Papangu refletir sobre a era da IA em novo disco mais experimental

Enquanto a tecnologia avança sobre territórios antes reservados à experiência humana, a Papangu tornou o medo da perda de humanidade matéria-prima para sua música.
Em Celestial, terceiro álbum da banda paraibana, rituais de proteção do corpo e do espírito servem como ponto de partida para uma reflexão sobre a relação entre o homem e a inteligência artificial, além da discussão a respeito da necessidade de reafirmar aquilo que ainda nos torna humanos.
O disco expande a imagética nordestina que atravessa a trajetória da Papangu e constrói um universo próprio a partir de ritmos tradicionais, referências à literatura de cordel, às artes audiovisuais, à literatura modernista e ao realismo mágico.
No material, os elementos se articulam para criar uma narrativa sobre a iminência da perda da humanidade e a urgência de buscar proteção diante de fenômenos que já fazem parte do cotidiano contemporâneo.
Musicalmente, Celestial traduz a mesma disposição para atravessar fronteiras que marca as apresentações da banda. Referências tão distintas quanto King Crimson, Magma, Hermeto Pascoal, Mestre Ambrósio e Oranssi Pazuzu convivem no repertório que combina o experimentalismo e Rock Progressivo da banda com a MPB, Metal extremo, zeuhl, ciranda e Forró.
A sonoridade do álbum também é resultado de uma escolha deliberada pelo risco e pela materialidade do processo de gravação. Celestial foi registrado integralmente de forma analógica, em fita magnética de duas polegadas, durante nove dias em Berlim, na Alemanha, com equipamentos vintage associados aos timbres das décadas de 1960, 1970 e 1980. Em nota para a imprensa, o guitarrista e vocalista Pedro Francisco comentou:
O formato analógico permitiu que a gente gravasse aquilo que a gente sentia. É um processo que faz com que você já pense no resultado final na hora de gravar, e isso colabora muito para a criação.”
Papangu lançou o novo disco Celestial
A opção pelo analógico também interferiu diretamente na maneira como os músicos se relacionam com as próprias performances. Ouvir o álbum por inteiro é como acompanhar uma banda disposta a assumir riscos e preservar no registro a tensão própria da execução coletiva. O baixista e vocalista Marco Mayer afirmou:
O quanto posso improvisar, o quão intenso eu preciso tocar determinada parte, o que eu preciso fazer para podar minha individualidade para funcionar melhor no som em conjunto, são coisas que você não consegue fazer se for gravar no computador.”
A combinação entre experimentação e tradição encontrou sua tradução visual no trabalho da artista plástica pernambucana Juliana Lapa, responsável pelo tríptico que acompanha Celestial. Dividida em três painéis, a obra estabelece um diálogo com o universo sonoro do álbum ao criar, despertar, silenciar e subtrair cores e formas que, ao mesmo tempo, evocam, afirmam e colocam em dúvida a paisagem construída pela música.
Assim, Celestial se apresenta como uma obra que vai além do debate sobre a tecnologia. Ao colocar em confronto máquina, corpo, memória, tradição e criação, a Papangu transformou o avanço tecnológico em uma pergunta essencialmente humana: o que ainda precisamos proteger para não perder aquilo que somos?
Ouça Celestial logo abaixo!
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Gabriel von Borell
Papangu reflete sobre a era da IA em novo disco mais experimental





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