Exclusivo: Fernanda Lira mergulha nos bastidores, segredos e memórias da Crypta

Em 20 de Maio de 2020, o Death Metal brasileiro ganhou oficialmente uma força incomparável: foi nesse dia que Fernanda Lira e Luana Dametto anunciaram ao mundo o surgimento da Crypta, formada na época também por Tainá Bergamaschi e Sonia Anubis. De lá pra cá, muita coisa mudou, mas a banda continua inabalável.
Não à toa, o anúncio da Crypta ao mundo veio praticamente um ano depois da ideia surgir entre Fernanda e Luana, então integrantes da Nervosa. A ideia era se aproximar mais do Death Metal, ao invés de seguir pelo Thrash Metal que consagrou a banda anterior (e que segue sendo muito bem feito até hoje).
O momento da Crypta tem sido de inaugurar uma nova fase, com a entrada de Victoria Villareal como guitarrista no lugar de Jéssica Falchi, que por sua vez entrou no lugar de Sonia Anubis após sua saída em 2022. A promessa é de um novo material em breve, mas o grupo já fez uma turnê extensa pelo exterior, embarcará em breve para acompanhar Arch Enemy e The Black Dahlia Murder nos EUA e, no Brasil, se apresentou recentemente no Bangers Open Air.
Fernanda Lira fala sobre equilibrar agenda de shows e gravações com a Crypta
Nesse contexto, Fernanda Lira conversou com o TMDQA! pouco antes da realização do festival, onde o grupo fez um show que mostrou a força de sua nova formação para uma verdadeira multidão, mesmo com um horário que conflitava com o gigante mundial Black Label Society.
O curioso é que o retorno ao festival veio, quase sem querer, como um fechamento de ciclo para o álbum Shades of Sorrow (2023). Afinal, em 2022, quando ainda se chamava Summer Breeze Brasil e estava em sua primeira edição no país, o evento recebeu uma Crypta ainda em processo de maturidade, como você pode ler mais neste trecho da entrevista publicando anteriormente.
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A decisão de se apresentar no Bangers, assim como de acompanhar o Sepultura em uma turnê de despedida pela Europa e de tocar no aclamado Hellfest, na França, faz parte de uma difícil tarefa assumida pela Crypta: como equilibrar a agenda de shows e as gravações de um novo material? No papo com o TMDQA!, Fernanda deixou claro que não é simples:
A Crypta nunca tocou menos que 100 shows por ano desde o começo da sua existência. O que é show pra cacete! É como se fosse um show a cada três dias. É muito. Loucura, né? Mas no ano passado, a gente já tinha dado uma pausa no começo para focar e compor – e aí a gente falou, ‘Ah, só um pouquinho de turnê’. E acabou que a gente fez, sei lá, 130 shows.
É porque vai aparecendo e você fala, ‘Pô, essa não dá para não tocar’, sabe? Aí, esse ano, a gente teve que declinar mesmo algumas tours pelo bem da nossa sanidade. A gente estava cansada, né? E pelo bem da criatividade também, porque não existe mente exausta que consiga criar. A gente tem esse comprometimento com a nossa arte, porque é o que a gente ama, e com os fãs, que a gente sabe que estão esperando também.”
O trabalho muitas vezes é silencioso. “Às vezes estamos quietinhas nas redes sociais, mas o volume de trabalho que a gente tem por trás das câmeras…”, desabafa Fernanda, que estava entre um show e outro quando tirou um (longo e maior do que o programado) tempo para o nosso papo.
As mudanças de formação da Crypta
Em meio a tudo que aconteceu nos 7 anos de Crypta, a banda sempre esteve sob um holofote injusto. Nada é mais normal no Rock e Metal do que mudanças de formação, mas o grupo brasileiro viu uma chuva de críticas ao anunciar a saída de Falchi, que hoje tem um projeto solo e também toca no Korzus, e novamente ao anunciar Villarreal como a nova integrante.
Mesmo assim, Fernanda e companhia resolveram fazer o processo de troca de formação de uma maneira mais transparente do que a vasta maioria das bandas por aí. Desde que Jéssica deixou a banda, a Crypta anunciou que faria testes nos shows seguintes antes de tomar uma decisão definitiva. Esse processo foi descrito pela vocalista e baixista como um respeito ao fã, justamente por entender como é estar nesse lugar:
A pessoa que a gente estava buscando tinha critérios bem específicos, internos, e essa foi a ideia. A gente achou que seria bom sermos transparentes com a galera, porque eu, além de ‘Fefe Metal’, de Fernanda Lira da Crypta, eu sou headbanger! A galera esquece, mas eu sou headbanger, eu sou do Metal, e eu sou fã. Eu sei como é essa sensação, como as pessoas ficam ansiosas para saber.
Por exemplo, quando a Crypta nasceu – a Crypta nasceu ali na metade de 2019, e a minha ideia era anunciar a Crypta só quando a gente tivesse o disco, em 2021. Só que quando estávamos eu e a Luana saindo da Nervosa, os fãs ficaram desesperados, ‘Mas e aí, vocês vão continuar?’. Então, em respeito ao fã, a gente adiantou em 1 ano o anúncio da banda. É essa conexão que a gente tem com os fãs, esse é o respeito que a gente tem.
Claro, não é tudo que precisa estar 100% transparente, porque é business, né? Mas eu acho que dar uma satisfação de, ‘Gente, olha, esse é o processo, vamos demorar, vamos fazer com calma para fazer a escolha certa’… A gente resolveu fazer isso. Claro, teve uma confusão ou outra no sentido de que as pessoas não estavam entendendo algumas coisas, mas no geral a galera entendeu e eu acho que foi a melhor coisa que a gente fez, porque a gente pôde conviver com essas guitarristas fantásticas.”
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Sem entrar em detalhes necessariamente sobre quais os “critérios internos”, Fernanda explicou ainda que, obviamente, o convívio na estrada – “em situações de alto estresse, de ficar sem dormir, sem comer, coisas que alteram o humor de todo mundo” – foi um ponto fundamental, mas contou que a decisão também passou por outras coisas mais objetivas, como as próprias influências de Victoria Villarreal, que estão mais ligadas ao som da Crypta.
A baixista, inclusive, destacou que viu todo o processo como uma “oportunidade” e um “privilégio” de “conviver com duas guitarristas incríveis” e trouxe uma série de elogios para Helena Nagagata, recomendando a guitarrista que também foi testada por um período para qualquer interessado:
A Helena, não é porque não foi escolhida que não é uma guitarrista incrível. Foi Top 3 de pessoas mais profissionais que eu já trabalhei na minha vida. Qualquer pessoa que esteja precisando de uma guitarrista ultraprofissional: Helena. Ela toca impecavelmente, ela é super dedicada, super respeitosa, super profissional. […] A gente foi sem muita expectativa, ‘vamos viver o momento’, e no final a gente pensou: ‘Fudeu, as duas são muito legais, são muito boas’. [risos]”
Na conversa, Fernanda ainda aproveitou para fazer um desabafo voltado às pessoas que pegam no pé do grupo de maneira irracional, deixando claro que a escolha de fazer o processo com calma também foi para evitar uma decisão equivocada e apressada:
A galera fica falando, ‘Ai, toda hora muda de guitarrista’. Gente, a gente teve 2 guitarristas. 7 anos, 2 guitarristas. Sabe? Então, calma. Também não é assim, não confundam as coisas. […] Aí, de repente, a gente faz uma decisão correndo e com o tempo vê que não era o certo… Tanto que a gente pensou que, se não alcançasse os critérios específicos, não teria problema a gente ficar em trio por um tempo.”
Novo disco da Crypta irá realizar sonho da banda
A possibilidade de ficar como um trio por algum tempo, citada acima, não era necessariamente o interesse principal da banda, mas Fernanda explicou também por que isso era visto como algo tão possível.
A vocalista contou que o processo de composição e a estrutura de business da banda já são muito bem definidos desde a formação, o que permitiria que, ao menos em estúdio e nos bastidores, tudo continuasse funcionando sem problemas. Em detalhes, ela contou:
Eu faço praticamente o ‘management’ da banda, e a Luana cuida da parte de merchandising e a parte de arte, visual ali e tudo mais. E a composição, o primeiro disco foi composto por mim e pela Sonia majoritariamente, e o segundo disco fomos eu e a Tainá, com alguns riffs da Luana. Exceto, claro, os solos de cada uma. Então, o ‘management’ tá aqui; a composição [em trio] seria a mesma do ‘Shades of Sorrow’. A gente falou, ‘A gente tem aqui um núcleo para seguir’, e aí a gente poderia fazer como várias bandas fazem – e ninguém reclama – que é pegar uma sub pra turnê.”
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No fim, a parceria com Victoria deu tão certo que já são, segundo Fernanda, três composições da nova guitarrista como parte do novo álbum. “Ela tá super engajada, rolou uma liga na composição”, explicou, citando que as referências de bandas como Death e Cynic ajudam a conversar com a sonoridade que elas buscam, com mais força do old school.
Ainda de acordo com Lira, o novo disco da Crypta já tem nove músicas compostas – “estamos terminando a nona”, ela contou empolgada. Mesmo assim, isso não significa que esteja tudo pronto:
A gente quer um disco um pouco mais longo, mas a gente já compôs o grosso ali. Agora, falta lapidar. Vamos colocar os solos, vamos colocar a linha vocal.”
Fernanda Lira revelou ainda que o sucessor de Shades of Sorrow será um disco conceitual, inspirado por clássicos de nomes como King Diamond, Queenrÿche, Opeth e até The Wall, do Pink Floyd:
Eu acabei de terminar de trabalhar no conceito do disco, porque o novo disco vai ser um disco conceitual, uma coisa que eu sempre sonhei. […] Eu fiz um puta estudo aqui, foram meses lendo diversos livros para criar esse conceito, entender, estudando esses discos para ver como eles conseguem colocar a história – como é feito, precisa de interlúdio, não precisa… São processos, e assim como o processo da escolha de integrante foi feito com calma, o do disco também.
Muito provavelmente, quando o disco sair, vão ser quase 4 anos entre um disco e outro. Mas a gente quis fazer com calma, para entregar um terceiro disco – que costuma ser importante para as carreiras das bandas, né? – que a gente esteja satisfeita, que os fãs ouçam e falem, ‘Pô, valeu a pena esses 3 aninhos e pouco’.”
O lado business: como montar uma turnê e sobreviver da música?
Antes de iniciar o ciclo do novo álbum, a Crypta ainda tem algumas despedidas a fazer. Os últimos ritos do disco Shades of Sorrow já estão a todo vapor: a turnê pela Europa ocupou os últimos meses e depois, como citado acima, vem uma passagem pelos EUA com o Arch Enemy até o meio de novembro.
Olhando de fora, pode parecer que tudo é apenas questão de oportunidade e disponibilidade. Mas, no papo, Fernanda se empolgou bastante ao falar sobre o lado business e todas as estratégias que giram em torno de manter a banda ativa no contexto da indústria atual, incluindo o processo de decisão de fazer turnês como headliner, como atração de abertura e, claro, tocar em grandes festivais.
A gente não se limita, não. Primeiro que a gente não está numa posição de não abrir shows, muito pelo contrário: existem períodos do ano que a gente dedica a fazer support tour, porque a gente precisa. Tudo tem objetivos muito específicos, nenhuma turnê é por acaso. É difícil explicar, mas a gente tem períodos em que foca em fazer turnês com outras bandas e períodos em que foca em turnês como headliner.
O que a gente geralmente gosta de fazer: perto de um lançamento, quando o disco ainda está no começo, a gente busca turnês com outras bandas pra essa música chegar ao maior número de pessoas possível. Porque, quando formos fazer uma turnê headliner no mesmo território depois disso, já vamos ter a nossa base de fã fiel somada à galera que conquistamos nessas outras turnês.
Um exemplo: com o álbum ‘Shades of Sorrow’, a gente teve a oportunidade de fazer a turnê nos Estados Unidos com Hatebreed, Carcass e Harm’s Way. Foi perfeito pra gente, porque a Crypta consegue se encaixar em vários lugares: dá pra fazer uma tour com o Morbid Angel, mas também com o Hatebreed, porque a nossa música conecta com esses públicos. É uma conexão que aconteceu naturalmente e a gente é muito grata por isso.
Depois dessa turnê nos Estados Unidos, quando fomos fazer a nossa turnê headliner por lá, tinha muita gente vindo de universos diferentes: os headbangers mais ‘true’, que vieram por causa do Carcass, e muita gente do hardcore, por causa do Hatebreed e do Harm’s Way. Então é estratégico, não é só porque a gente quer estar nos Estados Unidos. É porque a gente quer alcançar determinados públicos. E quanto mais variada a banda com quem a gente se associa, mais a gente ganha. Só a gente sabe o quanto de fã conquistamos numa única noite abrindo pro Ghost, por exemplo, principalmente mulheres e público jovem.
A Crypta conecta muito com adolescentes, com gente jovem, é muito interessante isso, é a nossa cria. Mas só a gente sabe o quanto de gente a gente ganhou naquele show do Ghost, ou que tipo de fã veio de uma turnê com o Hatebreed, ou de uma tour com o Aborted. Você entende? Quando a gente volta, vê a galera usando a camiseta daquela turnê específica para mostrar que estava lá. Então tudo é planejado, tudo é estratégico, tudo faz parte de um plano de ação da banda.
Nesse sentido, Fernanda explicou inclusive que a decisão de fazer a turnê pela Europa nos últimos meses surgiu justamente por conta dos convites de festivais como o Hellfest, encaixando shows como headliner em datas livres no calendário dos megaeventos do Velho Continente.
Mais ainda, explicou que a turnê do segundo semestre só poderia realmente funcionar por ser ao lado de uma banda maior, “porque a última vez que fomos pros Estados Unidos já foi como headliner, então não faz mais tanto sentido repetir sem novidades pra aquele território”. Ela resume, deixando uma coisa bem clara: “É tudo estratégia”.
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A persona “Fefe Metal”: além da headbanger
Em um tom mais pessoal, outro tópico fundamental para entender a trajetória da Crypta é a persona Fefe Metal, referência ao nome de usuário de Fernanda Lira nas redes sociais. Trazendo um relato pra lá de honesto em nossa conversa, a artista contou sobre suas dificuldades com o uso das plataformas, especialmente por todo o hate que recebeu ao longo dos anos.
Muito disso vem pelo fato de Fernanda não se encaixar necessariamente no padrão que o rockeiro purista espera, a começar pelo fato de ser uma mulher liderando uma banda de Death Metal formada por mulheres, o que amplia os holofotes sobre todas elas. Mas, falando de Lira especificamente, o fato de sempre mostrar seus outros lados e não ter receio de se posicionar é um peso a mais.
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Ao longo da última década, Fernanda nunca escondeu que, além de headbanger, é também uma pessoa com múltiplas facetas: vegana, defensora da sobriedade no meio do Rock e Metal, abertamente política com visões mais ligadas à esquerda tradicional, fã de artistas que fogem do estereótipo como Amy Winehouse e Beyoncé e até taróloga, com direito a um perfil específico dedicado ao tema.
Todos esses itens são parte fundamental da construção dessa persona que, por motivos óbvios, incomoda em diversas frentes os mais puristas. O problema é que, para Fernanda Lira, tudo isso é uma construção natural de sua vida, e entender a dimensão de seu alcance foi um desafio que ela passou a encarar com mais seriedade nos últimos anos.
Fernanda Lira fala sobre profissionalização das redes sociais
Eu não sou a maior fã das redes sociais, vou ser bem sincera. Não é uma coisa que eu tenho afinidade, eu sou bem podre até de responder mensagem, mas a minha rede cresceu. Aquelas mais de 320 mil pessoas que estão aqui, eu não me dou conta que existem – eu fiquei pensando, eu falei, sei lá, ‘Quantos Morumbis são isso, cara?’. É um monte de gente! Isso me deixou um pouco preocupada, e tudo foi construído organicamente só por eu dividir minha vida.
Por conta disso, eu falei, ‘Bom, as pessoas se interessam, então deixa eu compartilhar um pouco mais’. Eu costumo dizer que a minha página, a ‘Fefe Metal’… eu sou um universo com muitas Fernandas dentro de mim. Tem muitas coisas que eu quero falar, que eu vivo, que eu sou. E a minha página é um reflexo do meu universo. Por isso que eu não falo só de música. Eu falo de veganismo, eu falo de tarô, eu falo do que é o meu mundo. E se você não gosta daquele conteúdo, calma que uma hora vai chegar o conteúdo que você gosta!
Quando eu fui ‘cancelada’ ali em 2023, uma coisa que é muito importante que as pessoas entendam é que eu tenho uma dificuldade – e meus amigos sabem – de entender a minha proporção como figura pública, do que é a ‘Fefe Metal’ nas redes sociais. Pra mim, eu sou a mesma moleca headbanger de 15, 20 anos atrás, real mesmo. Então, quando eu fui ‘cancelada’, que eu fui linchada publicamente, ali eu entendi. Eu falei, ‘Gente, olha onde chega, olha onde as pessoas estão falando de mim’. Eu não tinha noção.
Pra mim, eu estava me comunicando com os meus amigos – inclusive, daí a minha ingenuidade, da causa do cancelamento, foi por conta disso. Pra mim era uma rede de apoio. Foi uma ingenuidade desse lugar e eu não conseguia enxergar o peso daquilo ali. Depois disso, eu falei, ‘Ah, entendi o tamanho da minha figura pública, não sabia disso’. E a partir dali eu comecei um trabalho para profissionalizar.
Eu sempre fui uma pessoa responsável nas minhas redes sociais, eu acho. Mas a partir dali, eu falei: ‘Eu acho que eu tenho uma responsabilidade maior ainda do que eu imagino’. Do que eu comunico, como eu comunico. Mesmo sem saber ou aceitar a proporção da minha figura pública, eu entendi que existe um impacto naquilo que eu falo, e eu decidi profissionalizar – e ainda tô nesse processo. Gente, eu sou ‘tecnolotia’. [risos] Meus amigos sabem! Eu tenho dificuldade.
Eu fiz um estudo das minhas redes sociais, e tenho agora uma pessoa que trabalha ali comigo pra gente equilibrar o que eu quero falar – que é importante pra mim, ou então eu nem teria rede social – com o que o público quer ouvir de mim.”
“Quando é uma mulher, o hate dobra”
A onda do hate nas redes sociais não é exclusividade de Fernanda, e ela sabe bem disso. No entanto, é inegável que os movimentos da vocalista e baixista (e de sua banda) parecem ser analisados microscopicamente, como se uma legião de pessoas estivessem apenas esperando o próximo movimento errado para apontar o dedo.
Ainda mais dentro de um meio reconhecidamente machista, cada uma das múltiplas Fernandas presentes nesse universo é um alvo fácil para quem quer destilar ódio. Aproveitando o momento para fazer um misto de análise e desabafo, a artista explicou:
É preciso entender que qualquer pessoa que estiver em destaque vai receber hate. Quando essa pessoa é uma mulher, o hate dobra. Ainda mais quando é uma figura pública que é uma mulher em um meio historicamente predominantemente masculino, e ainda mais quando é uma pessoa que, além de tudo isso, ainda dá uma desafiada na norma. E eu não faço de propósito! Eu uso rosa, eu sou de esquerda… é quem eu sou, gente, o que eu posso fazer? Eu nasci assim, cresci assim. Só que é isso: é vegana, não bebe… isso é diferente do estereótipo, da norma ‘não-oficializada’ mas muito vigente do Metal.
Ainda estou no processo de separar quem eu sou, a Fernanda Lira que está aqui com meus amigos, e quem sou como Fernanda Lira que as pessoas criaram no imaginário delas. Aí eu entendi que o hate que eu recebo é por conta dessas várias camadas de exposição e de personalidade, de transparência. Não é fácil. Não vou falar que é fácil. Não é facil. Você vê muita gente que não te conhece, que você nunca fez nada, que você nunca viu, criando teorias sobre você, te xingando, ofendendo, criando material pornográfico com você nas redes – porque isso existe, e é uma coisa que eu vou falar mais com o tempo.
É difícil porque você fala, ‘Poxa, cara, você nunca trocou uma ideia comigo’. Eu não sou esse monstro, sabe? Acho que qualquer pessoa que recebesse esses comentários… poxa, os meus amigos, familiares, companheiros, veem ali o que falam e todo mundo fica mal junto comigo porque é complicado, é pesado. Não é só tipo, ‘Ela é chata, feia e boba’; eu já recebi ameaça de morte. Não é fácil. Mas eu aprendi a separar, entender por que existe esse hate, entender que a pessoa com um destaque vai estar ali e, quando é mulher, é pior ainda. Mulher que se posiciona, então, pior ainda.”
Talvez, então, seja exatamente por isso que tanto Fernanda Lira quanto a Fefe Metal e a Crypta se conectem com tanta gente. Afinal, um verdadeiro headbanger sabe que não há nada mais Heavy Metal do que desafiar as normas e prezar pela própria autenticidade.
Vida longa, Crypta!
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Felipe Ernani
Exclusivo: Fernanda Lira mergulha nos bastidores, segredos e memórias da Crypta




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