Steve Lamos reflete sobre anos de American Football e “LP4”

O casarão em Urbana, Illinois, que estampa a capa do disco de 1999, não é apenas um endereço; é o marco zero de uma nostalgia que moldou gerações. O American Football nunca planejou ser uma instituição. O que começou como um projeto universitário de três amigos que mal fizeram doze shows antes de se separarem, transformou-se em um culto global. Agora, em 2026, eles provam que o tempo não apenas passou – ele construiu algo monumental.
Se o LP1 era sobre o quase e a melancolia juvenil, LP4 é sobre o depois. É um disco que abandona os gramados de verão para caminhar sob um céu denso, onde o amadurecimento é uma ferida aberta. Com a produção detalhista de Sonny DiPierri (My Bloody Valentine, Nine Inch Nails), a banda desconstruiu o próprio gênero, fundindo o minimalismo de Steve Reich com a densidade do shoegaze e do pós-punk oitentista.
Entre trompetes que soam como fantasmas e guitarras que evocam a vastidão do The Cure, o quarteto propõe um manifesto contra a paralisia da meia-idade. Com colaborações que vão da urgência de Brendan Yates (Turnstile) à doçura etérea de Wisp, o grupo se recusa a ser um museu de si mesmo.
Nós do TMDQA! conversamos com o baterista e trompetista Steve Lamos sobre essa transição visceral, o momento em que ele quase desistiu de tudo e como é ver “Never Meant” virar hino até dentro do Fortnite, enquanto o coração da banda agora bate no ritmo complexo e magnífico do LP4.
Se acomode, e leia a entrevista abaixo!
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TMDQA! Entrevista Steve Lamos (American Football)
TMDQA!: Prazer em conhecê-lo, Steve! Primeiro, muito obrigado por nos receber, é um prazer genuíno.
Steve Lamos: O prazer é todo meu! Me sinto honrado em poder falar com o pessoal no Brasil, então obrigado pelo seu tempo [risos].
TMDQA!: Vamos começar falando sobre o LP4. A faixa de abertura, “Man Overboard”, foi descrita como uma composição de “postura travessa”. Como você traduz sentimentos tão abstratos e pesados, como o luto e a desorientação da meia-idade, em fórmulas de compasso matemáticas (math rock) sem perder o fluxo humano e orgânico?
Steve Lamos: Cara, que pergunta boa e difícil logo de cara! Eu não acho que isso seja proposital – não é como se disséssemos: “Olha, aqui está a equação matemática para o luto na meia-idade”. Nós apenas perseguimos sensações interessantes.
A batida dessa música surgiu em um momento em que eu estava apenas brincando com o instrumento. Eu gosto de praticar, mas às vezes só quero tocar sem trabalhar em nada muito difícil. Essa batida apareceu e soou desorientadora de um jeito interessante.
Na meia-idade, você ainda parece uma pessoa jovem, mas quando envelhece como eu, não saber o que está acontecendo ou não se sentir 100% confortável torna-se o normal. Existe uma versão prazerosa dessa desorientação, que é o que buscamos na música, e a versão desagradável, que é a vida cotidiana.
Se alguém no grupo se compromete com uma ideia e ela ressoa nos outros, nós apenas a seguimos. Curiosidade: eu cheguei a sair da banda logo após entregar a demo dessa música. Quando eles me mandaram a faixa de volta, já quase no formato final, eu fiquei bravo comigo mesmo! Pensei: “O que eu estava fazendo? Por que eu sairia de uma banda que faz coisas tão legais assim?”. [risos] Essa música tem um lugar especial para mim por causa disso.
TMDQA!: A produção de Sonny DiPierri trouxe uma densidade quase de shoegaze para as guitarras. Como baterista, como você encontrou espaço físico e sonoro entre camadas tão espessas de distorção, comparado ao minimalismo dos discos anteriores?
Steve Lamos: Ótima pergunta. O Nate (Kinsella) construiu um sistema diferente para gravarmos… nós circulávamos versões de faixas básicas e íamos adicionando peças remotamente, foi como um ensaio sincronizado à distância. Depois, fui para um estúdio real com o Sonny, que também é baterista. Ele me deu muita confiança para fazer o que eu quisesse.
O interessante é que eles praticamente reconstruíram as guitarras e os sintetizadores em torno das batidas finais da bateria. Foi como um desenho: a bateria trouxe as linhas e cores iniciais, e eles pintaram o quadro inteiro ao redor delas. Foi minha maneira favorita de fazer um disco até hoje.
TMDQA!: O trompete sempre foi a voz melancólica do American Football. No LP4, ele parece dialogar com texturas eletrônicas e riffs inspirados nos anos 80. Como vocês decidiram onde o sopro deveria ceder ao silêncio ou a essa nova experimentação?
Steve Lamos: O trompete simplesmente “brota” há 30 anos nesta banda. Ele funciona como uma voz; se há uma melodia que precisa sair, o instrumento se sugere. Em “Wake Her Up“, o Mike (Kinsella) escreveu a linha de trompete para mim. Ele disse: “Acho que você vai gostar disso”, e eu fiquei chocado, porque parecia que eu mesmo tinha escrito.
Já em “Patron Saint of Pale” (e na peça de piano que a precede), usei uma linha que eu guardava há 25 anos. O trompete traz um alívio para o ouvido. O disco é tão denso e vasto que os momentos de sopro soam pequenos e gentis, como nos velhos tempos. É um respiro no meio dessa música “grande”.
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TMDQA!: Falando em composição, vocês usaram samples de Steve Reich. Como acadêmico e músico, como você vê essa ponte entre o minimalismo da “alta arte” e o Midwest Emo? O American Football finalmente se tornou a “banda de galeria” que o LP4 sugere?
Steve Lamos: Você não faz perguntas fáceis, hein? [risos] Não é um sample direto, mas uma influência clara. Nós amamos Music for 18 Musicians desde o primeiro dia. O Nate e o nosso vibrafonista, Corey, são os mais letrados musicalmente, eles conseguem notar e estruturar essas ideias. Sempre tivemos um pé nesse mundo minimalista de deixar a música se revelar sozinha.
Sobre o termo Midwest Emo: isso nem existia quando éramos jovens. Era apenas “emo”, e geralmente as pessoas usavam esse termo quando odiavam sua música. Se gostavam, chamavam de “punk rock”.
Embora a gente ame música pesada, nunca quisemos fazer isso nesta banda. Bandas como o Tortoise, de Chicago, nos deram uma linguagem diferente. Tentamos ser os “silenciosos” no meio da conversa.
TMDQA!: Quase 30 anos se passaram desde o primeiro disco. Naquela época, vocês eram universitários. Hoje, o LP4 fala sobre sobreviver a si mesmo. Como é tocar músicas como “Never Meant” em turnê, sabendo que as novas faixas carregam cicatrizes que nem existiam em 1999?
Steve Lamos: Falando por mim, é difícil expressar o quanto é lisonjeiro que as pessoas ainda se conectem com “Never Meant”. Eu tenho dois adolescentes em casa; eles não gostam da banda, mas gostam dessa música. Minha filha a encontrou no Fortnite outro dia e veio correndo me contar! [risos]
Eu me sinto sortudo. Se as pessoas querem ouvir essa música porque ela significa algo para elas, meu dever é tocá-la da melhor forma possível. Mas, como o Mike sempre diz, não temos interesse em ser uma “banda de reunião”.
Não valeria a pena fazer apenas as músicas antigas de novo e de novo – se fosse assim, a gente pararia. É preciso equilibrar o respeito ao passado com o fato de que ninguém quer voltar para lá. Os anos 90 foram ótimos na teoria, sou nostálgico, mas prefiro o agora, mesmo que o mundo esteja mais bagunçado [risos]
TMDQA!: Steve, foi um prazer. Você equilibrou a vida acadêmica com o status de ícone cult por anos. No zine de lançamento, você incluiu uma playlist de inspirações. Se você tivesse que escolher uma nota musical ou um símbolo que definisse seu estado atual, qual seria?
Steve Lamos: Eu não consigo escolher só uma nota, mas posso escolher três momentos do disco: as batidas de “Man Overboard” (a primeira), “Patron Saint of Pale” (o meio) e “No Soul to Save” (a última). Alternar entre essas três é como me sinto em 2026. Sinto muita alegria tocando essas partes com meus amigos. Essas músicas são algumas das coisas favoritas que já ajudei a criar!
TMDQA!: Minha última pergunta enquanto posso, e sinto que é uma obrigação: e o Brasil, cara?
Steve Lamos: Eu espero que voltemos logo! Não há nada oficial ainda, mas é mágico tocar na América do Sul. Os fãs são muito entusiasmados.
São Paulo foi incrível para nós. Nós perguntamos o tempo todo: “Como fazemos para isso acontecer de novo?”. Minha esperança é que possamos fazer isso em breve.
Nós precisamos voltar!
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Eduardo Ferreira




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