Liniker lota estádio na estreia de “Bye Bye Caju” em São Paulo; relembre 5 momentos marcantes do show

Liniker Bye Bye Caju
Foto: Stephanie Hahne

De um projeto independente no interior paulista a um estádio lotado em São Paulo, Liniker percorreu em dez anos uma distância que não se mede apenas pelo tamanho da plateia.

No sábado, 11 de julho, 48 mil pessoas ocuparam o Nubank Parque para a estreia de Bye Bye Caju. Entre o vídeo de “Zero”, que apresentou sua voz ao país em 2015, e aquela multidão, a cantora enfrentou preconceitos, amadureceu diante do público, assumiu as rédeas da própria obra e ampliou o espaço ocupado por artistas negras e trans na música brasileira.

O estádio já existia nos sonhos de Liniker quando sua carreira ainda começava em Araraquara. Em entrevista realizada durante os ensaios da turnê, em junho, ela contou ao TMDQA!:

Eu sonhava. Sempre achei que uma hora fosse acontecer, mas o tempo das coisas é muito elástico, não dá para prever. Eu cresci assistindo aos DVDs da Beyoncé e pensando: ‘Gente, imagina segurar um estádio inteiro cantando a sua música. Como deve ser sentir essa emoção?’”

Dez anos depois, ela finalmente pôde responder à própria pergunta. Liniker chegou preparada para comandar uma produção dessa escala: à frente de um espetáculo de estádio, uma mulher negra e trans também dava dimensão concreta à presença LGBTQIAPN+ em um dos maiores palcos da América Latina.

A cantora queria que o encerramento de Caju acompanhasse o tamanho que o álbum ganhou em sua vida e na relação com o público:

Quando a gente começou a pensar no final de Caju, eu falei: ‘Queria terminar esse disco em grande estilo, como ele merece, como cresceu no coração das pessoas e como mexeu com a minha vida’. É, de fato, algo muito transformador”.

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O resultado apareceu em duas horas e quarenta minutos de show, 27 músicas e quatro atos. A montagem reuniu filme de abertura, passarela com elevador, cenografia, sucessivas mudanças de figurino, fogos de artifício, dez bailarinos e uma banda formada por 25 músicos e vocalistas. O rigor das entradas, a integração entre música, dança e imagem e o uso de diferentes áreas do palco aproximavam Bye Bye Caju da escala das grandes turnês internacionais.

Um dos registros de bastidores mais reveladores do espetáculo foi compartilhado por Daniel Faier, integrante do Balé Caju Negro. Assim que termina sua participação em “Mayonga”, o bailarino sai de cena, desce para a área técnica sob o palco, corre por um corredor interno e troca de figurino em poucos segundos.

Ele precisa completar todo o percurso antes do início de “Papo de Edredom”, quando reaparece dentro do elevador instalado no centro da passarela. A sequência mostra o nível de ensaio e sincronização exigido por Bye Bye Caju, sob a condução da coreógrafa Gaab Cabo Verde e dos co-coreógrafos Rubens Oliveira e Jéssica Nascimento.

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A direção musical, dividida entre Liniker e o experiente Júlio Fejuca, um dos produtores de Caju, foi decisiva para dar unidade às diferentes fases do repertório. A banda reuniu 25 músicos e vocalistas, entre eles seis instrumentistas de cordas, uma seção robusta de metais e oito backing vocals, todos apresentados e com momentos de solo.

Os arranjos preservaram a riqueza sonora de Caju e deram nova dimensão a canções mais antigas. Entre os destaques estavam Ana Karina Sebastião, responsável pelos baixos do álbum; o guitarrista Mackson Kennedy; e Paulo Zuckini, produtor vocal do disco e uma das vozes mais marcantes do coral.

A realização de Bye Bye Caju é da 30e, em parceria com a Breu Entertainment, empresa de Liniker. Com um show eletrizante do início ao fim, reunimos 5 momentos inesquecíveis da noite do último sábado, 11 de julho!

5 momentos marcantes do show de estreia de “Bye Bye Caju”, de Liniker

1. Liniker surge do meio do palco ao som de “TUDO”

Um filme abriu a apresentação antes da contagem regressiva. O texto poético, as imagens projetadas nos telões e a música prepararam o começo de uma história construída para aquela noite. Quando a contagem chegou ao fim, Liniker apareceu em um elevador instalado no centro da passarela, no meio do público.

Sozinha, cantou um trecho de “TUDO” antes de se aproximar do palco principal. A entrada anunciava a escala do que viria a seguir: um grande espetáculo surpreendente.

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2. “Zero” de cara nova

“Zero” foi a terceira música do repertório. Lançada em 2015 no EP Cru, tornou-se a primeira composição de grande alcance de Liniker e os Caramelows. O vídeo ajudou a apresentar ao país a voz, a escrita e a presença de uma artista que, até então, circulava de forma independente.

Para quem assina esta reportagem, a música abriu uma viagem particular no tempo. Em 23 de janeiro de 2016, meu marido, Theo Queiroz, ao lado dos então sócios do Jai Club, contratou Liniker e os Caramelows para o que seria a primeira apresentação do projeto em São Paulo. A casa da Vila Mariana, com capacidade para cerca de 350 pessoas, ficou lotada.

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Dez anos depois, eu entrevistava Liniker pouco tempo antes de vê-la cantar a mesma música diante de 48 mil pessoas. Enquanto o estádio acompanhava “Zero”, foi impossível não pensar em tudo o que coube entre aquelas duas plateias. Antes da entrevista, quando comentei sobre essa coincidência – ou não – Liniker ainda lembrou com humor do episódio de uma fã que levou embora seus brincos.

Na época, a compositora tinha 20 anos, e durante a nossa conversa falou sobre ter amadurecido diante das câmeras e do público ao longo do tempo.

Nesses dez anos, eu mudei muito. As pessoas começaram a me conhecer quando eu tinha 19 para 20 anos. Foi uma despedida da adolescência para entrar na fase adulta e amadurecer na frente da câmera, na frente do público e com a plateia. Isso pode ser visto como um privilégio, mas também é um grande desafio, porque as pessoas acompanham o seu fluxo e, às vezes, ficam apegadas ao que você foi no passado e não estão dispostas a conhecer o que você está sendo agora. Todo mundo muda e se transforma. Não faria sentido ser a mesma Liniker de dez anos atrás, dando esta entrevista com os mesmos sonhos, medos e desejos.”

Em um vestido vermelho brilhante, com seu melhor sorriso e caminhando pelo grande palco do Nubank Parque, “Zero” não ganhou somente um novo arranjo e mais animado. Ganhou também o significado da persistência para a realização de sonhos.

3. O abraço com Linn da Quebrada

Durante “Baby 95”, Liniker desceu do palco e caminhou entre o público. No percurso, encontrou Linn da Quebrada. As duas se abraçaram, choraram e permaneceram juntas por alguns segundos enquanto a cena era exibida nos telões.

Liniker retomou “Baby 95” emocionada e de forma extremamente profissional. A música, indicada a um prêmio Grammy Latino de 2022, ganhou naquele momento uma camada que nenhum arranjo poderia ter previsto. O estádio sentiu o peso daquele encontro mesmo para quem não conhecia toda a história.

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Liniker e Linn dividiram o início da vida artística em São Paulo: roupas, comida, criação e dificuldades financeiras. Depois do show, Linn lembrou os dias em que três reais compravam dois salgados do dia anterior e as mãos de Liniker ficavam geladas de fome.

O abraço reunia duas artistas trans negras que persistiram quando seus sonhos ainda pareciam incompatíveis com os espaços que ocupavam. Para muitas pessoas LGBTQIAPN+ presentes, aquela cena condensava algo reconhecível: a dificuldade de imaginar um futuro, a importância das redes de afeto e a insistência necessária para continuar.

“Você é minha Beyoncé. Minha popstar. Minha irmã. Minha amiga. Minha família”, escreveu Linn depois da apresentação. Eram duas amigas vendo, juntas, a realização de sonhos construídos quando quase tudo ao redor indicava o contrário.

4. O estádio acende as luzes para “Veludo Marrom”

No terceiro ato, Liniker sentou-se ao lado do guitarrista Mackson Kennedy para cantar “Veludo Marrom”, faixa do álbum Caju premiada com o Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa em 2025. As luzes principais diminuíram e os celulares começaram a se acender pelas arquibancadas e pela pista. Em poucos segundos, o Nubank Parque estava iluminado por milhares de luzes de celular.

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As 48 mil pessoas cantaram a música enquanto Liniker observava o estádio. Em alguns trechos, ela se afastou do microfone e deixou o coro assumir. A cantora se emocionou ao perceber a extensão daquela resposta, especialmente porque Caju foi produzido durante o preceito religioso da artista, em um período de recolhimento e cuidado dentro do candomblé.

Desde o começo, eu sempre soube que esse era o disco que queria fazer para mim, para que eu me transformasse. Agora, depois de dois anos, a gente tem a resolução do que ele foi na minha vida e na vida das pessoas também.”

5. Surpresa no palco com Priscila Senna em “Pote de Ouro”

Priscila Senna foi a única convidada da estreia. A cantora pernambucana entrou de surpresa durante “Pote de Ouro”, parceria gravada em Caju, e mudou imediatamente a temperatura do show.

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A delicadeza dos momentos anteriores deu lugar à euforia. O público recebeu Priscila com gritos, acompanhou os versos das duas e respondeu à energia direta do brega romântico pernambucano.

Liniker e a convidada caminharam pela passarela, dividiram vocais e transformaram a música em um dos pontos mais festivos da apresentação. Depois de “Pote de Ouro”, o show avançou para “Deixe Estar”, parceria com Lulu Santos, “So Special” e “Charme”.

Setlist completo

Ato 1

  1. “Tudo” + interlúdio de abertura
  2. “Caeu”
  3. “Zero”
  4. “De Ontem”
  5. “Sem Nome”
  6. “Bem Bom”
  7. “Calmô”
  8. “Intimidade”

Ato 2

  1. “Clau” + interlúdio
  2. “Antes de Tudo”
  3. “Presente”
  4. “Psiu”
  5. “Baby 95”

Ato 3

  1. “Caju” + interlúdio
  2. “Veludo Marrom”
  3. “Ao Seu Lado”
  4. “Me Ajude a Salvar os Domingos”
  5. “Negona dos Olhos Terríveis”
  6. “Mayonga”
  7. “Papo de Edredom”
  8. “Melhor Notícia”

Ato 4

  1. “Popstar” + interlúdio
  2. “Febre”
  3. “Pote de Ouro”
  4. “Deixe Estar”
  5. “So Special”

Encerramento

  1. “Charme” + tema final

Depois da estreia em São Paulo, Bye Bye Caju segue para o Rio de Janeiro, em 22 de agosto, na Farmasi Arena; Belém, em 19 de setembro, no Espaço Náutico Marine; e Salvador, em 7 de novembro, na Casa de Apostas Arena Fonte Nova.

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Liz Sacramento

Liniker lota estádio na estreia de “Bye Bye Caju” em São Paulo; relembre 5 momentos marcantes do show


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