Na contramão da IA, nova geração da MPB transforma processo criativo artesanal em marca autoral

Na contramão da IA, nova geração da MPB transforma processo criativo artesanal em marca autoral
Fotos por Alexandre Toffoli e Maria Otavia Rezende (@mreznde)

A inteligência artificial nunca esteve tão presente na indústria da música. Ferramentas capazes de escrever letras, criar melodias, produzir arranjos, reproduzir vozes e até finalizar músicas completas já fazem parte da rotina de artistas, produtores e gravadoras. Mais recentemente, um estudo do Berklee College of Music revelou que 32,5% dos músicos já utilizam IA para desenvolver ideias iniciais, criar melodias ou gerar referências que depois são retrabalhadas no processo criativo.

Ao mesmo tempo em que a tecnologia passa a integrar cada vez mais a produção musical, uma parte da nova geração da MPB faz um movimento diferente: desacelerar.

Em vez de utilizar ferramentas para automatizar etapas da criação, artistas como Pedro Emílio e Lucas Felix têm escolhido investir justamente nos processos que exigem mais tempo – escrever a partir de experiências pessoais, construir álbuns conceituais, reunir músicos em estúdio, participar diretamente da produção musical e desenvolver cada detalhe da identidade artística dos projetos.

Mais do que uma resistência à tecnologia, trata-se de uma valorização da autoria em um momento em que criar nunca foi tão rápido.

Segundo levantamento da CISAC (Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores), o mercado global de conteúdos gerados por inteligência artificial deve movimentar cerca de € 16 bilhões até 2028. Paralelamente, plataformas como a Deezer já recebem mais de 75 mil músicas produzidas por IA todos os dias, ampliando discussões sobre direitos autorais, remuneração e originalidade.

Para Lucas Felix, o debate não está em escolher entre tecnologia e criação humana, mas em compreender aquilo que continua sendo impossível automatizar:

As ferramentas podem ajudar em diferentes etapas do processo, mas elas não vivem as experiências que dão origem a uma canção. O que faz uma música criar conexão é justamente aquilo que aconteceu antes dela existir: as relações, os encontros, as memórias e tudo o que molda a forma como cada artista enxerga o mundo”.

Recém-lançado, Todas as Canções materializa esse processo. Produzido por Dadi Carvalho e coproduzido pelo próprio Lucas Felix, o álbum foi gravado no tradicional estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, privilegiando sessões coletivas e a interação entre músicos. O resultado é um disco construído a partir da troca artística, da espontaneidade das interpretações e das pequenas imperfeições que fazem parte da música tocada por pessoas.

Pedro Emílio percorre um caminho semelhante em Vende-se Lembrança. Depois de conquistar reconhecimento nacional com indicação ao Grammy Latino e destaque no Prêmio da Música Brasileira, o artista decidiu ampliar seu envolvimento criativo no novo trabalho. Além de compor as nove faixas inéditas, assumiu pela primeira vez a coprodução musical do álbum, participou do desenvolvimento da identidade visual e construiu o conceito estético que acompanha todo o projeto, como ele mesmo comenta:

‘Vende-se Lembrança’ nasceu de lembranças, referências e experiências que fazem parte da minha trajetória. Eu participei de todas as decisões criativas porque acreditava que cada detalhe precisava conversar com a história que o álbum conta. A inteligência artificial pode acelerar processos, mas ela não acumula vivências nem constrói uma visão de mundo. E é justamente daí que nasce uma obra artística”.

Embora apresentem universos musicais distintos, os dois artistas representam uma discussão cada vez mais presente dentro da música brasileira: em uma época em que ferramentas conseguem reproduzir estilos, criar melodias e produzir conteúdos em escala, cresce também o interesse por processos criativos que valorizam autoria, colaboração e identidade artística.

Não se trata de rejeitar a inteligência artificial, mas de compreender que algumas das etapas mais importantes da criação continuam dependendo exclusivamente da experiência humana. Afinal, algoritmos podem reproduzir padrões, mas ainda não são capazes de viver histórias — e é justamente delas que continuam nascendo as canções que atravessam gerações.

Sobre Pedro Emílio

Cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor musical, Pedro Emílio vem consolidando seu nome entre os novos representantes da música brasileira contemporânea. Natural de Brasília, o artista une referências da MPB, soul e música popular contemporânea em uma obra marcada pela sensibilidade melódica e pela valorização da canção. Indicado ao Grammy Latino e recentemente reconhecido pelo Prêmio da Música Brasileira, acaba de lançar Vende-se Lembrança, álbum com participações de Luedji Luna e Ryan Fidelis, no qual assina, pela primeira vez, a coprodução musical e desenvolve também o conceito visual do projeto.

Sobre Lucas Felix

Cantor, compositor e instrumentista mineiro, Lucas Felix transita entre a MPB, o folk e a música pop contemporânea com uma escrita marcada pela delicadeza e pela honestidade emocional. Em seu novo álbum, Todas as Canções, reúne oito faixas inéditas produzidas por Dadi Carvalho e coproduzidas pelo próprio artista. Gravado no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, o projeto privilegia a interação entre músicos e reafirma a criação coletiva como parte essencial da construção artística.

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