Entre a batucada e os riffs: Rock Maracatu une o tradicional ao moderno em Alagoas

Com 11 anos de existência, coletivo une instrumentos afro-brasileiros, africanos e do rock, criando uma sonoridade única | Créditos: Coletivo de imagens RCRM | Mônica Guimarães, Livia Cavalcante, Benita Rodrigues e Gabriela Fuschini

A batida grave dos bumbos, o canto em uma única voz e o suor que escorre na pele por meio do esforço da repetição. O que acontece naquele espaço está mais do que óbvio: é a batucada do Maracatu.

Em Alagoas, a cultura popular, que possui influências rítmicas africanas, indígenas e portuguesas, é marcada pelo silenciamento cultural causado pela Quebra de Xangô.

O maior episódio de intolerância religiosa contra religiões afro-brasileiras do país ocorreu em 1912, quando 150 terreiros da cidade de Maceió foram destruídos.

Em consequência ao fato, grupos tradicionais que ainda se mantinham de pé perdem a força e o reconhecimento ao passar dos anos. Porém, em 2007, o Maracatu Baque Alagoano dá um novo fôlego ao movimento iniciando os seus trabalhos.

É a partir desta retomada que, durante a apresentação do grupo percussivo, o coletivo Rock Maracatu, fundado em 2011 pela cantora Fernanda Guimarães e a produtora cultural Patrícia Mess, surge com uma proposta curiosa: os baques dos tambores agora ganham a companhia de guitarras, baixos e harmonias do rock.

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A primeira Rockbatucada

A primeira “rockbatucada” aconteceu após a dupla convidar o grupo Maracatu Baque Alagoano para repaginar clássicos do rock internacional como“Come Together”, dos Beatles, e “Sweet Child o’ Mine”, de Guns N’ Roses, por meio das alfaias, agbês, agogôs, gonguês e caixa, instrumentos de origens afro-brasileiras e africanas.

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Em entrevista ao TMDQA!, Fernanda conta que os primeiros ensaios ajudaram na maturação do som, compreendendo em quais locais aquelas batidas poderiam ser colocadas.

Tudo foi se construindo e se encaixando. Depois, criamos mais identidade com o surgimento das músicas autorais nesse universo”.

As influências do Rock sempre estiveram no trabalho de Fernanda Guimarães. Antes de se mudar para o Rio de Janeiro e, posteriormente, retornar para Alagoas, a artista atuou em bandas locais do gênero, assim como já se apresentou em especiais focados em Cássia Eller, se tornando uma parte essencial na música alagoana.

Com a bagagem da cantora e dos demais percussionistas que adentraram no grupo a partir de 2016, as canções do coletivo implementaram a sua característica mais marcante: enquanto escutamos o pife, o bombo e as influências do Coco de Roda e do Manguebeat, a guitarra se une para colidir o tradicional com o disruptivo. 

Entre a guitarra, o Nordeste e o bombo

Créditos: Coletivo de imagens RCRM | Mônica Guimarães, Livia Cavalcante, Benita Rodrigues e Gabriela Fuschini

Apesar das influências do Rock em trabalhos como “Meu Maracatu é Arma”, elementos da cultura popular são, comumente, regionalizados e folclorizados. Canções possuem linhas territoriais demarcadas até onde podem soar como um gênero não-tradicional sem serem taxadas como “música regional”. Fernanda destaca:

Existe uma visão ultrapassada que tenta limitar a música nordestina, como se ela estivesse presa ao passado, mas a realidade da música que produzimos está muito longe de ser assim, homogênea”.

Unir duas vertentes de músicas diferentes traz uma nova percepção para o gênero. Entre as cordas e as percussões, a união de ritmos deixa claro que o Rock não precisa estar preso em grupos ou estigmas musicais, mas sim utilizado como uma ferramenta de expressão.

Isso é representado nas músicas “O Batuque É Delas” e “Transborda em Meu Maracatu”, que reúnem mundos distintos e também enaltecem a força da musicalidade nordestina enquanto potência influente a artistas de todo o país.

Gêneros como forró, brega-funk, piseiro e brega atiçaram a curiosidade de musicistas nos quatro cantos do país, usados como um meio dos artistas se aproximarem mais do público que está fora de bolhas – basta olhar para “Pote de Ouro”, de Liniker; “Cheio de Vontade”, de Anitta; ou “Dano Sarrada Remix”, de Marina Sena

O Rock está nas ruas!

Assim como os grupos tradicionais, o Rock Maracatu também está nas ruas de Maceió. Atualmente, o coletivo possui 70 integrantes que compõem a harmonia e um bloco de carnaval homônimo, que produz apresentações e ensaios abertos para que a população prestigie e chegue junto na Rockbatucada.

Além disso, músicas-temáticas para o período carnavalesco são lançadas anualmente, mas sem perder a sua identidade.

De acordo com Fernanda, a música-tema de 2027 já está sendo produzida e deve seguir aspectos semelhantes a anos anteriores:

Esse novo trabalho nasce com o propósito de visibilizar nossa ancestralidade e herança alagoana. Queremos promover um reencontro com os instrumentos acústicos que pulsam a nossa cultura”.

Alagoas, inclusive, possui uma variedade de grupos tradicionais de maracatu. De Coletivo Sankofa, localizado no bairro de Vergel do Lago, em Maceió, até o Maracatu Yá Dandara, alguns já lançaram materiais em plataformas de streaming.

Veja alguns projetos mais abaixo!

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Conheça grupos tradicionais de maracatu em Alagoas

1. Maracatu Baque Alagoano – Na Terra de Zumbi (2022)

2. Coletivo AfroCaeté – Maracatu de Ouro (2021)

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Lu Melo

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