Onde travesti faz moradia: VITA’S HOUSE abre portas e une teatro, ballroom e manifesto político

VITA’S HOUSE se tornou um dos maiores sucessos da música nacional em 2026 – Foto: reprodução

Numa noite de sábado, a cidade parecia tocar duas músicas ao mesmo tempo. De um lado, a tradição das festas juninas embalada pelo som da sanfona; do outro, a energia da juventude conduzida pelas batidas do funk. 

No Rex Jazz Bar, no bairro histórico do Jaraguá, essas diferenças se encontravam em uma mesma sintonia, onde o sagrado e o profano dividiam o mesmo palco. 

O calor tomava conta do ambiente, fazendo o suor escorrer pelos rostos da multidão, enquanto a expectativa crescia a cada minuto de preparação do cenário. A espera, ali, já fazia parte do espetáculo. 

De repente, as portas se abrem ao som de “SANTO FORTE”, uma música marcada pela bagagem de religiões de matriz africana com o House Music, o qual se tornou mais popular devido ao sucesso do ballroom no entretenimento e o retorno das pistas de dança influenciadas por Beyoncé, Lady Gaga e Madonna.

Não foi atoa que, no primeiro beat, os olhos de cada pessoa no front bisbilhotava cada cômodo da casa de Vita Pereira – ex-Irmãs de Pau – e não demorou muito para que VITA’S HOUSE, primeiro disco solo da cantora, tomasse conta do público tão diversificado.

O álbum transporta o ouvinte para experimentações de eletrônica, funk, dancehall e house music. Além de abordar a religião como guia, a vulnerabilidade, a sensualidade e, principalmente, a travestilidade como manifestação política.

Em entrevista ao TMDQA!, Vita falou que, apesar de já ter abordado outros temas, nunca tinha pautado a espiritualidade dentro de suas músicas. Uma das canções que entram nessa categoria é “TREME A LÍNGUA”, faixa de encerramento do disco.

A música traz Exú como caminho para autoconhecimento e autoconfiança:  (Na casa de Exu, travesti faz moradia / Na casa de Exu, encontrei minha pomba-gira / Que me fez mulher saudável, corajosa).

“Eu queria construir essa casa como uma fortaleza para outras pessoas e para mim. Iniciar o álbum dessa forma e ter esses momentos é um passo também muito importante.” conta a cantora de “CASA DOS MACHOS”.

O LP conta com o peso-pesado da cena musical LGBTQIAPN+. Como diria aquele velho ditado: como conseguiram colocar o DJ Caio Prince, TAJ MA HOUSE, Cyberkills, Urias, Candy Mel e Linn da Quebrada em um lugar só? Apenas a nata. 

Na casa da Vita tem Alagoas!

Alagoas é o primeiro estado da região que recebeu o show solo da artista. Posteriormente, foi a vez de Pernambuco fazer morada na casa. A decisão da cidade de Maceió ser a primeiro local do Nordeste em receber a turnê da cantora não foi atoa.

Em 2025, a apresentação das Irmãs de Pau na segunda edição do Maceió Pop Festival, um dos maiores eventos musicais do estado, arrastou multidões que, aos prantos, ditaram verso por verso da dupla até não aguentarem mais. Só quem tava sabe o babado que foi!

Isto não apenas pelo fato do sucesso do disco GAMBIARRA CHIC PT II, mas também de Vita e Isma se tornarem grandes representantes da comunidade trans e travesti no Brasil. 

Durante a pausa para bater papo com a plateia, Vita disse como esse ano é importante para a arte LGBTQIAPN+ devido as eleições, e isso também reflete na classe dos artistas.

Para além dos olhares preconceituosos, a ascensão de musicistas trans e travestis atravessa obstáculos seculares e abraça vertentes e públicos que, comumente, não as enxergavam em espaços artísticos dominados pela cisgeneridade.

“Hoje no dia não tem só artistas trans, também temos pensadoras, políticas, médicas… estamos em vários outros lugares. Isso é um reflexo de uma luta política que vieram antes de nós”, disse em entrevista ao portal.

É nesse sentido que VITA’S HOUSE traz um conceito diferente do que foi visto pela ex-dupla. Vita cria uma espetáculo teatral – originado pela graduação da artista em Teatro – dentro de uma ballroom mutável e participativa.

Enquanto todos esperavam o que vinha a seguir, o público se surpreendeu quando o bloco de funk do show começou. Sem dúvidas, foi o momento em que todos pulavam sem sentir dores nos pés e, ao mesmo tempo, cantavam em um único vocal. 

continua após o vídeo

Em “TOUCH MY BODY”, “SALADA” e “VEM PRA RAGGA” as pessoas estavam em plena hipnose, olhando apenas em direção a Vita misturar coreografias com a teatralidade, mas ainda mais dançante e, de brinde, uma dança das cadeiras – a melhor parte do turnê.

Bem pertinho do final, todos com os ânimos menos aflorados,  durante a performance de “AINDA HÁ VERA VERÃO”, Vita concedeu o seu microfone a Bonita Mesaki, uma das principais representantes da cena ballroom de Maceió. Assim como a canção, foi avassalador, poético e marcante.

O grand-finale foi a cereja do bolo: a faixa-título, “VITA’S HOUSE” tirou todos do chão mesmo com as solas dos pés pedindo arrego. Apesar da falta de confetes, o show se assemelhava a uma celebração do ato de existir, do sobreviver em meio ao caos. 

O ápice foi quando, para brindar com o público, Vita decidiu fazer uma sessão de ballroom com a plateia e com os dançarinos. No primeiro dip, era perceptível as lágrimas dos olhos de quem entendia que, naquele lugar, era a sua morada.

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Lu Melo

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