Resenha: liricismo confesso de Malcolm Todd encanta em “Do That Again”

Existe uma armadilha muito bem desenhada no pop atual que exige dos novos rostos uma postura de semi-deuses intocáveis, e aos 22 anos, Malcolm Todd prefere chutar o pedestal. Lançado nessa sexta-feira (05), seu segundo álbum de estúdio Do That Again (apesar de Malcolm ter uma mixtape de estreia lançada em 2024) funciona como um antídoto para a grandiosidade artificial que satura os algoritmos. Se o registro homônimo de 2025 já dava pistas de um cronista astuto do cotidiano, este novo compilado de 13 faixas consolida o jovem californiano como o arquiteto de uma sofrência que não te joga na cama, mas te convida a balançar o corpo na penumbra do quarto.
Musicalmente, o trabalho se recusa a habitar uma única gaveta. O arista costura com linha invisível o despojamento estético do bedroom pop com o peso instrumental e as harmonias vocais complexas do neo-soul e de um R&B alternativo, moderno. É um disco movido a guitarras ensolaradas e linhas de baixo carregadas, mas que trazem uma névoa de melancolia em suas texturas. Malcolm sabe brincar com acordes dissonantes e progressões incomuns aprendidas nas salas de aula da Universidade de Oregon, transformando o que poderia ser apenas “música de fundo” em labirintos sonoros cheios de detalhes.
O grande trunfo de Do That Again está na sua lírica desarmada; Malcolm não escreve como quem quer criar hinos de estádio, e sim escreve como quem manda mensagens de madrugada que provavelmente se arrependerá de ter enviado (afinal, quem nunca?). Há uma dualidade fascinante que flutua por todo o repertório: a eterna tensão entre o desejo físico imediato e o medo paralisante da rejeição emocional.
Continua após o vídeo
A Anatomia do Sentir: do flerte à ressaca emocional
O álbum se comporta como o ciclo completo de uma noite de juventude. Ele começa quente, guiado pela urgência física e pela combustão espontânea dos encontros casuais:
- A Carne: Faixas como “Jean Skirt” (uma intro de 59 segundos hipnotizante) e “Breathe” trazem um magnetismo quase tátil. A produção aqui é aquática, sensual, cheia de guitarras suingadas que simulam a eletricidade de roupas deixadas pelo chão. É o Malcolm confiante, flertando com o perigo emocional sob a desculpa de que “tudo vale a pena pela composição”.
- A Queda: A transição para a autoconsciência é rápida. Em “I Saw Your Face“, o eu-lírico descobre que brincar com fogo queima. A maturidade dá as caras quando ele assume que amar, às vezes, exige o egoísmo doloroso de deixar o outro ir embora para preservar o que resta de sanidade.
- O Isolamento Moderno: O ápice da identificação geracional acontece em “Lonely Song“. Ao cantar que seu interfone só toca quando a comida chega, ele traduz o isolamento da Geração Z com uma ironia fina – o retrato de um rapaz que, apesar de ver seu rosto estampar fã-clubes e edições no TikTok, lida com as mesmas paredes vazias que qualquer um de nós.
Continua após o vídeo
O Encontro com o Mito e o Veredito
Se o álbum é um diário de amadurecimento, o ponto final é uma espécie de batismo. A faixa-título, “Do That Again”, traz ninguém menos que Steve Lacy – uma das maiores inspirações de Malcolm — assumindo o baixo, a guitarra e costurando harmonias vocais no encerramento da música. Ver o jovem que há dois anos gravava músicas nos intervalos de uma sorveteria dividir o microfone com sua maior referência é o tipo de validação que não se compra com números de streaming.
Longe de ser uma repetição confortável do que fez em 2025, Malcolm Todd entrega um trabalho que sangra autenticidade, compreendendo as engrenagens da indústria e se recusando a ser mastigado por elas. Do That Again é charmoso porque é imperfeito; é viciante porque é humano. É um registro que prova que, para tocar o topo do mundo, às vezes você só precisa sussurrar as verdades mais cruas que guarda no peito.
★★★★ (4/5)
OUÇA AGORA MESMO A PLAYLIST TMDQA! LANÇAMENTOS
Quer ficar por dentro dos principais lançamentos nacionais e internacionais? Siga a Playlist TMDQA! Lançamentos e descubra o que há de melhor do mainstream ao underground; aproveite e siga o TMDQA! no Spotify!
O post Resenha: liricismo confesso de Malcolm Todd encanta em “Do That Again” apareceu primeiro em TMDQA!.
Eduardo Ferreira
Resenha: liricismo confesso de Malcolm Todd encanta em “Do That Again”




Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.