Psicólogas explicam a conexão entre o Heavy Metal e seus fãs

O Heavy Metal é capaz de gerar diferentes reações dependendo de quem o escuta. Enquanto para alguns o gênero soa como algo agressivo e muito barulhento, para outros ele representa um espaço de acolhimento e equilíbrio emocional.
Entre poderosos riffs e letras intensas, estudos e psicólogos buscam entender por que um estilo tão pesado como o Metal consegue criar conexões tão profundas com seus fãs.
A terapeuta Robyn Ward, conhecida nas redes como “The Metal Therapist”, acredita que a conexão com o Metal costuma começar na adolescência, fase que representa justamente um momento decisivo da formação da identidade de uma pessoa e que vai definir se ela irá amar ou odiar o gênero.
De acordo com a profissional, que trabalha como terapeuta há 8 anos e descobriu a música pesada ainda jovem, quando seus amigos a levaram a uma casa de shows de rock e emo, o impacto do gênero, através de suas letras repletas de angústia e o volume característico do seu som, acaba se conectando com as transformações emocionais típicas dessa fase da vida, como confusão, raiva e o sentimento de alienação.
À Louder Sound, a especialista explicou:
“Do ponto de vista da teoria psicológica, a adolescência é a fase em que você encontra sua identidade. Você se torna muito mais independente da sua família. Acho fascinante, porque foi exatamente o que aconteceu comigo: todos os meus irmãos são bem mais velhos do que eu, então eu me sentia um pouco diferente de todos.”
Apesar de muitos fãs de Metal, Rock, Emo e outros gêneros ouvirem com frequência o clichê “é só uma fase”, muitos relatos provam que os admiradores seguem ligados a esses gêneros por décadas. Para Robyn, no caso do Metal essa conexão acontece pois a relação entre o ouvinte e o estilo pesado vai muito além da música:
“Não é só a música, mas a comunidade. Acho que é como quando você vai à terapia: você quer encontrar um terapeuta com quem se sinta seguro, que te veja e te entenda. Esta é uma comunidade que, na maioria das vezes, sabe o que é sofrer. Nós somos os excluídos! Existe um nível de compaixão dentro da cena que eu sinto que ajuda as pessoas a sentirem um senso de pertencimento.”
A terapeuta também indica que a identificação com o Metal pode ser resultado de questões de saúde mental e neurodivergência. Robyn, que é diagnosticada com TDAH, explica que a natureza “complexa” e “multifacetada” da sonoridade do Metal lhe proporciona uma sensação de bem-estar maior do que outros estilos musicais.
A influência positiva do Heavy Metal na saúde
A influência positiva do Metal na saúde também foi discutida há poucos anos pela psicóloga clínica e terapeuta de Nova York, Dra. Nicole Andreoli, que abordou o tema em sua conta do TikTok. Na ocasião, ela disse:
“Foi comprovado que o Heavy Metal diminui as emoções negativas ao reduzir os níveis de cortisol, o que ajuda a reduzir o estresse. Pesquisas descobriram que pessoas que ouvem Heavy Metal tendem a pensar de forma mais lógica e complexa do que aquelas que não ouvem. O Heavy Metal também se mostrou muito eficaz para melhorar a concentração.”
Mas, apesar dos lados positivos, o Metal também é uma cena marcada por contradições. Isso porque, apesar de muitos fãs defenderem o movimento como um ambiente acolhedor, sabemos que existe uma divisão intensa nele em diferentes aspectos.
Um deles é o fato de existir uma série de subgêneros do Metal, e muitas vezes os fãs mais conservadores não conseguem aceitar todas as bandas e artistas desses segmentos como “Metal de verdade”. Daí, surgiu o famoso rótulo de posers para fãs de estilos mais contestados e, sobre isso, Robyn argumentou:
“Acho que é um instinto de proteção. Uma proteção em relação a algo que os fez sentir tão valorizados e um medo de que isso se torne algo mais comum.”
As polêmicas de gênero dentro do Metal
Já outra questão que deixa nítida as polêmicas envolvendo o Metal é a desigualdade de gênero dentro da cena. Desde a época de bandas pioneiras como Black Sabbath e Deep Purple, esse movimento musical teve predominância de homens e foi construído para homens, levando o Metal a ser visto como algo agressivo, confiante, dominador e poderoso, características que são tradicionalmente associadas à masculinidade conservadora.
Além disso, existem inúmeros relatos ao longo da história de mulheres que sofreram sexismo na cena, mas Robyn acredita que uma mudança vem acontecendo, principalmente com artistas mulheres ganhando destaque no universo do Metal.
Entre os exemplos de mulheres que têm dominado a cena e ganhado força na indústria nos últimos anos estão nomes como Poppy, Courtney LaPlante do Spiritbox, Tatiana Shmayluk do Jinjer e Riley Pinkerton do Castle Rat. Sobre a presença feminina, a terapeuta declarou:
“Eu me pergunto se há algo aí no fato do Metal também dar às mulheres um motivo para explorar sentimentos tipicamente masculinos, como raiva e agressão. Estou começando a ver mais mulheres nas rodas de mosh, e isso é ótimo. Acho que isso simplesmente dá às mulheres um pouco mais de permissão e permite que elas sejam levadas um pouco mais a sério na cena.”
A verdade é que tentar entender todas as nuances do Metal é um grande desafio. É perceptível que existe uma lógica capaz de explicar suas tendências e comportamentos característicos, ainda que muitas vezes eles se mostrem equivocados.
Mesmo servindo de refúgio para muitos de seus fãs, esses próprios integrantes da cena acabam, em alguns casos, tão alienados que decidem fiscalizar o espaço que os acolheu, com o intuito de não deixar que uma cultura dominante se aproprie da cena underground.
Robyn resume: apesar do metal não ser perfeito, ele ainda é um movimento que permitiu com que ela experimentasse sem se sentir julgada. “Eu poderia ir a um festival vestida de unicórnio e ninguém se importaria”, declarou a terapeuta. Sentimentos que só quem já viveu a cena pesada entende!
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Lara Teixeira
Psicólogas explicam a conexão entre o Heavy Metal e seus fãs




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