Resenha: American Football retorna ainda mais ousado, maduro e melancólico com “LP4”

Desde que a icônica casa em Illinois apareceu pela primeira vez em nossas vidas, o American Football tornou-se o arquétipo de uma nostalgia que nem sempre vivemos. O que era para ser um projeto de faculdade congelado no tempo transformou-se em uma instituição. Após o retorno em 2014 e a expansão atmosférica do LP3 (2019), a banda agora nos entrega o LP4: um disco que abandona a segurança dos gramados de verão para caminhar sob um céu vermelho-sangue, onde o amadurecimento não é um conceito teórico ou uma metáfora nas composições fortes, mas uma ferida aberta.
Desta vez, o quarteto não está apenas revisitando o gênero que ajudou a difundir – eles o estão desconstruindo. Com a produção detalhista de Sonny DiPierri e a mente técnica de Nate Kinsella no comando das engrenagens, o novo álbum é um mergulho em texturas que vão do minimalismo clássico ao rock britânico oitentista, provando que é possível envelhecer com audácia.
O TMDQA! teve a oportunidade de ouvir o lançamento em antecipado, e mergulhou nessas águas profundas. Vem com a gente saber mais a respeito!
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Onde o Emo encontra o Abismo
Logo na abertura com “Man Overboard“, o ouvinte percebe que o terreno mudou. A bateria de Steve Lamos, sempre matemática, aqui soa como um pulso ansioso, uma arritmia que guia guitarras densas e distorcidas. Se o primeiro disco era sobre o “quase” e a melancolia juvenil, o LP4 é sobre o “depois”: o divórcio, o luto, a ressaca da meia-idade e o peso de ter sobrevivido a si mesmo.
O disco respira uma aura cinematográfica. Em “No Feeling“, a participação de Brendan Yates (Turnstile) não traz a urgência do hardcore, mas uma flutuação fantasmagórica que evoca os momentos mais grandiosos do The Cure na era Disintegration (1989). É um som vasto, etéreo e, paradoxalmente, claustrofóbico. A banda não tem medo do silêncio, nem de notas fora do lugar que espelham o caos interno de Mike Kinsella.
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Arquitetura Sonora e Colaborações de Peso
O grande trunfo do LP4 é a sua capacidade de ser experimental sem perder o coração. “Desdemona” é um exemplo brilhante de engenharia musical: a banda utiliza um sample do compositor minimalista Steve Reich e o tece em uma narrativa inspirada em Shakespeare. É o tipo de movimento que poderia soar pretensioso, mas aqui parece uma evolução natural de quem entende o som como uma forma de arte digna de galeria.
A presença de vozes femininas continua sendo um diferencial. Enquanto Wisp traz uma doçura etérea ao single “Wake Her Up” – talvez a música mais acessível e “pop” (no sentido mais alternativo possível) que o grupo já produziu -, Caithlin De Marrais (Rainer Maria) adiciona uma camada de urgência emocional em “Blood On My Blood“.
O disco é repleto de contrastes:
- “Bad Moons”: Uma jornada épica de oito minutos que começa como um desabafo confessional e termina em uma explosão de post-rock catártico.
- “Lullaby”: Um respiro instrumental com xilofones que evoca a segurança da infância, preparando o terreno para o golpe final.
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A Beleza Humana: viver dia pós dia
Diferente de seus contemporâneos que lutam para soar jovens, o American Football abraça a finitude. No encerramento com “No Soul to Save“, Mike Kinsella canta sobre desaparecer com uma leveza desconcertante. Há uma aceitação niilista na melodia, como se a morte não fosse um monstro, mas o fechamento de um ciclo necessário.
O álbum não é uma audição fácil para quem busca apenas o brilho das guitarras de 25 anos atrás. É um disco pesado, marcado por confissões sobre erros, vícios e a desorientação de quem “nunca planejou envelhecer”. No entanto, é justamente nessa crueza que reside sua beleza mais humana.
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American Football: mais que um retrato, uma paisagem
LP4 é o manifesto de uma banda que se recusa a ser um museu de si mesma. Eles poderiam ter passado décadas tocando “Never Meant” para públicos nostálgicos, mas escolheram o caminho difícil da honestidade brutal e da experimentação rítmica.
Não é um álbum perfeito – sua densidade pode ser exaustiva e algumas letras cortam fundo demais, fato -, mas é um trabalho vital. Se o primeiro disco foi a ascensão do sol sobre a casa de Illinois, o quarto álbum é o momento em que as luzes se apagam e percebemos que, no escuro, a música ainda é a única coisa que nos mantém ancorados.
O American Football deixou de ser uma banda de “gênero” para se tornar uma banda de época. E 2026 nunca soou tão honestamente triste e, ao mesmo tempo, tão magnífico.
★★★★½ (4.5/5)
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Eduardo Ferreira
Resenha: American Football retorna ainda mais ousado, maduro e melancólico com “LP4”




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