TMDQA! Entrevista: Victor Franciscon e Fabrício de Souza falam sobre “Powerplant”, novo EP do Garage Fuzz 

Garage Fuzz em 2026
Divulgação

Por Mayse Bertani

Em plena celebração dos seus 35 anos de estrada, o Garage Fuzz acaba de lançar Powerplant, terceiro EP da atual formação da banda com Victor Franciscon nos vocais.

O trabalho reúne cinco faixas inéditas e uma nova gravação de “Jaded”, apresentada originalmente em Grawlix (2024), dando sequência ao repertório construído pela formação mais recente do grupo sem abrir mão dos elementos que consolidaram a banda como um dos nomes fundamentais do hardcore melódico brasileiro.

Gravado no estúdio OddSounds, em São Paulo, e produzido por Gustavo Scaranelo, Powerplant combina músicas rápidas, riffs marcantes e agressividade melódica com momentos mais cadenciados, abertos a arranjos instrumentais e diferentes camadas de guitarra.

Continua após o vídeo

O título do EP sugere uma usina em funcionamento contínuo, com energia sendo produzida, acumulada e distribuída, mas também o risco de que a corrente ultrapasse o limite de quem tenta suportá-la. É essa imagem que atravessa as faixas do disco, que observam o desgaste mental produzido pela vida urbana, a repetição exaustiva das rotinas e a cobrança por produtividade, propondo, ao mesmo tempo, a ruptura de hábitos e a criação de vínculos verdadeiros como forma de respirar sob as pressões do capitalismo contemporâneo.

Formada em Santos em 1991, a banda ajudou a desenhar a linguagem do hardcore melódico no Brasil ao aproximar a urgência do punk e do hardcore de melodias autorais e de uma energia visceral nos palcos. Hoje, o grupo é formado por Victor Franciscon, Wagner Reis, Nando Bassetto, Fabrício de Souza e Daniel Siqueira.

Para falar sobre o processo de criação de Powerplant, os temas que atravessam o EP e o significado de lançar um novo trabalho em meio à celebração de 35 anos de carreira, o TMDQA! conversou com Victor e Fabrício. Confira a entrevista completa a seguir!

TMDQA! Entrevista Garage Fuzz

TMDQA!: Quais as influências nas composições do novo EP? Tem alguma coisa de novo que vocês trouxeram, de diferente, para o que os fãs estão acostumados?

Fabrício: A música “Flashpoint” foi praticamente composta pelo Victor. Ele fez a música, mandou para a gente com as bases e com as vozes. Eu escutei, achei a música muito boa, me juntei com o pessoal da banda e cada um foi colocando a sua parte: os arranjos de guitarra, os arranjos de baixo, o Daniel colocou a linha de bateria dele, e a gente foi somando em cima da composição dele.

A “Powerplant” foi uma música que eu queria dar continuidade àquela do Victor. Falei: “vou fazer mais umas bases, mais uns arranjos para a música”. Só que, quando levei para o ensaio, a música já estava praticamente pronta. Aí mostrei meus arranjos e as bases, e o pessoal falou: “gente, acho que dá para fazer uma música nova em cima disso”. Então a gente criou a “Powerplant”, que ficou como uma continuidade da “Flashpoint”.

A “Overcharge” já foi uma ideia do Wagner, guitarrista. Foi meio que uma ideia individual, em que cada um foi colocando a sua parte. O Victor colocou as vozes dele, criou umas batidas para ela, e a gente também incorporou cada um a sua parte.

A “Synergy” é uma música que foi do Nando Bassetto, guitarra solo. Ele fez no estúdio, compôs a música, mandou, e a gente também foi colocando cada um a sua parte ali.

E a “220V” também começamos com as minhas ideias e as letras todas do Victor, com letras maravilhosas e linhas de vocais que a gente gostou demais.

TMDQA!: Victor, conta sobre as suas composições. Tem alguma que você quer destacar? Alguma letra um pouco mais pessoal? A “Overcharge” eu gostei bastante, talvez tenha me tocado. Tem alguma que você escreveu em algum momento específico da vida?

Victor: As composições, em questão de letra, giram em torno de uma coisa muito pessoal para mim: o tema da saúde mental. Como o mundo moderno, a forma como a informação é descartável hoje, como tudo é muito rápido, a gente consome e já quer mais. E como isso acaba criando costumes e hábitos que não são saudáveis para a gente, que a gente acaba tendo, às vezes até sem perceber.

Essa correria do dia a dia, essa pressão de ter que estar fazendo alguma coisa, de ter que estar produzindo, mesmo quando a gente se sente esgotado. E aquele negócio de “porque está todo mundo fazendo”: a pessoa vai e posta algo, e a outra pessoa se sente obrigada a produzir uma coisa também.

Cada letra tem uma temática mais focada, mas, em geral, é a questão da saúde mental.

Acho que a “Powerplant” é a que fala mais sobre mim, sobre a minha forma de enxergar o mundo, e acho que ela domina as outras músicas na questão temática da letra, até porque ela leva o nome do EP. Ela faz essa analogia metafórica da “Powerplant”, que seria uma usina de energia, como se fosse a mente, como se fossem as pessoas, cada pessoa. A mente, o corpo, a alma, enfim, aquilo em que a pessoa acreditar. Mas tudo gira em torno dessa energia.

E não é só uma relação metafórica nas letras. No final das contas, não é só uma metáfora, porque os impulsos que movem o cérebro são elétricos, é energia, não deixa de ser energia elétrica. Então tem toda essa analogia com esse lance.

A “Powerplant” é uma música em que a letra soa como se a pessoa não aguentasse mais, como se ela estivesse tendo um burnout e vendo que tudo é difícil, está sempre no limite, precisando correr mais e mais. E como o mundo de hoje exige isso da gente. Que, no final das contas, acaba sendo uma ilusão, porque a gente pode conseguir se manter saudável mentalmente sem precisar chegar sempre ao nosso limite. Mas é uma coisa muito difícil e, ao mesmo tempo, simples.

A música “220V” fala sobre um problema meu mais pessoal, com o qual acho que muita gente também vai se identificar, que é o TDAH. Ela é “220V” porque está sempre no 220V, da hiperatividade. Mas é uma coisa que fala em vários momentos que é difícil se organizar, às vezes, com coisas bem simples. Tem até um verso que é bem a minha cara: às vezes eu não consigo contar até 10 porque estou distraído. Tem um verso que fala exatamente isso.

A “Synergy” é uma música que foge um pouco dessa coisa da pressão. Ela tem mais um tom de esperança, de você ter uma sinergia com uma outra pessoa que vai te ajudar, ou um animal de estimação, ou enfim, uma coisa que vai te dar essa energia, que vai te puxar para cima nesses momentos difíceis.

A “Overcharge”, como você citou, é uma música que também fala muito sobre burnout, girando nessa temática da pressão social, da pressão por estar produzindo, fazendo alguma coisa, e estar vivendo também, não deixar de estar vivendo. Porque, muitas vezes, nessa correria do trampo, de querer realizar coisas que a gente tem em mente, a gente acaba tirando o foco das coisas pessoais da nossa vida, que são a nossa família, a nossa casa, a nossa saúde principalmente.

“Flashpoint”, que foi o nosso single também, é essa música que o Fabrício falou, que eu trouxe a estrutura dela. Ela também é uma música mais positiva. Fala que “flashpoint” seria o ponto de ignição: às vezes tudo que a gente precisa é começar ali uma parada, com foco, porque isso já dá força. Às vezes a gente fica estagnado. Eu tenho muito isso de procrastinar muitas coisas, mas quando eu começo a fazer uma coisa, percebo que era muito mais fácil começar do que eu imaginava. Então, às vezes, começar é 50% da energia que você precisa.

TMDQA!: E “Jaded” é uma faixa que vocês regravaram. Por que vocês escolheram essa faixa?

Fabrício: Assino embaixo tudo que o Victor falou, superlegal a explicação que ele deu para as letras.

A “Jaded” foi o single do nosso EP anterior, “Grawlix”. Ela representa muito a nova fase de fãs do Garage com o Victor, então a gente gosta muito da sonoridade dela. E foi uma ideia do pessoal da OddSounds, de regravar alguma coisa, aproveitando o ambiente que a gente já estava com tudo montado no estúdio, com o Gustavo Scaranelo produzindo. A gente achou legal regravar a “Jaded”.

TMDQA!: Vocês passeiam por várias sonoridades diferentes, acho isso muito rico musicalmente. Vocês pensam nisso quando estão compondo? Ou depende muito do que vocês estão ouvindo na época de composição?

Fabrício: Acho que os dois. No meu caso, geralmente começo as músicas e levo a maioria das ideias para o pessoal, e a gente vai compondo junto. Costumo já ir pensando em algumas ideias na cabeça antes de pegar o violão, porque componho mais no violão do que no baixo. Geralmente essas ideias são influenciadas pelo som que estou escutando naquele momento.

Às vezes sai muito naturalmente uma sonoridade diferente, e às vezes dá vontade: “já fiz todas as músicas porrada, agora eu quero fazer uma mais cadenciada”. Eu vou fazer uma música influenciada por Real Estate, por exemplo. Gosto muito de som indie também. E aí vou fazer uma música tipo Real Estate, como a “Overcharge”. Você vê que tem uns detalhes meio indie, meio Real Estate, meio high-beat. É mais ou menos por aí.

A gente sempre soma todos os sons que escuta, esse é um dos segredos da sonoridade do Garage. A gente está sempre escutando coisas novas e somando essas influências nas próximas músicas que vai compondo.

A gente mantém aquela base do início, de Bad Religion, Dinosaur Jr. Sempre gostamos muito de guitar bands, começamos escutando muito groove lá atrás. E vamos somando sons novos: agora estamos escutando muito Quicksand, muito dive, sons hardcore também mais pesados, como dream, speed. E, quando a gente vai ver, tudo isso está na sonoridade do Garage e nas músicas novas.

Victor: E eu acho que a forma como a gente compõe não necessariamente tem uma fórmula. Tem ideias que o Fabrício traz, a maioria. Tem ideias que eu trouxe, como a “Flashpoint”, o Wagner também traz. E cada música é montada de um jeito.

Não é como se fosse uma linha de produção da Ford, tipo assim: primeiro a roda, depois não sei o quê, depois o capô. As músicas vão sendo preenchidas conforme a gente sente ali. E acho que isso é o legal, que dá essa sonoridade para o EP.

Esse EP principalmente, que são cinco músicas mais a “Jaded” regravada. Cada uma foi composta de uma forma diferente, com etapas diferentes. Acho que isso dá uma sonoridade bem legal para o EP em geral, conceitualmente.

TMDQA!: Tem alguma coisa que vocês estavam ouvindo especificamente na época dessas composições que vocês acham que influenciou um pouco?

Fabrício: Cada um tem sua playlist. O Wagner gosta muito de som stoner. A gente tem sons em comum, mas cada um tem sua coisinha. Eu gosto muito de som indie: tenho escutado muito DIIV, Real Estate, escuto Propagandhi, que é uma banda das antigas mas que ainda lança álbum com sonoridade muito nova, muito moderna. Escuto ainda Descendents, Afghan Whigs, Quicksand, gosto bastante. Quando eu vou ver, tudo isso está influenciando ali na hora de compor.

Victor: Pergunta difícil, chega essa hora e dá um branco. Mas eu cresci escutando, sou da escolinha do punk rock hardcore melódico. Então uma coisa que sinto que sempre está nas composições que eu vou fazer, que não sai de mim, é esse lance do punk hardcore melódico: NOFX, Pennywise, Bad Religion, todas essas bandas que têm essas melodias marcaram de uma forma que, mesmo não sendo bandas que eu escuto mais hoje, já saturou, eu sinto nas coisas que faço as referências delas.

E bandas de outras gerações, mais novas também. Gosto muito de A Wilhelm Scream, que também mistura bastante estilos dentro desse punk rock hardcore melódico. O Quicksand, que o Fabrício falou, eu passei a escutar. Não conhecia muito de indie rock, passei a escutar mais também por causa do Fabrício, então isso ajudou bastante na composição dos sons do Garage.

E sempre, para não fugir do estilo do Garage, embora eu saiba que isso não é muito fácil de acontecer, porque também fui influenciado pelo Garage Fuzz, sempre escuto músicas mais antigas da banda para pegar referências, principalmente de letras, para manter esse conceito.

TMDQA!: Deixa eu aproveitar esse gancho! Deve ser muito legal ter a oportunidade de cantar numa banda que te influenciou, que você curtia pra caramba. Você devia estar lá no chão curtindo e, de repente, está no palco cantando. Como você fez para trazer sua identidade para uma banda já consolidada, que já existia? Imagino também que o Farofa, como vocalista, tenha te influenciado em alguns pontos. Como foi imprimir a identidade do Victor no Garage Fuzz?

Victor: Acho que foi um processo muito natural, porque o Farofa sempre foi, para mim, um dos caras do cenário nacional que mais me influenciou, que eu mais tenho como referência em questão de melodia, ideia de letra, atitude. Sempre tive o maior respeito, considero ele um professor, assim como os outros quatro caras também, e sempre aprendendo muito.

Costumo brincar que estar no Garage, para mim, é uma ficha que espero que nunca caia, porque sempre me divirto muito nos shows, compondo, fazendo o corre da banda. Para mim é um privilégio enorme poder dar continuidade à história dessa banda, que é um patrimônio da cena nacional underground.

Para trazer a minha identidade, acho que foi uma coisa bem natural, não precisei me forçar a nada. Só precisei continuar aprendendo e evoluindo, seguindo por esse caminho que sei que é confortável para mim.

Às vezes a gente tenta, é claro. A gente tenta experimentar, às vezes a gente falha, a gente fala “pô, não ficou muito legal isso que eu fiz”, mas é isso. Acho que o lance de ter uma banda, tocar e compor junto é essa parada: você estar apresentando ideias e compartilhando ideias, porque a sua ideia sozinha é uma coisa, mas quando ela se mistura, ela vira uma terceira coisa, entendeu? A sua ideia com a de outra pessoa vira uma terceira ideia. E acho que isso é a coisa mais legal de ter uma banda.

Fabrício: E aproveitando também esse gancho, poucas vezes eu vi uma banda trocar de vocalista e o vocalista não ser tão bem aceito quanto o Victor. Ele foi muito bem aceito pelos fãs, os fãs adoram ele, adoram o Garage Fuzz nessa nova fase, e a gente também. Ele é muito confortável, trouxe as novas influências dele, soube somar à sonoridade do Garage Fuzz, e foi uma transição super saudável, que somou pra caramba na sonoridade atual do Garage Fuzz.

TMDQA!: Quando a gente fala de novas sonoridades, novas influências, tem alguma coisa do cenário atual independente que vocês acham que está rolando legal, que tem até a ver com o Garage? Porque vocês são a influência de uma geração e continuam influenciando mais gente. Tem alguém da molecada nova que vocês curtem?

Fabrício: Tem bastante coisa legal. Tem o Coutinho, lá do ABC, que é uma banda muito boa. Tem o Bayside Kings, uma banda excelente, num estilo mais hardcore, crossover, mas com influência de metal. Tem o Cipote, aqui de Santos, que faz um som super diferente. E tem muitas bandas: essa cena independente brasileira está muito fortalecida, com uma qualidade incrível.

Quando a gente começou lá atrás, a pessoa tinha menos acesso, era mais difícil, não tinha internet, você não via tantas bandas com essa qualidade. Tinha várias, mas dava para contar nos dedos. Agora não dá mais: são muitas bandas, estilos diferentes, fazendo um som tremendo, e o rock voltou a ser uma coisa mais de nicho, não é mais aquela coisa mainstream.

As pessoas que se dedicam hoje em dia têm amor mesmo pelo negócio, paixão, e referências muito boas e sofisticadas para criar seu som. Acho que a cena nacional hoje está super saudável e em evolução. Fico super feliz, inclusive no show: tem colado mais gente. Teve uma época, metade dos anos 2000, 2010, em que a cena independente estava dando uma queda. Depois começou a voltar, aí teve a pandemia, e quando voltou das coisas da pandemia, voltou com uma força incrível. Seja no hardcore ou em outros estilos, voltou com tudo. Para mim é uma felicidade incrível ver o quanto está saudável essa cena independente e alternativa brasileira.

Victor: Hoje em dia estou com o Garage e com o Dharma Nambi, que é a minha outra banda. E tenho um projeto que está parado no momento, mas pretendo voltar quando a correria abaixar um pouco, que é o Punk Dubs, que faz covers. Só eu, na verdade: gravo a guitarra e as vozes, monto uma bateria, faço covers de músicas que gosto em versão punk rock.

Mas, de bandas novas da cena, além das que o Fabrício citou, o Bayside, tem uma banda que me chamou muita atenção, de Florianópolis, que é o Budang. Como sou vocalista, dou muita atenção para esse lance da voz, e achei uma coisa bem original, bem regional. Eles usam bastante o sotaque de Florianópolis, aquela coisa mais próxima do português de Portugal, com algumas expressões legais da região. Às vezes é até meio difícil de entender a letra, mas achei bem legal. E tem um som hardcore que vem lá dos anos 80, mas com uma parada mais moderna, uns breakdowns, achei bem daora essa banda. Não escutei mais tanto falar, parece que eles assinaram alguma coisa para gravar um disco novo, mas é uma banda que achei bem legal, uma molecada nova.

TMDQA!: Sempre bom dar uma diversificada, porque tem muita coisa acontecendo no Brasil. 35 anos na cena independente brasileira é um ato de resistência. Fabrício, o que fez com que vocês não desistissem? Teve algum momento que você considera mais desafiador? Como vocês fizeram para continuar em frente?

Fabrício: Costumo dizer que o Garage, além de toda a dedicação, o empenho, a resiliência do pessoal, é uma banda que, desde o início, sempre teve algo que motivava a gente. Somos uma banda daqui de Santos, começamos como um trio, dentro da cena guitar band, quando o grunge estava iniciando, com influência de Mudhoney, Dinosaur Jr., o próprio Nirvana. E os primeiros shows já eram em São Paulo, já saía matéria do André Barcinski na Folha de S.Paulo, do Marcel Plasse no Estado de S. Paulo. Aquilo já deu um ânimo, um estímulo na gente.

Daqui a pouco, poucos anos depois, já estávamos assinando contrato com a Roadrunner, uma gravadora internacional. O disco saiu lá fora, na Europa inteira. Por questões comerciais que a gravadora queria na época, a gente achou melhor rescindir. De repente apareceu uma gravadora pequena da Califórnia que conheceu o primeiro disco lançado lá fora e quis lançar o segundo álbum nos Estados Unidos e na Europa. Sempre tivemos algo que nos estimulasse, além da vontade de fazer música. Antes da banda começar, já éramos amigos, então tinha uma relação de amizade junto com esse negócio de fazer música junto.

A gente sempre teve algo que estimulasse, usando o próximo álbum, o próximo projeto, a próxima música. E quando percebemos, 35 anos tinham se passado nesse negócio: já vamos fazer o próximo disco, já vamos fazer o DVD ao vivo, na época que começaram os DVDs, vamos fazer um CD ao vivo. Basicamente é isso, a gente está pronto ainda para o próximo projeto, como sempre foi.

A gente sempre tem um próximo projeto que mantém a atividade. Quando fomos ver, 35 anos se passaram de maneira muito natural. Uma fase crítica que deixou a gente com o pé atrás foi quando o Farofa falou que ia sair. Ele falou para mim primeiro, para a gente ir arrumando uma solução para manter a banda na atividade. Só que, quando íamos começar esse processo de procurar um vocalista, começou a pandemia, e aí parou tudo.

Tivemos que fazer tudo quieto. Fiquei compondo, minha mulher estava em São Paulo, na quarentena, e eu aproveitei para ficar compondo, aprendi a gravar pelo computador, fiquei só fazendo ideias, compondo ideias para quando tivesse atividade. Logo depois tive a ideia de chamar o Victor, ainda bem que ele topou, deu super certo. Essa fase crítica foi super rápida, deu tudo certo, estou mais feliz da vida mantendo a banda na atividade.

TMDQA!: E vocês influenciaram uma geração. Vi algumas histórias de que Champignon e Chorão colavam muito no show de vocês. Dessas bandas que vocês viram crescer, você acha que o Charlie Brown Jr. foi a que vocês influenciaram mais diretamente? Você lembra dessas histórias, deles colando para ver o show de vocês?

Fabrício: Várias pessoas de bandas que hoje já são veteranas falaram que começaram tendo o Garage como influência, porque, como a gente lançou pela Roadrunner, fomos a primeira banda desse estilo distribuída nacionalmente em grandes magazines. Teve o Safári Hamburgues aqui, o Hz, que já fazia um hardcore melódico, mas o Garage foi o primeiro distribuído nacionalmente nesse formato. A gente era encontrado em Manaus, no Carrefour, nas Lojas Americanas, lojas brasileiras, e como o CD gringo era muito caro naquela época, o CD do Garage era mais acessível. Muita gente entrou nesse estilo comprando o CD do Garage em grandes magazines.

Então várias bandas veteranas conheciam o Garage, conheciam esse estilo musical. O pessoal do NX Zero comentou numa entrevista que foi num show do Garage no Hangar que eles resolveram montar a banda. E o Chorão já tinha aqui a banda com outro nome no início, o What’s Up. Ele já tinha a gente como referência, inclusive pelas outras bandas que eu tinha: eu tocava numa banda chamada Psychic Possessor, que gravou disco pela Cogumelo Discos, o principal selo independente, que lançou o Sepultura no início, o Ratos de Porão, aquela cena de metal de Belo Horizonte.

Ele já tinha a gente como referência do som pesado aqui em Santos. E, quando começamos com o Garage, ele me encontrava na rua, antes da fama, do sucesso, e queria conversar sobre o que nos influenciava, quais sons nos influenciavam. Lembro de uma vez chegando da praia, eu fazia exercício lá, e ele invadiu a calçada com uma lambretinha que tinha e falou: “você não toca no Garage? Vamos lá em casa, quero trocar uma ideia contigo.” Achei estranho, mas fui.

Comecei a falar de uns sons, Fugazi, Starmarket, Antifasad, entre outros. O Farofa tinha uma loja de CD que vendia todas essas coisas, com um amigo nosso, sócio dele, um cara aqui de Santos. Depois ele falou: “você está conversando com o Chorão, aquele cara daquela banda lá?”, que estava começando ainda. Eu falei que sim, e ele disse: “ele foi lá na loja e comprou todos os CDs que você falou pra ele.”

Então, além do Garage ter sido uma influência, talvez mais do que isso, ele foi beber na mesma fonte que a gente bebeu, porque achava importante conhecer aquela cena mais underground, da Revelation, da Absorb, da Epitaph, que estava começando. Depois que a banda ficou famosa, super popular, toda vez que ele me encontrava na rua era do mesmo jeito: vinha conversar, perguntava o que eu estava escutando, qual era o som que estava rolando. Eu falava o que estava escutando, e ele sempre queria beber naquela fonte.

TMDQA!: Deve ter sido incrível, né? Não só ele, mas o próprio Victor. Influenciar alguém que você consegue conversar de perto, porque às vezes você está num lugar onde as pessoas não conseguem te acessar, isso deve ser muito legal. Victor, você lembra qual foi seu primeiro contato com o Garage?

Victor: Meu primeiro contato com o Garage, eu ainda estava na escola, de uniforme, a mochila nas costas. Chegando no portão da escola, escutando um som, dava três passos para frente e um para trás, três passos para frente e um para trás, para poder escutar o som até o final. Minha escola ainda era perto do Hangar 110, então muitas vezes a gente saía da escola e já ia direto para a frente do hangar.

Não lembro qual foi o primeiro show do Garage que eu fui, mas conheci a banda em shows. Depois que passei a escutar e dar atenção, fui a alguns shows do Garage, não sei dizer quantos, mas durante minha fase inicial, posso dizer adolescência, começo da vida adulta, foi a época em que mais consumi o Garage. E sempre foi para mim uma grande referência, desde que conheci a banda. Como digo, para mim é um privilégio enorme, espero que essa ficha realmente nunca caia.

TMDQA!: Quais são os próximos passos depois do lançamento do EP? Quais são os planos?

Fabrício: A gente vai lançar agora o “Powerplant”, cinco músicas inéditas e uma regravação. Vamos começar uma série de shows pelo Brasil todo, manter essa onda boa de viajar pelo país. A gente queria fazer ainda este ano, mas vai ficar para o ano que vem, um DVD ao vivo de 35 anos, que vai acabar se transformando num DVD de 36, para dar tempo de lançar o disco, fazer toda a promoção direitinho do EP e fazer os shows.

No ano que vem, provavelmente, além das músicas novas que já vamos começar a fazer, porque estamos cheios de ideias guardadas, já no gatilho, pretendemos, pela OddSounds, com a ajuda do Bruno e do Gustavo, gravar um DVD ao vivo numa casa legal em São Paulo. Aí vamos poder gravar ao vivo músicas da história do Garage com a voz do Victor e também as músicas da nova fase, como as do último EP. Então podem aguardar, para o ano que vem, o Garage Fuzz DVD ao vivo.

O post TMDQA! Entrevista: Victor Franciscon e Fabrício de Souza falam sobre “Powerplant”, novo EP do Garage Fuzz  apareceu primeiro em TMDQA!.

Tenho Mais Discos Que Amigos

TMDQA! Entrevista: Victor Franciscon e Fabrício de Souza falam sobre “Powerplant”, novo EP do Garage Fuzz 


Translate »