Franquia “Story.Telling” aposta em plano-sequência e personagens que rompem estereótipos

Engajamento pela inovação franquia Story.Telling aposta em plano-sequência e personagens que rompem estereótipos
Crédito: divulgação

Em um momento de renovação do cinema brasileiro, impulsionado pelo crescimento de produções de gênero, a franquia Story.Telling surge como um exemplo de como o cinema independente pode unir ousadia técnica e planejamento com desenvolvimento narrativo para conquistar espaço entre o público e os festivais especializados.

O projeto, idealizado pelo diretor Fábio Brandão ao lado dos roteiristas Silvio Gonzalez e Rafael Schubert, prepara o lançamento de Story.Telling: Capítulo 2, ampliando o universo iniciado em 2021 e estabelecendo uma proposta ainda pouco comum no audiovisual nacional. Mesmo realizada com orçamento reduzido, a série de curtas reúne características que a diferenciam dentro do cenário independente.

A ideia foi desenvolvida a partir de um plano-sequência executado em tempo real, misturando terror, suspense, humor e metalinguagem, além da continuidade narrativa entre curtas-metragens, formato raro na produção brasileira. O reconhecimento obtido pelo primeiro capítulo em festivais especializados demonstrou que propostas formalmente ambiciosas podem alcançar visibilidade mesmo fora dos grandes estúdios.

Para Brandão, que conta com a produção executiva de Roby Amaral, a evolução da franquia passa justamente pelo aperfeiçoamento de uma identidade já estabelecida.

Plano-sequência como linguagem, não como demonstração técnica

Embora o plano-sequência seja o elemento mais imediatamente associado à franquia, sua função vai além do virtuosismo visual. A ausência de cortes aparentes aproxima o espectador dos acontecimentos em tempo real, intensificando a sensação de presença e tornando cada decisão dos personagens parte da própria experiência narrativa.

Tal escolha exige meses de preparação de elenco e equipe técnica junto com uma coreografia minuciosa entre fotografia, direção, atuação e direção de arte. Em Story.Telling, entretanto, a técnica funciona como instrumento dramático, permitindo que a comédia e tensão coexistam naturalmente dentro da mesma cena.

A metalinguagem também ocupa papel central. Na trama, os roteiristas Cid e Rubens, interpretados por Silvio Gonzalez e Rafael Schubert, responsáveis pelos roteiros reais junto com Fábio Brandão e Tay Ferreira, retornam conduzindo uma história sobre a própria construção de um filme, enquanto novos personagens potencializam as camadas da narrativa e reforçam a proposta de um universo ficcional que dialoga constantemente com o fazer cinematográfico.

Personagens acima dos arquétipos na franquia Story.Telling

Outro aspecto que distingue os curta-metragens é o afastamento dos estereótipos tradicionalmente presentes no cinema de horror. Em vez de personagens definidos apenas por funções narrativas, Story.Telling investe em trajetórias individuais marcadas por conflitos, contradições e objetivos próprios.

Em Story.Telling: Capítulo 2, o centro da narrativa está Hanna, vivida por Anne Faria. Bailarina, preta, sensível e determinada, a protagonista não é construída como símbolo ou representação de um único perfil. Ela erra, acerta, enfrenta consequências e conduz uma jornada emocional que privilegia sua humanidade.

Segundo Fábio Brandão, essa foi uma preocupação desde a escrita do roteiro. A proposta se estende aos demais integrantes do elenco. César, papel de João Fernandes, é um médico residente em busca de relações verdadeiras, já Diogo, interpretado por Cassio Alves, vive o conflito entre ambição e sobrevivência.

Enquanto isso, Pilar (Roberta Piragibe) procura provar que existe além da imagem construída nas redes sociais e Anajú (Sofia Manso) enfrenta constantemente seus próprios limites. Por fim, Cora (Catarina Victori) convive com marcas do passado, ao mesmo tempo em que Bárbara (Laura Barreto) precisa lidar com feridas emocionais.

Em vez da tradicional divisão entre heróis e vilões, o roteiro de Story.Telling: Capítulo 2 aposta em personagens imperfeitos, cujas escolhas conduzem a narrativa e desafiam constantemente as expectativas do espectador.

Cinema independente como espaço de experimentação

Produzido com cerca de R$20 mil provenientes de recursos próprios da equipe e de colaborações independentes, Story.Telling reforça uma característica recorrente do cinema autoral brasileiro: transformar limitações financeiras em estímulo para soluções criativas.

O segundo capítulo sustenta uma proposta iniciada durante o período de restrições provocado pela pandemia da Covid-19, quando o primeiro filme foi produzido em meio às dificuldades enfrentadas pelo setor audiovisual. Ainda assim, o projeto conquistou reconhecimento em festivais, incluindo o prêmio do júri no Rock Horror Film Festival, fortalecendo a continuidade da franquia.

Story.Telling, podemos dizer, utiliza sua estrutura seriada para expandir gradualmente o universo ficcional. Cada capítulo apresenta novas camadas narrativas e deixa perguntas em aberto, preparando os desdobramentos seguintes em estratégia pouco comum nos curtas-metragens brasileiros.

Uma franquia construída pelo interesse do público

O diretor Fábio Brandão destaca que a continuidade da série só se tornou possível porque o formato despertou interesse tanto entre espectadores quanto entre profissionais envolvidos na produção.

Story.Telling, acima de tudo, busca consolidar uma identidade própria dentro do cinema independente nacional. A franquia aposta que o verdadeiro engajamento do público ultrapassa a inovação técnica para construir histórias em que cada personagem importa e cada detalhe possui significado, ampliando um universo que convida o espectador a continuar investigando seus mistérios.

No momento, Story.Telling 2 começa a construir sua caminhada pelos festivais mundo afora, seguindo a trajetória do filme anterior. Além disso, Fábio já revelou que vem mais por aí. O terceiro curta-metragem da franquia foi escrito e está em produção com o título Story.Telling 3: O Capítulo Final, carregando a promessa de encerrar o projeto como um quebra-cabeça de três partes que costura seu início, meio e fim.

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Gabriel von Borell

Franquia “Story.Telling” aposta em plano-sequência e personagens que rompem estereótipos


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