Manu Gavassi abre o jogo: “Tô num hiato da música. Isso é muito tranquilo e foi escolhido”
Viver na era da hipervisibilidade exige uma coragem quase subversiva para dar um passo atrás. Em um mercado onde “não ser visto é não existir”, Manu Gavassi decidiu contrariar a lógica do algoritmo. Afastada voluntariamente dos palcos e dos lançamentos fonográficos imediatos, a artista revelou estar vivendo uma transição profunda em sua carreira, migrando sua energia criativa para os bastidores do cinema e da escrita narrativa.
Crédiito: Reprodução/Instagram
A revelação aconteceu durante uma entrevista profunda e reflexiva ao podcast Contraplano, que saiu em parceria com a O2 Filmes. Conhecida por sua habilidade multifacetada, Gavassi abriu o jogo sobre a necessidade de desacelerar o “relógio interno” que assombra mulheres jovens na indústria do entretenimento.
A transição para trás das câmeras
O movimento não é impulsivo. Nos últimos anos, Manu vem estruturando o Estúdio Gracinha, sua própria produtora audiovisual, através da qual passa a assinar projetos como roteirista, diretora e cineasta. Para abraçar essa nova faceta intelectual, no entanto, foi preciso desatar os nós de uma cobrança antiga: a de que precisava performar tudo ao mesmo tempo.
“Nos últimos anos, passei por um processo de entender o que eu realmente quero”, desabafou a artista. “Toda vez que eu decidia por um único caminho, ficava meio triste, porque sentia que tinha que abandonar uma outra parte que também me faz feliz. A solução que encontrei foi entender que não precisa ser tão imediato, não precisa ser tudo ao mesmo tempo.”
Saúde mental contra a tirania do “esforço visível”
O afastamento temporário da música pop, um terreno que ela própria reconhece ser guiado por prazos implacáveis e pressões comerciais, foi uma escolha estratégica de preservação. Gavassi pontua que o ritmo anterior cobrava um preço alto de sua saúde mental e gerava níveis insustentáveis de ansiedade.
“Eu entendi que posso me dar esses pequenos afastamentos, e está tudo bem. Estou num hiato da música. Isso para mim é muito tranquilo, e foi escolhido. Quando eu penso ‘nunca mais vou cantar’, eu fico: ‘ai, será? Calma, gente, não sei dizer’. Havia muita coisa que me causava ansiedade, que não me fazia feliz e não combinava com a minha saúde mental. Senti que precisava me afastar e, ao mesmo tempo, bancar essa decisão.”
Ao assumir a calmaria, a artista também precisou lidar com o medo do julgamento público em um ecossistema digital que confunde silêncio com fracasso. “Bancar um esforço invisível é difícil. Estamos falando de uma era em que o esforço precisa ser visível, senão você não existe. Decidi passar por esse esforço intelectual: sentar na cadeira, ler muito, assistir muita coisa e tentar escrever um pouquinho todo dia. Eu decidi fazer isso mesmo sabendo que as pessoas podem pensar: ‘coitada, morreu’, ou ‘tanto potencial desperdiçado’. Estou bancando me fazer feliz.”
A desprogramação dos 30 anos e o fator tempo
Um dos pontos mais sensíveis tocados por Manu Gavassi foi o etarismo velado que molda o mercado pop e dita o ritmo de carreiras femininas. Tendo começado muito jovem no cenário musical, ela relata ter sido programada para acreditar que o sucesso tinha um prazo de validade curto e sufocante.
“Sendo uma mulher jovem que começou na música pop, você cresce achando que não tem tempo. Parece que, ao bater os 30 anos, o mercado te diz: ‘um beijo, obrigada por tudo, tchau, acabou para você’. Eu tinha esse relógio interno instalado, mesmo sabendo racionalmente que a minha graça e o meu valor não estavam nisso. Agora, o meu momento é de me desprogramar e entender que não: eu tenho tempo, eu sou inteligente, eu consigo. É mais sobre esse processo de maturação do que simplesmente ter escolhido abandonar algo”, concluiu.
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Bruna Cora
Manu Gavassi abre o jogo: “Tô num hiato da música. Isso é muito tranquilo e foi escolhido”



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