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Chinaina leva videoclipes de artistas independentes à TV: “a IA não prevê talento”

Assistir a um videoclipe já foi um acontecimento coletivo e sua exibição passava por uma curadoria de editores. Depois da escola, esperar para assistir à sua banda favorita na televisão trazia ansiedade e tensão. Com pouquíssimas exceções, o hábito de descobrir música pela TV foi sendo engolido por uma dinâmica cada vez mais digital em que o algoritmo sugere, organiza e, muitas vezes, escolhe por você.
Para Chinaina, no entanto, o videoclipe nunca perdeu força. O que desapareceu foi o espaço. É a partir dessa percepção que nasce o Caça Joia Clipes, programa exibido no Canal Futura e no Globoplay, com apresentação do músico pernambucano e um objetivo direto: levar artistas independentes de volta à TV.
Em 13 episódios, a primeira temporada apresenta mais de 170 artistas e bandas de todo o Brasil, a partir de uma curadoria feita depois de mais de 4 mil videoclipes recebidos. Ao lado da diretora e curadora Pamella Gachido, Chinaina assistiu a tudo. Não por obrigação, mas por missão de vida:
Quando eu mando meu som para alguém, eu espero que essa pessoa escute. Então, a escuta tem que ser verdadeira”.
Na conversa com o TMDQA!, o programa virou ponto de partida para uma discussão maior: o que acontece quando o mercado olha mais para números do que para talento? O que se perde quando a música independente só ganha atenção depois de furar uma bolha que já existia há anos? E por que ainda importa ver um clipe na TV em tempos de timeline infinita?
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TMDQA! Entrevista Chinaina
TMDQA!: Você recebeu mais de 4 mil clipes para o Caça Joia Clipes. Adorei a diversidade logo no primeiro episódio. Como foi encarar esse volume de material sem transformar a curadoria em uma coisa automática?
Chinaina: A seleção está muito legal mesmo. A gente abriu um site para organizar a quantidade de clipes que ia receber. Eu só não esperava que fossem mais de 4 mil.
E aí eu tenho uma coisa como artista: quando eu mando meu som para alguém, eu espero que essa pessoa escute. Então, a escuta tem que ser verdadeira. Eu assisti aos 4 mil clipes. Eu e a diretora do programa, Pamella Gachido, sentamos na cadeira e assistimos a mais de 4 mil videoclipes. Muita coisa chegou assim.
Eu não conhecia Augusta Barna, por exemplo. Alguém tinha indicado o clipe dela. Eu fui assistir e pensei: “Como assim eu não conheço essa mina? Como assim essa mina não está em todo lugar?”. Um som muito bom, o clipe super charmoso, a letra muito legal, um balanço gostoso. A gente foi descobrindo umas pérolas.
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TMDQA!: Para muita gente, especialmente quem cresceu vendo MTV, ter um clipe na TV era uma espécie de auge. O que significa devolver esse espaço para artistas independentes?
Chinaina: A gente não está inventando a roda. Essa roda sempre existiu. A MTV, o clipe do Fantástico, que é mais da minha geração… A família parava para assistir ao clipe do Fantástico. A gente só está botando essa roda para girar de novo.
Quando eu estava na MTV, em 2011, já escutava dos executivos que o clipe ia acabar, que programa de videoclipe não fazia mais sentido. Eu sempre achei aquilo meio absurdo. A produção de videoclipes só aumentou. Com a necessidade das telas, das redes sociais, hoje não adianta o artista lançar só um disco. Ele precisa ter material visual.
O que acabou foi o espaço para esses artistas aparecerem. Então eles migraram para a internet, para as redes sociais, para conseguir mostrar o trabalho. O Caça Joia devolve um pouco o lugar onde o videoclipe tem que estar, que é na TV. É a pessoa ligar a televisão e, enquanto assiste àquela seleção de clipes, estar cozinhando, tomando uma cerveja, fazendo qualquer coisa da casa, mas com aquele estímulo visual vindo da TV, não só da rede social.
E vamos combinar: todo artista quer ter o clipe na TV. Por mais legal que seja ter milhões de likes, todo artista quer ver o clipe na televisão.
TMDQA!: Você fala do programa quase como uma forma de retribuição à música. Tem esse sentimento?
Chinaina: Tem. Fazer esse programa, de certa forma, é agradecer tudo que a música fez por mim. Eu fui revelado um dia. Eu era um artista que ninguém conhecia. A música me deu tudo que eu tenho, me levou para a TV, me levou para um monte de lugar.
Eu sempre fui muito curioso com a cena independente e sempre tive vontade de ouvir essa galera. Pelo trabalho que fiz na TV, já entrevistei um monte de artista grande, mas meu prazer mesmo sempre foi entrevistar um artista que ninguém conhece.
Como artista, eu lembro até hoje da primeira entrevista que dei, que foi para Fábio Massari. Isso ficou marcado na minha cabeça. Já dei entrevista para muita gente, mas aquela ficou marcada por ser a primeira. Então, ter a oportunidade de ser talvez o primeiro na vida dessa galera me dá muito tesão. Eu acredito muito nessa cena musical brasileira.
TMDQA!: O programa também parece nascer de uma reação a um mercado cada vez mais guiado por algoritmo, número e previsão de desempenho. Isso te preocupa?
Chinaina: A gente vive num ambiente muito estranho, onde algoritmos determinam o que você vai ouvir. Várias empresas estão usando inteligência artificial para ver se determinado artista vai ter êxito ou não. Eu acho isso uma grande burrice, porque você mata a árvore da música antes dela dar fruto.
O Caça Joia é o contrário. É a gente plantando uma sementinha e querendo ver essa sementinha virar uma árvore bonita. O mercado começou a olhar para número. Uma vez, conversando com um executivo, ele falou que agora dava para pegar o ridículo do artista, jogar numa plataforma de IA e ela dizer se aquele artista teria um futuro garantido na música ou não. Eu falei: “Cara, mas a IA não consegue prever a coisa mais importante, que é o talento”.
Não dá para comparar, por exemplo, um artista punk com um artista pop. Se estivessem começando os Gilsons de um lado e o Ratos de Porão do outro, claro que os Gilsons teriam mais entrada por serem mais maleáveis para um público geral. Dependendo desse algoritmo, o Ratos de Porão nem existiria. Sepultura, coitado.
A gente tenta nadar contra essa corrente. Acho muito estranho a gente perder tantos talentos em detrimento de números e ver a mesmice em todos os lugares. A gente quer descobrir o próximo Gil, o próximo Caetano.
TMDQA!: No primeiro episódio você começa falando sobre uma artista de Rondonópolis, depois você vai para o Maranhão e traz seus conterrâneos de Pernambuco… Ainda existe uma falta de espaço para essa diversidade na música brasileira, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo? Como essa preocupação guiou a curadoria do Caça Joia Clipes?
Chinaina: A gente precisa muito disso. Não só do espaço do Caça Joia, mas de todos os espaços que a música independente puder ocupar. A música independente de vez em quando dá um boom e fura a bolha.
Isso aconteceu nos anos 90, com aquela geração de Planet Hemp, Chico Science & Nação Zumbi, Raimundos. Eu estava presente como músico nessa época. Depois aconteceu nos anos 2000, com Emicida, Tulipa Ruiz, Criolo, Marcelo Jeneci e outros artistas independentes.
Nessa época, eu estava na televisão, e todos eles passaram pelo meu programa. Imagina se não tivesse esse espaço. Será que a gente ia cultuar esses artistas do jeito que cultua hoje se eles não tivessem tido a chance de mostrar o trabalho?
O Caça Joia cumpre essa função também. Se eu não me engano, temos artistas de todos os estados do Brasil. Prezamos pela equidade de gênero, pela mistura de ritmos. Em cada programa, você tem um pouco de tudo.
Teve um cara que me mandou mensagem dizendo: “Duvido você botar uma banda de cultura popular, porque a cultura popular é esquecida”. Eu respondi: “Meu amigo, veja só.
Banda de Pife de Mestre Ciel está no programa”. Ele não acreditou.
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Também tem espaço para música instrumental. Ela foi deixada de lado. Mesmo com artistas fazendo videoclipes, a música instrumental nunca foi comercial do jeito que a música cantada é. Todo episódio do Caça Joia Clipes tem pelo menos um artista de música instrumental. A gente montou a curadoria pensando nesse mapeamento da música brasileira, levando em consideração equidade de gênero, mistura de ritmos e o discurso desses artistas.
TMDQA!: E o que ficou de fora? Existiu algum critério de corte mais claro?
Chinaina: Sim. Música de ostentação ficou para trás. Isso você consegue ver em qualquer lugar. É dominante em todo lugar. A gente queria mostrar coisas diferentes.
Música que trata a mulher de forma escrota também foi limada. A ideia era dar voz a quem realmente tinha o que dizer. Eu acho que a música tem esse papel transformador. E a gente está num canal educativo, que é o Canal Futura. A gente brinca dizendo que o Futura é a nova casa da música brasileira, porque já são cinco temporadas do Caça Joia, e agora o Caça Joia Clipes é um dos poucos espaços que realmente está apostando na música independente brasileira.
TMDQA!: Depois de assistir a tanto material, o que você observa sobre a cena independente brasileira hoje?
Chinaina: Tem muito artista criativo. A cena independente é sempre um lugar de muita experimentação, porque o artista não está amarrado com cobrança de gravadora. A galera está experimentando muito. Eu sempre vi a cena independente desse jeito, desde que comecei na música.
Na verdade, quem não consegue enxergar a cena independente é o mercado. Às vezes dá esse boom, a cena independente fura a bolha, e aí todo mundo faz: “Olha que loucura!”.
O rap, por exemplo, sempre esteve à margem das gravadoras. Nos anos 2000, teve aquele boom, e de repente gravadoras e programas de TV estavam olhando para aquilo. Mas era uma galera que já trabalhava há anos. A cena independente, por natureza e por sobrevivência, precisa ser criativa. Precisa ser inovadora. Precisa trazer pautas e questões.
De quando eu comecei para cá, com todo o avanço tecnológico, vejo uma cena mais ligada. É uma cena que não cai mais naquela conversa mole de gravadora. Ela se articula muito bem sozinha, promove coisas, cria microfestivais.
Essa cena de São Paulo com Pelados, Sophia Chablau e tanta gente já está há muito tempo tocando em qualquer lugar. Depois alguém aparece e diz: “Olha, Sophia Chablau é muito legal”. Sim, mas ela já está fazendo um trabalho incrível há muito tempo.
Uma vez, uma executiva me falou: “A Tulipa Ruiz deu uma sumida”. Eu disse: “Cara, a Tulipa acabou de ganhar um Grammy”. Ela respondeu: “Como assim?”. Essa é a realidade do mercado hoje. Mas também acredito que tem muita gente boa lá dentro tentando mexer os pauzinhos para ter algum efeito de mudança.
O próprio Caça Joia é um pouco isso. Talvez a visibilidade que eu conquistei ajude o programa a ser mais divulgado, ajude mais artistas a aparecerem e faça o mercado ficar de olho. Depois das temporadas anteriores, a galera de gravadora vinha atrás querendo colocar artistas de gravadora no programa. Então você sente que tem gente de olho. E para a gente é isso que interessa. Ninguém quer brigar com o mercado da música. A gente só quer abrir uma portinha para a galera.
TMDQA!: (Percebo o brilho nos olhos do Chinaina nesse momento) China… Você está realizando um sonho, né? De ocupar um espaço e tentar puxar outras pessoas junto.
Chinaina: (ri e sorri como quem foi pego no flagra) É um sonho mesmo. Eu tenho um estúdio em casa e abro para a galera vir gravar. “Não tenho dinheiro.” Beleza, depois traz uma cerveja. Tem instrumento aqui. Vamos gravar.
Eu fui criado nessa geração de um puxar o outro, de um ajudar o outro. Então, o que estou fazendo no Caça Joia não é nada demais. É o mínimo. Gostaria de poder fazer muito mais. E espero ter força para, uma hora, fazer muito mais mesmo.
É muito importante apresentar qual será o futuro da música brasileira. Porque, se não forem pequenos lugares como o Caça Joia e outros programas que estão rolando, essa galera não vai ter onde mostrar o trabalho, e a gente vai passar a vida inteira no mesmo lugar.
Quem será o próximo Gilberto Gil? Quem será o próximo Caetano? A depender do mercado, a gente não vai para lugar nenhum. Se ficar repetindo a mesma fórmula, estamos ferrados. Mas eu acho que o público satura disso. Do mesmo jeito que satura de festival repetindo artista. Uma hora, a galera vai querer ver novidade.
TMDQA!: Como você separa o que é bom do que é apenas o seu gosto pessoal?
Chinaina: Quando entrei na MTV, eu ainda era muito punkzinho de Olinda. Tinha muito essa coisa de dizer que odiava isso ou aquilo. Aí um amigo me puxou no canto e falou: “Cara, esses caras são teus colegas de profissão. Tu não é músico também? Eles estão ralando igual a tu”.
Essa ficha caiu para mim. Eu percebi que precisava aprender a olhar para a música não pelo meu gosto pessoal, mas entendendo que são colegas de trabalho. O que esses caras estão fazendo eu posso não gostar, mas tem muita gente que gosta, e isso é importante.
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Te falei de Camaleoa. O som que ela faz é uma coisa meio Britney, e não é necessariamente o que eu escuto em casa. Mas, na hora que assisti, pensei: isso precisa estar no programa. É importante mostrar essa cena pop do Nordeste brasileiro.
Uma coisa é o seu gosto musical. Outra coisa é fazer um programa para apresentar música interessante para o Brasil inteiro. Se fosse só pelo meu gosto, só teria hardcore. É preciso ter sensibilidade para entender que todas as cenas são importantes e que a gente precisa estar de olho.
TMDQA!: Quem te chamou atenção nessa primeira temporada? Aqueles nomes que você acha que as pessoas precisam parar para ver?
Chinaina: Sofia Freire. Ela se apresentou no Lollapalooza no ano passado. Acho uma artista incrível.
Tem também Barbarelli, que tem uma das vozes mais impressionantes que eu já ouvi. Se alguém prestar atenção, ele pode ser um grande nome da música brasileira.
Tem a dupla 02, que é daqui de São Paulo… Tem um cara chamado Tegê, que me chamou muita atenção pelo clipe. Ele montou uma sala no fundo de um caminhão baú, abriu as portas e o caminhão começou a andar. O clipe inteiro é uma câmera parada, e o que muda é o fundo. Achei uma ideia genial. Quanto esse cara gastou? Praticamente nada. Talvez o caminhão fosse de um amigo, talvez os amigos tenham ajudado a montar aquela salinha. Mas é uma das coisas mais inteligentes que eu vi.
Tem uma galera do Brasil todo. A galera do Pará. Tem Barbarize, de Recife, que mistura música eletrônica, tecnobrega e referências do manguebeat, com letras espertas e som para dançar. É muito legal.
TMDQA!: No fim, parece que o maior prêmio do programa é ver esses artistas entendendo que foram vistos.
Chinaina: Sim. Tem uma menina, Camaleoa, que fez um reels muito bonitinho falando da importância de um programa desses para ela. Ela contou um pouco da história dela e falou: “Eu estou no Globoplay”. Felizona.
Tem também Vinijoe, de BH, que faz um rap com samba muito legal, com letras muito bacanas. Em todo clipe dele, ele faz referência a alguma capa de disco da música brasileira. Ele também postou falando da importância de ter um espaço desses. O maior prêmio a gente já tem. É a felicidade desses artistas.
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(O TMDQA! já fez um quadro ‘Esse ou Aquele’ com o artista Vinijoe e você pode conferir aqui)
TMDQA!: Onde o público pode assistir ao Caça Joia Clipes?
Chinaina: São 13 episódios, um por semana, até agosto. Todos os programas ficam disponíveis no Globoplay. Todas as temporadas do Caça Joia também estão lá, gratuitamente. Você não precisa ser assinante. Se baixar o app, já consegue assistir à programação inteira do Canal Futura e aos Caça Joias.
O Caça Joia Clipes é exibido às sextas, às 21h, no Canal Futura e no Globoplay, com reprises na programação do Futura.
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Liz Sacramento
Chinaina leva videoclipes de artistas independentes à TV: “a IA não prevê talento”




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