Resenha: RANCORE abraça a imprevisibilidade e expande suas raízes em “BRIO”

RANCORE, capa do álbum
Foto: RANCORE, capa do álbum “BRIO”

Quinze anos de espera poderiam resultar em um disco inflado pela nostalgia. No entanto, o RANCORE escolheu um caminho completamente diferente para o seu retorno. Em BRIO, lançado pela Balaclava Records, o quinteto recusa o caminho fácil de agradar saudosistas para, em vez disso, justificar a sua própria existência no presente.

Durante esse longo hiato longe dos palcos, Teco Martins (vocal), Candinho Uba (guitarra), Rodrigo Caggegi (baixo), Gustavo Teixeira (guitarra) e Ale Iafelice (bateria) viveram em lugares diferentes, acumulando vivências e outros projetos. Por isso, quando decidiram se reunir, os músicos trouxeram toda essa maturidade para as novas composições.

Essa retomada começou a ganhar formato no ano passado, com as faixas Pelejar e “Quando Você Vem”. Agora, com 10 faixas inéditas, aquele movimento inicial acende como braseiros de brio ao provar a força única do grupo no cenário nacional.

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Rancore
Foto: Nicolas Camargo

Dessa forma, o trabalho em BRIO se constrói em apenas 31 minutos diretos, sendo o disco mais curto do RANCORE até aqui. A sonoridade expande a base do Hardcore para incorporar camadas de Psicodelia, Noise Rock, Post-Punk e até New Wave. Há um refinamento técnico claro na produção de Guilherme Chiappetta e na mixagem de Daniel Pampuri, potencializando a entrega visceral da banda. 

O resultado é fascinante; um disco criativo e audacioso, onde gritos de sobrevivência, maturidade, espiritualidade, manifestação, amor, reflexão e contemplação caminham juntos. No fim, tudo isso parece dizer a mesma coisa: não existe nenhuma banda igual ao RANCORE.

Entre o caos mental e a sobrevivência

O álbum começa sem rodeios com “TEORIA DO CAOS”, onde a imprevisibilidade é assumida por Teco Martins logo nos primeiros versos. A letra expõe um labirinto mental e desconstrói qualquer ideia de controle. Nesse sentido, a urgência se manifesta no vocal e nos graves pulsantes. Ao mesmo tempo, guitarras sujas e psicodélicas conduzem o ouvinte por uma viagem imprevisível dentro desse turbilhão interior.   

Logo em seguida, EU QUERO VIVER transforma essa tensão em um verdadeiro grito de sobrevivência. A faixa traduz o anseio pelo agora e a superação das sombras mentais. Para isso, a interpretação vocal ganha força gradativa até atingir um ápice catártico. Além disso, a canção resgata a potência dos grandes mantras do RANCORE. Versos como “luz que não se apaga” e “hoje eu quero viver” sintetizam a luta diária para fincar os pés no presente.

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Outras formas de existir 

A surpreendente “PRECIOSAS CORES” traz uma mudança de tom ao explorar arranjos atípicos, flertando com uma estética retrô e dançante que lembra DEVO e Blondie ao mesmo tempo. A faixa aposta em timbres angulares, bases levemente desajustadas e uma linha poética inspirada no hinário “O Cruzeiro“, do Mestre Irineu. O resultado é um mergulho profundo sobre espiritualidade, amor e a passagem do tempo.

Com uma melodia suave e acolhedora, “A NASCENTE” constrói um belo paradoxo entre a beleza da vida e a luta pela sobrevivência. Em uma homenagem emocionante para sua filha Aurora, Teco reforça que a existência merece celebração mesmo diante do caos urbano. Trata-se de um respiro de esperança que se renova a cada amanhecer.

A selvageria histórica do RANCORE transborda com força em “SEXO SELVAGEM”. Primeira composição nascida no reencontro do quinteto (e que quase batizou o álbum), a faixa concentra o vigor vital do grupo entre baixos tensionados e baterias pulsantes. Nesse cenário ruidoso, opostos como amor e aspereza dividem o mesmo espaço com extrema energia.

Autoconhecimento e conexão

Inspirada pelo Punk Rock nacional, “CARA DE LOUCO” aposta em ritmos quebrados e guitarras cortantes para escancarar quem é de verdade e quem é de mentira. A letra reflete sobre esse “baile de máscaras”, concluindo que é infinitamente melhor carregar o rótulo de louco e ser autêntico do que se esconder em um teatrinho de aparências e ficção. 

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Com uma postura de combate e instrumental agressivo, “UNHAS E DENTES” chega para equilibrar a intensidade Punk com a jornada interior que guia Teco Martins. O vocalista reflete sobre verdades, forças invisíveis e os mistérios da mente. A canção, curta e densa, abre espaço para a sabedoria ao conectar urgência e espiritualidade.

O momento mais introspectivo e delicado do disco ganha forma em “VALSA DO IMPREVISÍVEL”. Sonoramente e liricamente, a faixa aborda a imprevisibilidade como parte do fluxo natural da existência. Em um dueto emocionante entre Teco e sua esposa, a canção convida o ouvinte a flutuar com leveza diante do tempo, lembrando que tudo vem e vai. Afinal, ao assumir que “hoje é o amanhã de ontem”, o casal entrega um convite poético onde o desapego é o caminho para acompanhar o movimento orgânico da vida. 

Além do tempo e da ilusão

Em “CORDÃO DE OURO”, Teco divide os vocais com o baixista Caggegi para refletir de forma sensível sobre a durabilidade das conexões humanas, questionando quais laços nem mesmo o tempo consegue apagar. Essa busca por relações verdadeiras sintetiza com perfeição a própria união e a essência do RANCORE.

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RANCORE
Foto: Nicolas Camargo

A avassaladora “EXPANSÃO” encerra o disco unindo as raízes do Hardcore à maturidade atual do grupo. A faixa celebra os gritos característicos do início, mas com uma roupagem expandida. Ao abordar a libertação de amarras ilusórias, ela fecha com coerência um álbum guiado pelo despertar da consciência e constante necessidade de transformação.

Luz que não se apaga

O grande trunfo de BRIO é não explodir o tempo todo. Na verdade, o disco arde como brasa. Esse fogo atravessa vozes e instrumentos, mas a banda sabe a hora de desacelerar. A alternância entre peso e pausa torna o álbum estrondoso e refinado na mesma medida.

Nessa caminhada, o quinteto passeia por novas sonoridades sem perder a própria identidade. Afinal, é justamente essa combinação improvável que torna o som da banda tão único. 

Portanto, BRIO não marca apenas a volta do RANCORE. Trata-se de um trabalho de expansão, não de nostalgia. Depois de 15 anos, a banda não voltou para descobrir se ainda conseguia ser RANCORE, mas para permitir que essa energia flua livremente no presente.

★★★★½ (4.5/5)

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Angélica Albuquerque

Resenha: RANCORE abraça a imprevisibilidade e expande suas raízes em “BRIO”


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