, criaram uma conexão pessoal com seus fãs e arriscam novas sonoridades sem medo de perdê-los — e ainda menos os que excederam o teste e se mantiveram na nova expressão.

Como os artistas e seus fãs enfrentam mudanças de sonoridade?

Foto: Instagram @mileycyrus | @ladygaga

LEIA MAIS

Experimentação: novas sonoridades

Falar sobre versatilidade artística sem tocar no nome de Lady Gaga é, no mínimo, desrespeitar o legado de uma artista pop que explorou — e ainda explora — vertentes sonoras em muitos de seus trabalhos. Mesmo tendo como base a música pop, Gaga incorporou o jazz (em parceria com Tony Bennett), o country/folk (em seu álbum “Joanne”) e diversas referências ao rock em suas performances. 

Como os artistas e seus fãs enfrentam mudanças de sonoridade?

Foto: Instagram @ladygaga

A eterna Hannah Montana não fica de fora da discussão quando a experimentação sonora vem à tona. Miley Cyrus, apesar de sempre ter deixado suas influências rock bem explícitas durante a carreira, não havia, de fato, mergulhado de cabeça no gênero até 2020, quando lançou “Plastic Hearts” e assumiu a estética como a central de sua era. 

Recentemente, Charli XCX causou polêmica nas redes sociais ao anunciar que, de fato, abandonaria a estética de “Brat”, seu maior sucesso e embarcaria, também, no rock. O anúncio dividiu os fãs e rendeu diversas opiniões nas redes sociais.

Outras “aventuras” entre estilos musicais já foram vistas na indústria, e não apenas artistas pop são contemplados. Amy Lee, vocalista do Evanescence, deu uma breve pausa no rock em 2016 e lançou o álbum infantil “Dream Too Much”, por influência de seu filho, que tinha dois anos à época. Outro exemplo de mudança é Machine Gun Kelly, que começou como rapper mas, em 2020, assumiu as guitarras e baterias em seu álbum “Tickets to my Downfall” e atingiu grande sucesso, além de números expressivos em vendas e paradas. 

Do gospel ao pop: Priscilla enfrentou momento emblemático

A experimentação musical, porém, não se restringe aos artistas internacionais. No Brasil, a cantora Priscilla foi alvo de uma enxurrada de críticas ao ir de contramão à música gospel e se aventurar no mundo pop. Desde criança condensando sua religiosidade em suas canções — Priscilla é uma mulher cristã —, a cantora atingiu grande sucesso sob o nome Priscilla Alcântara, mas foi ao abandonar o sobrenome e se dedicar às canções pop dançantes que enfrentou um momento emblemático em sua carreira.

Como os artistas e seus fãs enfrentam mudanças de sonoridade?

Foto: Instagram @_apriscilla_

Em entrevista ao POPline, a cantora afirmou que a mudança foi responsável por evidenciar que há uma distinção entre ser fã de um artista e ser fã de uma temática — religiosa, no caso de Priscilla. “Para os meus fãs, que são pessoas que sempre estiveram comigo de perto, não houve um estranhamento. Porque, por estarem me acompanhando, conseguiram captar minha visão sobre arte e sobre ser uma artista livre, não rotulada a um nicho. Mas, para quem acompanhava de longe, foi algo um tanto incoerente, porque, segundo sei lá quem, a temática de uma música que você faz tem que estar 100% e apenas relacionada à sua temática religiosa, e não era o que acreditava”, afirmou.

Priscilla acredita que sempre há um ponto de conexão entre um artista e seu fã, e que, quando abalado ou quebrado de alguma forma, afeta diretamente na admiração e sentimento de identificação. Segundo a artista, ter migrado para o pop abalou os fãs que estavam conectados a ela apenas por uma questão religiosa: “Quem foi embora, acredito que era por um único ponto de conexão, que era uma temática que compartilhamos. O interesse humano, quem tem, realmente, são os fãs que ficaram.”

Demi Lovato: um exemplo de conexão com fãs

Se para os artistas é difícil enfrentar uma mudança, existem fãs que enfrentam várias — e permanecem fiéis. Demi Lovato é um exemplo prático de exploração musical, versatilidade e conexão com os fãs. Em diversos momentos de sua carreira, a cantora passeou por gêneros musicais e, mesmo perdendo sua popularidade nas paradas de sucesso, não perdeu o apoio de seus fãs.

Desde o pop rock, primeira sonoridade explorada em sua carreira, ao pop, onde se consolidou como um dos maiores nomes da música mundial, os “lovatics” se demonstraram firmes ao seu lado até mesmo quando Demi vestiu suas roupas de rockeira e lançou “Holy Fvck”, o disco de sonoridade mais agressiva de sua carreira.

Como os artistas e seus fãs enfrentam mudanças de sonoridade?

Foto: Instagram @holyfvcktour

A influenciadora digital Doarda — fã da cantora desde criança e, segundo muitos fãs, “a maior lovatic do Brasil” — conversou com o POPline e deu sua visão de fã sobre a constante mudança de Demi Lovato. Em sua opinião, a versatilidade e talento da cantora é o que mais a orgulha de ser fã, e afirma que ter crescido acompanhando a cantora a ajudou a entender que as mudanças são parte inevitável da vida. 

Doarda ressalta, também, a abertura sobre temas sensíveis como saúde mental, transtornos de imagem e transtornos alimentares como um dos pontos mais importantes da carreira da cantora. Para a influenciadora, a maneira que Demi aborda assuntos recorrentes em sua vida é extremamente importante. “Demi sempre falou muito sobre saúde mental. Para uma geração como a minha, isso é super importante. Nos momentos mais difíceis da minha vida, lembro de ter a arte dela como válvula de escape porque ela sempre foi muito honesta principalmente nas letras das músicas. Isso é lindo e inspirador”, afirma.

Pontos de conexão

O relato de Priscilla, como cantora, e Doarda, como fã, evidenciam que as mudanças podem afetar os fãs de inúmeras maneiras — seja fidelizando-os ou fazendo com que decidam partir. O laço entre artistas e seus admiradores, então, é necessariamente dependente de algo que faça sentido para ambas as partes e a flexibilidade que estão dispostos a enfrentar para se manter ao lado um do outro, pois a relação nunca é unilateral e ambas as partes precisam coexistir. 

O post Como os artistas e seus fãs enfrentam mudanças de sonoridade? apareceu primeiro em POPline.

Leonardo Nascimento

Como os artistas e seus fãs enfrentam mudanças de sonoridade?


Translate »