Marina Lima, “Fullgás” e o disco brasileiro mais emblemático dos Anos 80

Marina Lima Fullgás

Em meados dos Anos 80, o Rock vivia uma transformação. No plano internacional, a revolução eletrônica que começou na década passada abria caminho para bandas como Depeche Mode, Duran Duran e The Cure; no Brasil, o mesmo período carregava uma carga ainda mais urgente, e foi especialmente em 1984, quando surgiu a campanha das Diretas Já, que Marina Lima entregou o emblemático Fullgás.

Enquanto nomes como Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Barão Vermelho e Legião Urbana davam uma sequência praticamente natural às experimentações dos anos anteriores, a influência do New Wave, do Post-Punk, do Technopop e de tantas outras sonoridades ganhou um expoente perfeito em Marina Lima, que ousou resgatar elementos ao mesmo tempo em que buscava novos sons para criar um trabalho que é retrato de sua época mas envelheceu como vinho.

Mais de quatro décadas depois de seu lançamento, com um show comemorativo marcado como parte do C6 no Rock, Fullgás segue como um dos retratos mais precisos, elegantes e ousados já feitos da música pop brasileira.

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Além dos rótulos

Antes de Fullgás, Marina já havia lançado quatro álbuns, todos muito amparados na MPB. A grande virada veio quando ela deixou a Ariola em 1983 e assinou com a Polygram, dando origem ao disco que se tornaria um divisor de águas não só na sua carreira, mas na história da música brasileira.

O diferencial do álbum foi o emprego de sintetizadores e baterias digitais programadas, que deram ao trabalho um caráter Pop contemporâneo, fazendo Marina flertar com o Synthpop e a New Wave tanto quanto com o Rock e o Pop, de forma a colocá-la em um lugar impossível de rotular.

Por ter vivido nos Estados Unidos, Marina trazia toda a bagagem do Pop revolucionário de artistas como Michael Jackson, que havia acabado de lançar o disco Thriller quando Fullgás começou a ser concebido. Por outro lado, ser brasileira de alma deu ao disco um toque único, com influências evidentes como a de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, homenageados com uma versão fantástica de “Mesmo Que Seja Eu”.

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Essa dualidade ficou escancarada no próprio encarte do álbum, através de um texto assinado por Marina e seu saudoso irmão Antônio Cícero, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de algumas das principais letras das músicas de Marina. O manifesto foi resgatado pelo blog Música em Prosa em 2016, e você pode vê-lo abaixo.

“Somos brasileiros e estrangeiros”: o manifesto de Fullgás

“Somos brasileiros e estrangeiros. Somos estrangeiros porque a nossa verdadeira casa e a casa da nossa música não têm paredes, nem teto, nem cerca, nem fronteiras. Não vegetamos nem precisamos de raízes.

Mas nascemos aqui, aqui trabalhamos e escolhemos ser brasileiros. Por quê? Porque este país é a nossa casa. A força dele, como a nossa, não pode vir de nenhuma fonte pura. Fontes puras não existem. O Brasil vem da fusão de todas as águas, de todas as correntes culturais, da miscigenação. Por isso ele realmente mete medo em todos que sofrem de agorafobia.

Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas querem impor sua ‘ordem’. E a ordem dos caretas é, e sempre foi, a da fidelidade às tais ‘raízes’ ou ‘purezas’ ou sabemos lá o que…

Já para nós, bom é ser contemporâneo ao mundo. Tomamos partido pelo presente e nele pelo mais full gás e mais fugaz. Se nossa música é política? Nossa música É a nossa política. Queremos descobrir novas possibilidades: não de fazer ‘arte’, mas de viver.

Chega de ideais repressivos, cagando regras, fingindo estar acima do tempo e dizendo por exemplo que devemos ser heterossexuais ou bissexuais ou que devemos ou que não devemos ter ciúmes, ou que temos que gostar da bossa nova ou fazer samba ou ser new wave…

Melhor para nós são a descoberta e a liberação dos desejos e gostos autênticos de cada um.

Nossa música é simples, deliberadamente simples e direta. Por isso mesmo ela é mais difícil para aqueles que se viciaram às velhas fórmulas. Sabemos que somos profundos demais e superficiais demais para essa gente.

Não há CAMINHO REAL para fazer algo que enriqueça o mundo. Por mais que certos setores da ‘vanguarda’ sugiram uma evolução linear da Música, a verdade é que às vezes é do mais ‘vulgar’ que vem o toque mais sutil. E é claro que o novo vem de onde menos se espera. Assim somos nós. Assim é o que fazemos. Simples como fogo”.

As letras de Antônio Cícero e as melodias de Marina Lima

O que eleva Fullgás acima de qualquer classificação de gênero é a densidade do que está dito nas suas faixas. Discreto e elegante, o álbum foge da estética exagerada tão típica dos anos 80, mas nem por isso deixa de ter profundidade.

Logo na abertura, com a faixa-título que viria a se transformar em um exemplo de como fazer um hino Pop perfeito, Marina canta: “você me abre seus braços, e a gente faz um país” – palavras que, às vésperas do fim da ditadura militar, deram voz a um povo ansioso por democracia.

Em Fullgás, através das letras que têm o toque de Antônio Cícero, Marina Lima explora em belas e desafiadoras melodias a força da mulher, da sexualidade LGBTQIA+, questões políticas e planetárias. Isso há mais de 40 anos, com mensagens tão atuais que poderiam ter sido escritas hoje mesmo, e sempre acompanhadas de decisões musicais ousadas.

A cumplicidade entre Cícero e Marina é audível em cada faixa, da mais dançante à mais introspectiva. Até o título carrega um trocadilho genial: a palavra é uma brincadeira entre “fugaz”, em português, e a expressão em inglês full gas, usada para descrever algo ou alguém cheio de energia.

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Mais de 40 anos depois, o clássico Fullgás chega ao C6 no Rock

O impacto de Fullgás não ficou circunscrito aos anos 80. Ao longo das décadas, a canção-título foi regravada por Lulu Santos, Ivete Sangalo, Simone e Fábio Júnior, um sinal claro de como a música reverberou muito além do seu tempo e dentro de diversos gêneros.

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É nesse espírito de redescoberta que o festival C6 no Rock chega com uma proposta singular. O festival será realizado nos dias 22 e 23 de agosto, no Parque Ibirapuera, e Marina Lima, acompanhada de convidados, apresentará o disco Fullgás na íntegra.

Por lá, inclusive, ela terá como convidados Lobão e Liminha, duas figuras fundamentais para esse disco tão icônico. Liminha é o responsável pela inesquecível linha de baixo da faixa-título, inspirada em “Billie Jean” e fonte de inspiração para toda uma geração de músicos brasileiros; Lobão, por sua vez, é autor de “Me Chama”, gravada por Marina no álbum em uma versão marcante.

Presenciar Fullgás sendo executado do início ao fim ao vivo é um privilégio para poucos, ainda mais com esses convidados especiais. Nos vemos por lá? Garanta seu ingresso para o C6 no Rock clicando aqui!

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Felipe Ernani

Marina Lima, “Fullgás” e o disco brasileiro mais emblemático dos Anos 80


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