Korzus fala ao TMDQA! sobre levar o Metal ao Global Village do Rock in Rio: “a gente quer contaminar cada canto do festival”

Uma das bandas mais longevas do Metal brasileiro, o Korzus sobe ao palco Global Village do Rock in Rio no dia 5 de setembro para “contaminar” mais um espaço com o som pesado.
Dividindo a noite com Noturnall (em parceria com Russell Allen, vocalista do Symphony X) e Rhegia, o trio integra a programação do chamado “dia do Metal” do festival. No mesmo dia, o Palco Mundo recebe o headliner Avenged Sevenfold, além de Bring Me the Horizon, mgk e Sepultura, enquanto o Palco Sunset recebe Bad Omens, Poppy, Black Pantera (com participação da Nervosa) e Malvada (com Day Limns).
A apresentação chega em um momento especial para a banda paulistana, fundada em 1983. Em abril deste ano, o Korzus anunciou a chegada de Jéssica Falchi (ex-Crypta) e a efetivação de Jean Patton (ex-Project46) nas guitarras, ao lado dos veteranos Marcello Pompeu (vocal), Dick Siebert (baixo) e Rodrigo Oliveira (bateria). A nova formação já estreou o single “No Light Within” e prepara um álbum novo, com uma segunda música inédita que deve ser tocada ao vivo pela primeira vez justamente no Rock in Rio.
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O TMDQA! conversou com Rodrigo Oliveira, baterista do Korzus há 29 anos, sobre o significado de tocar num palco novo dentro do festival, o processo de integrar a nova geração da banda, e os bastidores da faixa inédita, mixada por Martin Furia (Destruction), que promete ser um dos destaques do show.
Veja a seguir a íntegra do papo!
TMDQA! Entrevista Rodrigo Oliveira, do Korzus
TMDQA!: Rodrigo, o show do Korzus é no Global Village, um palco relativamente novo do Rock in Rio, pensado para encontros culturais e sonoridades diferentes — nas edições passadas, vimos muito jazz, muita coisa mais “tranquila”, por assim dizer. Como vocês pensaram em levar um show de Metal para dentro de um espaço que não é necessariamente acostumado a receber esse tipo de apresentação? Foi um “vamos fazer o nosso show e quem passar por lá que lide com isso”, ou teve algum preparativo especial?
Rodrigo: Primeiro, é um prazer estar falando com vocês do TMDQA!, eu sigo há muito tempo, sou fã! Olha, quem disse que o Korzus não é tranquilo? [risos] Brincadeira. Mas, sério, para a gente é maravilhoso ter mais um espaço para mostrar o som pesado. A gente já tocou no Rock in Rio de 2011, no palco Sunset, que já está acostumado a receber bandas pesadas — o Slayer mesmo, por exemplo, já tocou lá. Agora, no Global Village, vai ser diferente. É mais uma oportunidade de levar o som pesado para outros lugares dentro do festival. A gente está contaminando cada vez mais o espaço todo do Rock in Rio, e é exatamente isso que a gente quer, não deixar nenhum canto com calmaria. É o som pesado, é o barulho no Rock in Rio!
TMDQA!: Esse dia realmente se propõe a isso — claro que tem uma ou outra exceção, como o New Dance Order, para quem quer curtir outra coisa, mas é, no geral, um dia de bater cabeça. Vocês já passaram por outras edições do Rock in Rio, mas esse talvez seja um dos dias mais pesados. Além disso, além de bandas mais old school, esse line-up também tem bandas indo para o caminho do Metalcore, que é uma vertente mais recente. Nos últimos anos, o “dia do Metal” tinha meio que desaparecido do Rock in Rio, era sempre mais o “dia do Rock”. Como foi para você ver esse dia do Metal voltando a florescer no festival, com bandas gringas e bandas brasileiras bem interessantes dividindo o line-up?
Rodrigo: Para a gente foi uma surpresa, e estamos muito gratos, ainda mais no momento que a banda está vivendo, de reformulação, com sangue novo, todo mundo com o mesmo objetivo, andando junto para o mesmo lugar. Acho que já tivemos alguns momentos assim, com os cinco integrantes pensando e seguindo o mesmo caminho, mas foram poucos — pelo menos na minha trajetória, que já é de 29 anos de Korzus.
É muito legal participar ao lado de uma galera do Metalcore, um som mais moderno. A gente tem hoje dois músicos de uma geração mais nova na banda, e eu, particularmente, adoro som moderno. Minha banda preferida do line-up desse dia é o Bad Omens. Quem não me conhece talvez pense que o baterista do Korzus só curte o que já é old school, mas não é assim. Eu vi o show deles completo no Knotfest, no mesmo dia em que a gente tocou, e foi, para mim, o melhor show da noite.
O Pompeu está sempre procurando ouvir sons novos, o Dick também. Então, apesar de fazermos um Thrash Metal com muita raiz na escola clássica do gênero, a gente não escuta só isso. Eu mesmo escuto muita coisa, até porque sou produtor musical, o Pompeu também é produtor, então acabamos ouvindo de tudo, não só dentro do Metal. Outro dia mesmo eu estava ouvindo o novo álbum da Olivia Rodrigo, que não tem nada a ver com Metal, mas me falaram que amadureceu bastante e resolvi conferir — a gente vive numa época em que “o cara falou que não é bom e eu nem vou ouvir”, e eu acho que não, tem que formar sua própria opinião, ir atrás e escutar. Achei muito bom!
Esse dia, para a gente, está sendo incrível justamente por isso. Vamos ter a oportunidade de flertar com um público mais novo e mostrar o som do Korzus, inclusive com música inédita. Vamos tocar, pela primeira vez, uma faixa que a gente acabou de fechar a mixagem — ainda estamos decidindo quando lançar, mas no Rock in Rio ela vai ser tocada ao vivo antes mesmo de sair. Tem bastante coisa moderna nela também.
TMDQA!: Que massa! Isso conecta com outro ponto que eu queria tocar: você está fazendo essa espécie de intermediação entre gerações dentro do Korzus, entre o Pompeu e o Dick, que são a galera mais das antigas, e a chegada da Jéssica e do Jean agora. O curioso é que você tem aí duas pessoas que também têm identidade própria muito forte: a Jéssica, com a trajetória dela, não só na Crypta, mas também na carreira solo, mais progressiva e técnica; e o Jean, vindo do Project46, mais ligado ao universo do Metalcore. Como está sendo juntar tudo isso, com você no meio fazendo essa ponte para não perder a identidade tradicional do Korzus, tanto em estúdio quanto no palco?
Rodrigo: É um momento mágico. Estou vendo o Dick e o Pompeu mais jovens, tipo crianças, adolescentes, com aquela euforia de banda nova — parece que eles entraram numa banda nova agora, entende? Está muito legal. Para mim, é incrível porque eu já tinha a experiência de conversar com a geração à minha frente, que é o Pompeu e o Dick, e agora também converso com uma geração mais nova. O Jean tem dez anos a menos que eu, e a Jéssica tem uma diferença ainda maior.
Mesmo assim, eu consigo transitar bem entre os dois grupos, então acabo sendo o intermediador dessas gerações. Tem muita coisa que preciso alinhar entre os mais velhos e os mais novos! Participo dos dois universos, porque sou justamente a geração do meio entre essas três gerações diferentes dentro da banda.
E o principal é que a gente se respeita muito. Temos uma amizade de verdade, não é como se estivéssemos apenas tocando com colegas. A gente conversa sobre tudo, troca mensagem de madrugada convidando um para o churrasco do outro, do nada. Isso é muito legal.
TMDQA!: É interessante porque, pelo que já dá para perceber no single, existe um protagonismo de cada um dentro da banda. Não é que a Jéssica só entrou e passou a tocar Korzus. O Korzus agora tem um quê da Jéssica, um quê do Jean, e isso deve continuar aparecendo nos próximos lançamentos, com essas influências mais modernas que você mencionou.
Rodrigo: Sim, e isso é algo que a gente sempre se preocupou em preservar. Tem que respeitar a história do Korzus e o que o Korzus é, mas desde que não descaracterize a essência da banda, dá para trazer qualquer influência. Eu mesmo trouxe blast beat para dentro do Korzus lá atrás! É um recurso mais ligado ao death metal, e no início foi meio chocante — a banda ficou tipo “como assim, blast beat?” Só que, com calma, escutamos, funcionou, e não agrediu a sonoridade. O Korzus não deixou de ser Korzus por causa disso. É a mesma coisa agora com essa fase, com o Jean e a Jéssica trazendo as influências deles para dentro da banda, sem deixar de ser Korzus.
A música nova está incrível. Gravamos o videoclipe nesse último final de semana, ficou muito bruto — não posso adiantar muita coisa, mas está pesado mesmo. Se nos ensaios da semana que vem a música ficar 100% redonda, a gente toca ela no Rock in Rio.
TMDQA!: Estou bem curioso para ouvir! Ainda nesse tema, confesso que talvez por uma visão um pouco preconceituosa da minha parte, eu imaginava que o público do Korzus fosse mais tradicional, menos aberto a novidades. Mas, pelo que a gente viu, a recepção da galera tem sido muito positiva com essa nova fase.
Rodrigo: Sim, porque, na verdade, a gente não deixou de ser Korzus. A Jéssica está trazendo a influência dela, mas sem deixar de tocar Korzus — o Jean, a mesma coisa. Então tanto o público fiel, mais antigo, quanto o público novo, essa molecada que está chegando agora, estão gostando dessa formação, e a gente está muito contente com isso.
Claro que sempre vai ter alguém que fala “o Korzus morreu no álbum tal”, “morreu no primeiro EP”. [risos] Às vezes nem escutou direito! Outro dia mesmo vi gente falando que o Sepultura “morreu” no Morbid Visions, e pensei: “pelo amor de Deus”. [risos] Sempre vai ter esse tipo de comentário, não dá para agradar todo mundo, mas a esmagadora maioria gostou muito da nova formação e do novo single, e o próximo acho que vai agradar ainda mais. Estamos ansiosos para lançar.
TMDQA!: Falando mais desse dia específico do Rock in Rio: esse line-up reúne uma galera dos primórdios, com décadas de carreira, caso do Sepultura e do Noturnall, ao lado de nomes mais novos da cena nacional, como Black Pantera e Malvada. Como é para você ver essa espécie de celebração do Rock e Metal brasileiro reunida num dia só, com os convidados internacionais somados a essa força toda do Metal nacional?
Rodrigo: É incrível. A gente já tocou várias vezes ao lado do Sepultura, do Noturnall. Tem a Malvada, com quem tocamos recentemente em Curitiba, e que também tocou com a gente em Belo Horizonte. Com o Black Pantera, acho que nunca dividimos o palco diretamente, mas já tocamos no mesmo festival, no Knotfest, eles tocaram duas bandas depois da gente naquele dia.
É tudo amigo! O vocalista do Black Pantera já fez um programa lá no meu estúdio, com o Gastão. Então é como você disse, uma celebração do metal nacional, junto com os gringos, com a galera das antigas e com quem está chegando agora — inclusive a Prika, da Nervosa, minha querida, que também vai estar lá. Vai ser muito bom estar com todo mundo. E é o Rock in Rio, né? Não é um festival qualquer. Mesmo já tendo tocado antes, o sonho continua o mesmo: tocar quantas vezes for possível.
TMDQA!: É um outro palco, um outro espaço, uma galera diferente que o Korzus vai captar nesse momento.
Rodrigo: Sim, e o horário também é muito bom. Vamos tocar numa janela em que não vai ter mais nada acontecendo ao mesmo tempo, porque estarão preparando o palco para as próximas bandas. Vai ser ótimo.
TMDQA!: Pra fechar… olha, eu sei que pela sua trajetória mais longa no Korzus, talvez você já não sinta tanto isso, mas acho que ainda se aplica um pouco. Como você falou, para muita gente, esse pode ser o primeiro contato com o Korzus, alguém que está só passando ali na frente e nem sabe direito o que está acontecendo. Ainda rola uma pressão diferente por ser Rock in Rio? Ou, na sua posição, isso já ficou mais tranquilo? E, com a nova formação, será que ainda bate uma dúvida tipo “será que essa galera vai olhar e estranhar”, tipo, “esse é o Korzus?”
Rodrigo: Ah, vou falar que estou de boa, mas sempre tem uma mentirinha nisso. [risos] A gente já está tranquilo, mas a adrenalina é a mesma, o tesão de subir no palco é o mesmo. Sempre bate aquele “será que o público vai gostar?” Isso nunca passa.
E é ótimo que quem não conhece o Korzus vai conhecer já com o Jean e a Jéssica, porque estamos vivendo um momento muito bom, e isso está transparecendo. Vai mostrar o melhor momento da banda para todo mundo. A gente está ansioso para subir nesse palco, não paramos de falar sobre isso. Nos últimos dias, inclusive, quase não paramos de falar da mixagem nova. Estamos sem dormir, fazendo um recall dela.
Eu mesmo mixei o primeiro single, mas dessa vez preferi deixar com terceiros. Santo de casa nunca faz milagre, e tinha muita tensão em cima, eu queria focar no Rock in Rio. [risos] Então deixamos com o Martin Furia, do Destruction, que também mixou os últimos álbuns da Nervosa e de vários outros artistas. Ouvimos hoje e ficamos muito felizes com o resultado. Espero que o público novo, que está conhecendo o Korzus com essa nova cara, se apaixone pela banda do jeito que a gente está apaixonado por esse momento.
TMDQA!: Isso deve atrair muita gente também, né? Só de ver, principalmente no caso da Jéssica, uma menina destruindo a guitarra no palco, já muda a chave de identificação para outras meninas na plateia.
Rodrigo: Isso é maravilhoso. Quando a gente era moleque, sempre se espelhava em alguém. Eu, por exemplo, me espelhava no Iggor Cavalera, no Fernandão [Schaefer], no Ricardo Confessori, a galera dos anos 90 que eu olhava e pensava “quero ser igual a esses caras”.
Hoje, tem alguém para as meninas olharem e falarem “quero ser igual à Jéssica”, “quero ser igual à Prika”, musicistas incríveis! E tem milhares de outras meninas fazendo um som incrível também. É muito bom ter alguém para se espelhar assim. E a gente vê, a cada show, esse público crescendo, o fã-clube da Jéssica nos shows do Korzus. [risos] Estou muito feliz com isso.
TMDQA!: Para fechar, a gente sempre gosta de perguntar: se você pensar em cinco discos que mudaram a sua vida, quais seriam?
Rodrigo: Vamos lá, não importa o estilo, né? Hell Awaits, do Slayer; Thriller, do Michael Jackson; Innuendo, do Queen; Altars of Madness, do Morbid Angel; e Legion, do Deicide.
TMDQA!: Foi a resposta mais rápida que eu já vi — geralmente a galera demora uns três minutos para decidir! [risos]
Rodrigo: Vê que eu vou do Michael Jackson ao Deicide numa boa! [risos] É simples. Tudo é música. Sou colecionador de vinil, então para mim é fácil falar de cinco discos.
O Korzus toca no palco Global Village do Rock in Rio no dia 5 de Setembro, às 19:10.
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Felipe Ernani




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