Pra Ficar de Olho: uma cena se constrói com você apoiando

O fone de ouvido insistia em isolar o som do mundo, mas era impossível não notar o contraste. Do lado de fora da janela do ônibus, o asfalto derretia sob o sol estalado de meio-dia em uma capital do país, daquelas onde o vento traz cheiro de maresia e pressa. Duas conexões aéreas e algumas horas de estrada depois, eu estaria pisando em uma calçada de paralelepípedos úmidos no Sul, encolhendo os ombros dentro de um casaco pesado enquanto a garoa fina insistia em embaçar os vidros dos carros. O Brasil flutua de temperatura em questão de horas, mas há uma constante que parece amarrar cada coordenada geográfica desse mapa: em algum beco esquecido, em cima de um palco improvisado ou atrás de uma porta de ferro acústica, tem alguém passando o som.
Andar pelas franjas da música independente nacional é um exercício constante de se perder para encontrar. Não existem placas turísticas indicando os caminhos, e as melhores referências geográficas quase nunca estão no GPS. “Vira na esquina do casarão antigo, passa o grafite da loba e entra na porta preta que não tem placa”, diz a mensagem prestativa na tela do celular. Você vai meio desconfiado, calculando o risco do instinto de sobrevivência urbana, até que o som surdo de um bumbo de bateria vibrando no peito resolve guiar os seus passos pelos metros finais. É o farol que faltava.
Quando a porta finalmente se abre, o cenário se repete em sotaques e estéticas completamente diferentes, mas com a mesma alma. Às vezes é um estúdio tomado por fios emaranhados, caixas de som empilhadas até o teto e paredes cobertas por cartazes de festivais passados que resistem ao tempo. Outras vezes, é o quintal de uma casa tombada, onde a fumaça do incenso se mistura ao cheiro de cerveja gelada e os amplificadores dividem espaço com plantas trepadeiras – a gente sabe: não há como fazer arte viva sem um pouco de caos organizado. A bagunça acolhedora desses espaços é o útero de onde nascem as canções que, meses depois, vão ecoar nos fones de jovens do outro lado do país.
Existe uma mística muito particular em acompanhar esse circuito. É ser transportado, sem aviso prévio, para a sala de estar de mentes inquietas que transformam dores cotidianas, crises existenciais e crônicas de suas próprias cidades em melodias arrebatadoras. Seja o peso distorcido de um rock de garagem, a cadência hipnótica de um neo-soul suburbano ou a psicodelia de uma nova MPB que redescobre suas raízes, a música feita aqui dentro não pede licença; ela acontece por urgência.
O público geral costuma olhar para as grandes engrenagens da indústria fonográfica à procura de novidade, sem perceber que o verdadeiro laboratório criativo do país está pulsando bem debaixo do seu nariz, nas cenas locais que se alimentam mútua e silenciosamente. É um ecossistema gigante, conectado por festivais de guerrilha, turnês feitas na raça dentro de vans e conexões genuínas de quem faz música pelo tesão da arte, e não pelo algoritmo.
Para provar que o mapa da nossa música é muito mais vasto, complexo e fascinante do que as paradas de sucesso deixam transparecer, decidimos pegar a estrada. Cruzamos fronteiras invisíveis para mapear o que está acontecendo agora. A seguir, você confere um roteiro essencial de shows ao redor do país – um convite aberto para você sair de casa, apoiar a cena da sua região e descobrir o próximo artista favorito que você nem sabia que existia… afinal, isso sim é algo Pra Ficar de Olho
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Pra Ficar de Olho – shows ao redor do país
Aniversário do Estúdio Central – Belo Horizonte
Se o verdadeiro laboratório criativo do país está longe do mainstream, BH tem tido uma crescente muito admirável de ver – e o Estúdio Central é um dos grandes catalisadores desse movimento. Localizado na tradicional rua Pouso Alto (Serra), o espaço não é apenas um local de ensaio e gravação de alta qualidade; em apenas dois anos, ele se consolidou como uma holding, selo independente e o principal hub cultural da capital mineira, carinhosamente apelidada de “indie come-quieto”.
O Central serviu como trampolim para bandas que hoje ocupam os palcos do Lollapalooza Brasil (como Varanda e Papisa) e a casa do aclamado álbum Tutorial, da banda godofredo (eleito um dos melhores do ano passado pela APCA). Agora, celebrando o Bicampeonato de Resistência (2 anos de casa!), o estúdio convocou a torcida para um mini-festival de três dias que resume perfeitamente o espírito da cena: misturar sotaques, gêneros e promover encontros inéditos.
Ao final do mês, essa é a escalação do evento:
Sexta-feira (26/06) | TROYENAS (Troá + Cayena): O festival abre com um encontro interestadual de peso. O duo carioca Troá se une à banda mineira Cayena (uma das apostas do selo do Central) para um show que amarra o groove, o experimentalismo e o rock alternativo na base da sinergia coletiva.
Sábado (27/06) | Pedro Acost + microplásticos: Uma noite sob medida para os entusiastas de guitarras texturizadas e melodias densas. Pedro Acosta (mente por trás dos arranjos da Bella e O Olmo da Bruxa) divide o palco com o ruído melancólico do projeto microplásticos.
Domingo (28/06) | Giovani Cidreira + eliminadorzinho: Para fechar o campeonato com um choque estético sensacional. O baiano Giovani Cidreira traz sua MPB contemporânea e pop experimental para o mesmo palco onde os paulistas da eliminadorzinho destilam seu indie rock noventista lotado de distorções e energia lo-fi.
Os ingressos? Disponíveis acessando por aqui!
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Rota Indie apresenta: Exclusive Os Cabides e boasorte – São Paulo
Se a nossa missão sempre foi descentralizar a informação e criar pontes entre quem faz e quem ouve, nada mais justo do que apresentar e celebrar os quatro anos de estrada de um projeto transformando o digital em encontro presencial! A Rota Indie nasceu no ambiente acadêmico, mas ganhou vida própria nas ruas, nos palcos e nos fones de ouvido de quem busca o que há de mais autêntico na música brasileira. Atualmente conduzido por Julia Bonin e Lorena Lindenberg, vemos as meninas apresentarem uma curadoria muito sólida, humana, e um conteúdo bem original nas redes.
Para soprar as velinhas em grande estilo, a Rota Indie preparou uma noite especial no Bar Alto, o refúgio perfeito na Vila Madalena para quem não abre mão de uma programação afiada. A catarse litorânea da Exclusive Os Cabides e a sensibilidade urbana da boasorte vão invadir o espaço no dia 4 de julho e você pode garantir presença acessando aqui!
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Exclusive os Cabides + Tangolo Mangos + CACO/CONCHA + Carmino – Curitiba

O inverno curitibano vai ter que abrir espaço para o calor de um verdadeiro intercâmbio cultural! A capital paranaense se transforma no ponto de encontro de três estados em uma única noite de catarse independente, capitaneada pelo retorno da Exclusive Os Cabides e temperada com psicodelia baiana, tropical new wave paulistana e a poesia do interior catarinense. Se você quer entender como a nova safra da música brasileira está transformando a vivência da estrada em registros vivos e dançantes, essa noite é obrigatória.
A escalação é a seguinte:
Exclusive Os Cabides (SC): Equilibrando o pé na estrada e o coração no mar de Florianópolis, a banda retorna a Curitiba para lançar o elogiado EP Feliz e triste ao mesmo tempo. Nascido da intensidade de um ano inteiro de turnê, o novo registro traz uma identidade muito mais roqueira e enérgica, feita sob medida para colocar o público para dançar, sem perder o charme setentista e a irreverência que o grupo carrega consigo.
Tangolo Mangos (BA): Diretamente de Salvador, o grupo apresenta seu segundo PEDAGIOS Y CARONAS. O som camaleônico da banda ganha um registro mais direto e fiel à sua catártica performance ao vivo, misturando o maximalismo psicodélico e ritmos nordestinos a referências que vão do City Pop japonês ao drum n bass.
CACO/CONCHA (SP): Estreando em terras paranaenses, o projeto paulistano entrega um autêntico tropical new wave. É o encontro do concreto metropolitano com a suavidade da costa, resultando em um palco tomado por texturas rítmicas e sinergia latina, onde bongôs, agogôs e chocalhos se entrelaçam com guitarras funkeadas e synth funk.
Carmino (SC): O responsável por abrir os caminhos dessa note em julho, o artista do interior de Santa Catarina traz as canções de seu disco de estreia, Casa de Badalação & Tédio. Seu som é uma mistura fina de indie rock dançante, pop alternativo e letras confessionais sobre crises existenciais, romances e a ansiedade dos vinte e poucos anos.
O show ocorre no dia 25 de julho, e os ingressos podem ser comprados clicando aqui!
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Jonathan Tadeu, Unbelievable Things & Vevida Rox – Maringá
Quem disse que o circuito independente vive apenas de capitais? O interior do Paraná está reivindicando seu espaço no mapa e a “Cidade Canção” acaba de garantir uma parada obrigatória.
Maringá se prepara para receber um dos nomes mais viscerais, confessionais e influentes da música alternativa brasileira da última década: Jonathan Tadeu. Uma das mentes criativas e gênio das guitarras do lendário grupo mineiro Lupe de Lupe, o músico desembarca na cidade em uma turnê histórica e nostálgica que celebra os 10 anos de seu segundo álbum solo, Queda Livre. Para dar o tom lo-fi perfeito, ele sobe ao palco acompanhado pelos músicos da Unbelievable Things.
Além desse showzaço a noite do dia 21 de junho também contará com a maestria dos queridos da cena local Vevida Rox e discotecagem do misterioso DJ Cabrón.
Tem interesse? Corre pra garantir os seus ingressos (é só clicar aqui, risos).
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Chococorn and the Sugarcanes – nordeste!
Quem disse que o “emo caipira” não combina com o calor do litoral? O quarteto Chococorn and the Sugarcanes, um dos maiores expoentes da nova música nacional, está provando que sua energia carismática não conhece fronteiras geográficas. Após conquistar o extremo sul, a banda mergulha agora em solo nordestino com a ambiciosa turnê “Operação Embaixo d’água”, trazendo na bagagem o aclamado novo álbum Todos os Cães Merecem o Céu.
No novo disco, a Chococorn expandiu seus horizontes. A banda que cativou o público com referências de midwest emo e MPB agora incorpora sintetizadores, baterias eletrônicas e harmonias vocais grandiosas. É um som que viaja pelo luto e pela melancolia, mas sempre com aquela “gentileza perdida” que se tornou a marca registrada do grupo. No palco, a experiência da turnê “Operação Embaixo d’água” é ainda maior e mais vívida.
O Nordeste vai receber apresentações que equilibram a introspecção das novas faixas com a energia contagiante que transformou cada fã em um “torcedor” fiel. É o momento de ver como as baterias eletrônicas e as guitarras choradas se misturam à vibração única das capitais nordestinas. Acessa aqui pra você conferir a agenda do grupo!
Pra Ficar de Olho: pelo Brasil
Eu quis fazer esse texto após ver um amigo meu postar no Instagram: “tem muita gente boa fazendo música pelo Brasil, e até mesmo próximos de você”. Sinceramente? Uma das coisas mais legais que vi nas redes em muito tempo.
Não existe motivo pra não buscar, está acontecendo tudo em todos os lugares, ao mesmo tempo (sim, é uma piadinha tosca). Sai do conforto do seu sofá, tira os fones de ouvido e se permita expandir.
Nos vemos em uma grade ou em algum mosh por aí?
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Eduardo Ferreira




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