Pra Ficar de Olho: measyou, gabo islaz, Tangolo Mangos e CLARAH

measyou, gabo islaz, Tangolo Mangos e CLARAH
measyou, gabo islaz, Tangolo Mangos e CLARAH

Sempre que a música independente nacional parece decidida a chutar o balde das fórmulas prontas, o fervor se renova em rotas que cruzam fronteiras geográficas e estéticas. Se existe um fio condutor entre os trabalhos de measyou, gabo islaz, Tangolo Mangos e CLARAH, é a coragem de abraçar o desconforto e transformar a bagagem da estrada em combustível criativo.

Do experimentalismo cru feito entre quatro paredes ao calor dos palcos que cruzaram o oceano (e também do sentimentalismo transformado em composições que tocam a alma), esses quatros nomes mostram que o front do indie brasileiro está mais vivo – e imprevisível -enquanto atinge novos públicos.

Se por algum acaso você duvida do que eu escrevo, pega os teus fones de ouvido e venha entender o porquê abaixo. Encante-se com os trabalhos abaixo!

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measyou

Se no elogiado Toda Tristeza Que Habita em Nossos Quartos o músico Lucas Mateus parecia criar um confessionário ecoando melancolia entre paredes seguras, em seu novo álbum, Eu Sinto Muito!, ele decide escancarar a porta. O projeto estende suas fronteiras em uma clara tentativa de ruptura, apostando em uma postura muito mais direta, visceral e sem filtros.

A produção, assinada em parceria com Israel Castro (Twin Pumpkin), envelopa o trabalho com mais corpo e uma tensão latente, sem nunca rasgar a essência e o charme analógico do autoral. O disco ganha o reforço cirúrgico de vozes que dialogam perfeitamente com esse universo, como Lucas Silveira (Fresno) e THEREALBIGRIC; é um registro que incomoda justamente por estar perto demais da realidade, equilibrando vulnerabilidade e peso com uma maturidade rara.

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gabo islaz

Há uma beleza muito particular na forma como o músico gaúcho gabo islaz costura memórias em sua estreia cheia de afeto, Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração. Inspirado pela célebre prosa de Eduardo Galeano e ilustrado por uma fotografia analógica de seu avô treinando um time de futebol de bairro nos anos 2000, o álbum flutua entre o sonho, o luto e a celebração das amizades cotidianas.

A obra ganhou vida em uma itinerância cativante, gravada de forma coletiva entre Porto Alegre, Buenos Aires, Santa Fe (onde gabo estudou) e a Colômbia. Com a colaboração de nomes da cena como Viridiana Saboya, Bernard Simon e a basca Karmele Gurbindo – que inclusive registrou seus vocais improvisados com um celular dentro de um guarda-roupa -, o disco traz a voz de gabo mais limpa, exposta, honesta e até mesmo mais vulnerável. Entre citações a cânticos de torcida e estéticas que flertam com o lo-fi punk, gabo prefere a coragem de permanecer sensível ao cinismo dos nossos tempos (e ainda bem que temos a quem admirarmos por tais atitudes).

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Tangolo Mangos

Se o rock nacional estivesse no topo das paradas de rádio como esteve em décadas passadas, PEDAGIOS Y CARONAS, o segundo disco dos baianos da Tangolo Mangos, seria o hino de uma geração. O álbum é um verdadeiro manifesto sobre deslocamento e estranhamento, nascido após a mudança da banda de Salvador para São Paulo – aquele limbo de quem já não se encaixa na metrópole, mas já não pertence inteiramente ao ponto de partida (a juventude adulta explica bem!).

Se no debute Garatujas (2023) a banda brilhava pela colagem de laboratório, aqui quem dita o ritmo é a urgência da canção e a energia crua de um registro gravado ao vivo em estúdio, co-produzido por Apu Tude. O som é camaleônico e deliciosamente imprevisível: começa em um power pop ensolarado, abraça o ska, flerta com trilhas de anime e mergulha sem medo em riffs pesados que fundem Sepultura, Nação Zumbi e Led Zeppelin com uma brasilidade que parece que só o grupo sabe fazer. É música livre de amarras, especialista em mudar de rota no meio do caminho para nos lembrar de como a música nacional pode ser inventiva e aproveitada.

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CLARAH

Este EP já tem um tempo desde o seu lançamento, então eu peço licença para escrever em uma tonalidade mais pessoal. Descobrir o trabalho da CLARAH (de forma profunda, afinal eu já conhecia um pouco de suas faixas) é como mergulhar em uma jornada de autoconhecimento, sentimentalismo e ganhar o conforto do abraço de uma mãe.

SANTO AMARO tem 19 minutos de duração e 7 faixas que te cativam com tanta facilidade, que quando você vai ver, os 19 minutos viram horas em repetição pelo zelo tão delicado com um trabalho singelo. A voz de CLARAH fundida com a produção dos meninos da ante_ontem é uma surpresa que todo amante de música deveria se deixar permitir ter.

Às vezes, tudo o que precisamos é de um minimalismo bem-feito.

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Eduardo Ferreira

Pra Ficar de Olho: measyou, gabo islaz, Tangolo Mangos e CLARAH


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