Ser mulher no pagode é muito mais do que subir ao palco, por Marvvila

Marvvila é a segunda convidada da Coluna Pop, um espaço no POPline para os artistas expressarem suas opiniões, anseios e perspectivas sobre música e mercado, e compartilharem histórias pessoais, em comemoração aos 20 anos do portal.

Ser mulher no pagode é muito mais do que subir ao palco, por Marvvila

(Foto: Divulgação)

Antes de o pagode conquistar o meu coração, foi a música que me encontrou. Eu comecei a cantar na igreja aos 5 anos de idade. Naquela época, tinha certeza de que seria uma cantora gospel. Foi ali que descobri, pela primeira vez, o poder que uma canção tem de tocar as pessoas e nasceu o sonho de viver da música.

Na escola, comecei a participar das aulas de música. Os alunos tocavam instrumentos, mas ninguém queria cantar. Foi quando comecei a soltar a voz e, ao mesmo tempo, o pagode entrou na minha vida. Eu ouvia escondido dos meus pais porque, vindo de um lar evangélico, a música secular era proibida. Mesmo assim, aquele som mexia comigo de um jeito diferente.

Aos 18 anos de idade, eu já tinha a certeza que o meu caminho seria outro. Eu já não me via como cantora gospel, mas ainda carregava um medo muito grande de assumir o pagode. Naquela época, eu ouvi muito que mulher não tinha espaço no gênero. Escutei isso de muitas pessoas e, por um tempo, até tentei seguir outros caminhos. Cantei funk, sertanejo e outros estilos, mas, no fundo, eu sabia onde queria estar. Chegou um momento em que pensei: “Eu não posso deixar de cantar a minha verdade só porque ainda não estou enxergando oportunidades. Preciso fazer aquilo em que acredito.”

Em 2017, participei do The Voice Brasil, transmitido nacionalmente pela TV Globo, e aquele foi o meu primeiro grande palco. Foi ali que percebi que aquele sonho que nasceu na igreja, quando eu ainda era uma menina, podia, de fato, se transformar em profissão. O programa abriu portas, me deu confiança para seguir em frente e me fez acreditar que viver da música era possível. Depois dali, decidi batalhar ainda mais, correr atrás de oportunidades e construir, dia após dia, a carreira que sempre sonhei.

Foi nesse período também que tive a oportunidade de cantar na feijoada da Velha Guarda da Portela. Mesmo sem ser conhecida nacionalmente, fui recebida com muito carinho. Aquele acolhimento reforçou a certeza de que eu precisava continuar acreditando no meu caminho.

Como eu não tinha empresário, não tinha investimento e as oportunidades ainda eram poucas, comecei a gravar vídeos caseiros com o meu celular e publicar nas redes sociais. Aos poucos, aqueles vídeos começaram a alcançar pessoas, ganhar o carinho do público e me dar ainda mais força para seguir em frente. Foi quando entendi que, mesmo sem uma grande estrutura, a verdade da minha música podia chegar longe.

Se hoje eu tenho a oportunidade de viver esse sonho, é porque muitas mulheres abriram caminho antes de mim. Penso em Jovelina Pérola Negra, Beth Carvalho, Alcione e Leci Brandão, artistas que enfrentaram desafios ainda maiores, romperam barreiras e provaram que o samba e, consequentemente, o pagode também são espaços de protagonismo feminino. Elas deixaram um legado que inspira mulheres como eu todos os dias. Elas mostraram que o lugar da mulher sempre foi onde ela quisesse estar: no palco, no estúdio, na composição, na direção dos próprios projetos e, principalmente, na história da música brasileira. Tenho muito respeito por essa trajetória e sei que a minha responsabilidade também é honrá-la, para que outras meninas encontrem um caminho um pouco mais leve no futuro.

Hoje, tenho a felicidade de viver da música, de dividir canções com artistas que sempre admirei e de receber o carinho de um público que cresce a cada trabalho. O pagode me abriu portas e também me apresentou pessoas que acreditaram em mim. Sou muito grata aos colegas, produtores, músicos e profissionais que caminharam ao meu lado e ajudaram a construir essa trajetória.

Mas também acredito que ainda existe um caminho importante para percorrermos quando falamos sobre a presença feminina no pagode. Felizmente, estamos vivendo uma transformação. Cada vez mais mulheres estão ocupando espaços, sendo ouvidas e conquistando o reconhecimento que merecem. Ainda assim, sabemos que muitas artistas extremamente talentosas continuam enfrentando dificuldades para conseguir investimento, empresários, oportunidades e, muitas vezes, a mesma valorização que artistas homens já conquistaram ao longo dos anos.

Existe uma ideia de que a cantora simplesmente pega o microfone e sobe ao palco. A realidade está muito longe disso. Hoje, nós participamos de todo o processo criativo. Eu faço questão de acompanhar cada detalhe dos meus projetos. Penso no repertório, acompanho os arranjos, participo das escolhas de figurino, da identidade visual, me preocupo com a qualidade do show e com a experiência que vou entregar para quem comprou um ingresso ou apertou o play em uma música. Também sou compositora, e escrever é uma das formas mais bonitas que encontrei de transformar sentimentos em canções. Nada acontece por acaso. Existe muito trabalho antes de a primeira nota chegar ao público.

E vejo muitas mulheres vivendo essa mesma realidade. São cantoras, compositoras, produtoras, diretoras criativas e, muitas vezes, empresárias de si mesmas. Mulheres que lideram equipes, participam das decisões, escrevem músicas para outros artistas e ajudam a construir os rumos do pagode. Durante muito tempo, a mulher foi vista apenas como a intérprete. Hoje, ela também é autora, criadora, estrategista e protagonista. Esse movimento já começou e acredito que não tem mais volta.

O meu desejo é que, daqui a alguns anos, essa conversa deixe de ser necessária. Que uma menina possa sonhar em cantar pagode sem pensar se aquele espaço também foi feito para ela. Que ela seja reconhecida pela sua voz, pela sua arte, pela sua capacidade de emocionar e por tudo o que constrói antes, durante e depois de subir ao palco.

Tenho muito orgulho de fazer parte dessa geração de mulheres que está escrevendo um novo capítulo para o pagode. Não porque começamos essa transformação, mas porque tivemos a honra de receber um caminho aberto por grandes artistas e agora temos a responsabilidade de ampliá-lo.

Às vezes, eu penso naquela menina que escutava pagode escondida dos pais, sem imaginar onde a música me levaria. Se eu pudesse conversar com ela hoje, diria apenas uma coisa: “continue acreditando”. Porque quando uma mulher ocupa o seu espaço com talento, dedicação e verdade, ela não realiza apenas o próprio sonho. Ela abre caminho para que muitas outras sonhem ainda mais alto.

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Marvvila

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