TMDQA! Entrevista: Chris Geddes, do Belle and Sebastian, fala sobre música e futebol antes de Brasil x Escócia

Belle and Sebastian, em foto por Anna Isola Crolla
Foto por Anna Isola Crolla

O som clássico de um teclado Fender Rhodes flutuando sobre uma arquibancada lotada não é uma imagem comum para o futebol, mas é o desenho exato da mente de Chris Geddes. O Belle and Sebastian nunca foi uma banda de vestiário – o grupo de Glasgow sempre pertenceu ao quarto dos desajustados, aos sebos de vinil e às canções de amor platônico escritas em dias de chuva. No entanto, em 2026, eles decidiram que o indie pop mais delicado do planeta estava pronto para calçar as chuteiras e encarar o barulho dos estádios.

A inédita “It Only Takes One Lion” é o reflexo dessa transformação. A faixa deixa de lado o recolhimento acústico dos anos 90 para abraçar a vertigem de um disco pop acelerado, onde o otimismo e a frustração histórica de uma nação correm lado a lado. Com a produção de Pete Ferguson, o grupo esticou as próprias fronteiras, provando que a identidade de uma banda com três décadas de estrada não precisa ficar trancada em uma caixa de vidro – ela pode se reinventar na velocidade de um contra-ataque.

Atrás da parede de pixels de uma chamada de vídeo internacional, o Atlântico se transformou em uma linha tênue. De um lado da tela, o inverno brasileiro e o clima de Copa do Mundo mudando a rotina do país; do outro, a calmaria analógica do estúdio de Chris em Glasgow, cercado por prateleiras intermináveis de discos e sintetizadores vintage.

Nós do TMDQA! nos conectamos com o tecladista para conversarmos sobre música, identidade e futebol. Em uma conversa que cruzou fusos horários, Chris Geddes dissecou a produção musical por trás do novo single, debateu como a essência da banda sobrevive ao flertar com as massas e explicou por que, no fim das contas, a busca pelo acorde perfeito é tão imprevisível quanto o resultado de um jogo de Copa do Mundo.

Confira abaixo!

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TMDQA! Entrevista Chris Geddes (Belle and Sebastian)

TMDQA!: Bom, antes de mais nada, Chris, muito obrigado por falar com a gente! Mesmo em meio a essa correria, é um prazer.
Vamos lá: foi mencionado que “It Only Takes One Lion” captura 50 anos de dor e esperança dos torcedores do futebol escocês. Musicalmente, a faixa transita de um som tradicional para um disco pop acelerado e cheio de cordas. Como tecladista, como foi traduzir esse sentimento clássico do futebol escocês de “quase chegar lá” em um ritmo que faz as pessoas quererem dançar em vez de chorar?

Chris Geddes: Ah, sim! Foi muito divertido trabalhar nessa faixa. Nós colaboramos com alguns amigos produtores com quem já fizemos muita coisa: o Brian McNeil, que é nosso engenheiro de som de longa data, e o Pete Ferguson, que assumiu grande parte da produção – o Pete merece o crédito por boa parte dos sintetizadores. Enquanto estávamos em turnê, tive tempo de gravar alguns overdubs de teclado e mandar para eles, e fiquei bem feliz que acabaram entrando na versão final, foi definitivamente um esforço coletivo.

Mas sim, é divertido fazer essas coisas; a direção da banda mudou ao longo dos anos e hoje fazemos essas faixas mais enérgicas, voltadas para disco, em comparação com o material mais folk que costumávamos fazer. Para mim, como tecladista, gosto muito das músicas em que toco só piano, mas também é uma delícia brincar com sintetizadores, samples de cordas e coisas do tipo.

TMDQA!: O pico criativo atual de vocês foi comparado à era do If You’re Feeling Sinister. Voltando ao final dos anos 90, Brasil e Escócia fizeram o jogo de abertura da Copa do Mundo de 1998, com vitória do Brasil. Que memórias você tem daquela partida e qual a sensação de ver esse confronto se repetir agora na Copa de 2026, justamente quando a banda celebra 30 anos?

Chris Geddes: Sim, eu me lembro muito bem de assistir à Copa de 98! Uma das grandes memórias que tenho é de quando a câmera estava passando pela escalação dos times antes do apito inicial, e o John Collins (meio-campista escocês) deu uma piscadinha para a lente. Minha lembrança daquele jogo é que a Escócia sofreu um gol bem cedo, conseguiu empatar, ficamos muito perto de segurar o 1 a 1, até que o Tom Boyd fez aquele gol contra que deu a vitória ao Brasil.

Acho que a nossa atuação ali não foi ruim, mas o que veio depois foi trágico: empatamos com a Noruega no jogo seguinte e, quando fomos pegar o Marrocos, todo mundo pensou: “ah, o Marrocos não é tão bom no futebol, provavelmente vamos conseguir o resultado”, e eles nos bateram por 3 a 0. Foi horrível, acho que o Craig Burley ainda foi expulso. Desta vez, ninguém na Escócia está assumindo que vamos ganhar do Marrocos, porque hoje eles são, sem sombra de dúvidas, uma das melhores seleções do mundo.

TMDQA!: A habilidade de vocês em “reanimar o mundo de estetas e desajustados” foi devidamente elogiada. No Brasil, temos visto o crescimento de cenas indies regionais muito fortes que buscam os holofotes do mainstream – um movimento de muito senso de comunidade, onde os artistas se reúnem em pequenos estúdios independentes para criar identidades intimistas. Tendo se formado em Glasgow e mantido essa essência indie por três décadas, como você vê a importância de preservar esse espírito de “desajustado” e de comunidade na música hoje?

Chris Geddes: É interessante, porque eu diria que, na maioria das vezes, não pensamos nisso de forma consciente; simplesmente sempre pareceu natural ficar em Glasgow, porque estávamos muito enraizados aqui. Quando a banda começou, nunca tivemos aquela obsessão de “precisamos nos mudar para Londres para acontecer”, porque conhecíamos outras bandas que ficaram em Glasgow, fizeram o seu som e alcançaram um nível de sucesso que, para nós, já era muito além do que imaginávamos para nós mesmos – bandas como o Teenage Fanclub. Para mim, estar enraizado em uma comunidade é fundamental.

Glasgow tem uma cena musical muito forte, e não apenas de indie; há uma intersecção muito maior do que se imagina entre o pessoal do indie e o da música eletrônica, porque é uma cidade pequena e todo mundo se conhece. Acabamos de voltar de uma turnê pelos Estados Unidos e, antes de ir, eu e boa parte da banda estávamos um pouco apreensivos sobre como seria estar lá, por conta de toda a situação política e de como o país parece dividido olhando de fora.

Mas, nos shows, deu para sentir de verdade esse senso de comunidade entre os fãs, e entre a banda e o público. Deu a sensação de que as apresentações foram um ótimo ponto de encontro para pessoas com pensamentos parecidos se conectarem e terem o alívio de saber que “existem outras pessoas como nós por aí”.

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TMDQA!: Chris, você é conhecido por ser um grande pesquisador musical e DJ nas horas vagas. A música brasileira dos anos 1970 – nomes como Marcos Valle, Arthur Verocai e Jorge Ben – tem um ecossistema riquíssimo de arranjos de cordas e grooves de teclado que dialogam muito com o lado mais solar do Belle and Sebastian. Se você pudesse roubar um elemento de produção da MPB clássica para injetar em uma faixa do Late Developers ou no novo single da Copa, qual seria?

Chris Geddes: Cara, que pergunta fantástica! E você tem toda razão, eu sou absolutamente apaixonado por essa era da música brasileira, a musicalidade e a produção daquele período são inacreditáveis para mim.

Acho que ter um arranjo de cordas do Arthur Verocai em uma de nossas músicas seria surreal. A outra coisa seria a ênfase na percussão; é algo que eu queria que fizéssemos mais. Às vezes a bateria tradicional é importante, às vezes menos, mas ter faixas onde o pandeiro é o verdadeiro motor do groove, ou ter várias pessoas tocando percussão de mão em vez de uma só sentada num kit de bateria… eu adoro isso. Seria maravilhoso.

TMDQA!: Hinos de futebol geralmente seguem aquele formato previsível de canto de arquibancada, mas em “It Only Takes One Lion” vocês trouxeram um sabor fortíssimo de disco pop. Da sua coleção pessoal de discos, quais foram as faixas de pista de dança mais improváveis que serviram de inspiração espiritual para o groove dessa música?

Chris Geddes: É difícil citar um disco específico da minha coleção que tenha inspirado o groove, porque, como eu disse, foi a produção do Pete que realmente deu esse sabor à faixa. Mas eu amo a era disco. Só me pegaria um pouco desprevenido tentar nomear uma faixa específica agora [risos].

TMDQA!: Muitas bandas entram em um modo puramente nostálgico quando batem a marca dos 30 anos. Vocês, por outro lado, estão tocando os dois primeiros álbuns clássicos na íntegra ao mesmo tempo em que lançam um single novo e de altíssima energia. Como é para você, ali nos teclados, “virar a chave” no mesmo set entre o minimalismo silencioso, quase tímido, de Tigermilk e a energia gigantesca do novo single?

Chris Geddes: Exige uma pequena mudança de mentalidade, mas não acho difícil. A forma como meu setup de teclados é montado no palco funciona via instrumentos MIDI; eu basicamente mudo o som de música para música.

Então, se entra um timbre de piano e o Stuart está tocando violão, eu naturalmente toco baixinho, quando entra uma produção maior, eu aperto um botão – o timbre muda para aqueles super pads de sintetizador e a energia vem. No fim das contas, a técnica de tocar em si não muda tanto, o que muda é a dinâmica de como a banda inteira se comporta.

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TMDQA!: Quando me disseram que íamos conversar, fui ouvir a música e fiquei pensando que compor um tema para a Copa do Mundo é quase como criar a trilha de um filme cujo final você não conhece – porque pode acabar como um drama de partir o coração ou um épico glorioso. Como vocês constroem a tensão dramática na música para que ela funcione tão bem nos fones de ouvido de um nerd de música quanto em um estádio lotado de torcedores gritando?

Chris Geddes: Essa é uma ótima pergunta! A produção é definitivamente cheia de camadas, acontecem muitas coisas diferentes ali, inclusive vocalmente. Ela nunca vira um “grito de torcida” 100% literal, mas no último refrão, pela forma como as vozes se movem, a dimensão fica enorme.

Na letra, ao falar sobre a Copa, o Stuart cita apenas as seleções que vamos enfrentar na fase de grupos: Brasil, Haiti e Marrocos, e a música simplesmente acaba aí. Ela termina em um cliffhanger, deixando em aberto se vamos conseguir sair da fase de grupos ou não.

TMDQA!: A Escócia sempre teve aquela reputação clássica de underdog [azarão] no futebol, o típico time que os torcedores neutros amam adotar – o que parece um paralelo perfeito com a própria cultura do indie pop. Você acha que é preciso um certo nível de melancolia romântica e resiliência (algo que vocês dominaram na música) para ser um verdadeiro torcedor da Escócia?

Chris Geddes: Sim, acho que sim! Nós abraçamos as decepções, as “falhas gloriosas”… definitivamente você precisa aprender a abraçar isso.

TMDQA!: Agora eu queria que você imaginasse a cena: se o Belle and Sebastian fosse convocado de surpresa para entrar em campo contra o Brasil no dia 24 de junho no lugar da seleção escocesa, como seria a escalação? Quem seria o atacante habilidoso e quem seria o zagueiro brucutu segurando a linha de defesa?

Chris Geddes: Bom, o Stuart jogaria no meio-campo central, porque era a posição dele quando jogava de verdade. Eu teria que ser o lateral, porque a única coisa que sei fazer bem é correr para cima e para baixo. O Dave [McGowan, baixista], nós provavelmente colocaríamos na zaga central porque ele é muito sólido e confiável, fazendo dupla com o Richard [Colburn, baterista]; teríamos uma zaga bem segura. A Sarah Martin acho que iria para o ataque, desconfio que ela seria uma surpresa incrível como centroavante, e o Stevie Jackson, eu colocaria na ponta direita.

Por nenhuma razão específica! [risos]

TMDQA!: Para encerrar o assunto futebol: se o jogo do dia 24 de junho entre Brasil e Escócia não fosse decidido em gols, mas por uma batalha musical no gramado – o balanço da bossa do Brasil contra o indie e os arranjos de cordas da Escócia -, qual seria o placar final e quem levaria o troféu de melhor trilha sonora?

Chris Geddes: Ah, cara… por mais que eu devesse ser leal à Escócia aqui, para mim daria 3 a 1 para o Brasil.

TMDQA!: 3 a 1?! Meu Deus, eu achava que você diria algo como um 2 a 2! [risos]

Chris Geddes: Aceito também! [risos]

TMDQA!: Chris, meu nome é Eduardo e estou representando o site brasileiro Tenho Mais Discos Que Amigos!. Nós temos uma tradição no final das nossas entrevistas e eu gostaria de fazê-la contigo: poderia nos citar 5 discos que mudaram a sua vida e as razões sobre?

Chris Geddes:

  1. Beastie Boys – Check Your Head: Por toda a estética dele. Tem uma foto na parte interna do encarte deles no estúdio, tocando juntos, e lembro de olhar para aquilo e pensar: “‘é isso que eu quero fazer da vida”.
  2. The Stone Roses – The Stone Roses: Na época em que saiu, tocava em todo lugar e todos os meus amigos eram obcecados. Foi um grande portal de redescobrimento da música dos anos 60 para mim, porque eles viviam citando essas referências nas entrevistas.
  3. Rod Stewart – Never a Dull Moment: Teve um período, logo depois que o Belle and Sebastian se juntou no final dos anos 90, em que eu ouvia muito Rod Stewart e The Faces. O Ian McLagan tocava muito o piano elétrico, e eu roubei muita coisa do estilo dele.
  4. Aretha Franklin – Aretha’s Gold: É uma compilação dos singles dela da Atlantic Records do final dos anos 60 e início dos 70 – comprei esse disco usado num sebo em Glasgow por aquela mesma época dos anos 90. A combinação da voz dela, das composições e dos músicos… eu roubei muita coisa do Spooner Oldham, que era quem tocava os teclados naqueles discos.
  5. Os Mutantes – Os Mutantes [1968]: Seria bobagem minha não mencionar um disco do Brasil agora! Eu não diria necessariamente que é o “melhor disco brasileiro já feito”, mas quando você vem de uma escola de fã de rock britânico e americano e ouve a forma como eles recontextualizaram aquilo… é de uma imaginação absurda, tem timbres fantásticos ali.

Então é isso, aí estão os cinco!

TMDQA!: Você com certeza sabe das coisas, cara. Muito obrigado, foi incrível falar com você!

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Eduardo Ferreira

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