Daniela Mercury fala do axé, resistência e indústria: “ser artista é perseguir um propósito”

Daniela Mercury e Olodum vão realizar show no Rock in Rio 2026 junto com Gilsons
Foto: Celia Santos

No dia 12 de setembro, Daniela Mercury sobe ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026 como convidada dos Gilsons, ao lado do Olodum. Marcado para 17h50, o encontro reúne diferentes gerações da música baiana e coloca o axé, o samba-reggae e a tradição afro-baiana no centro da Cidade do Rock.

Às vésperas do festival, Daniela conversou com o Tenho Mais Discos Que Amigos! sobre o show e acabou indo muito além dele. O papo chegou em soberania cultural, democracia, indústria fonográfica e o significado da continuidade em ser artista.

A conversa começou com uma brincadeira inevitável para quem fala com o TMDQA!: afinal, Daniela Mercury tem mais discos ou mais amigos? São 26 álbuns lançados, cerca de 20 milhões de discos vendidos e uma trajetória que, em 2026, ganhou mais um reconhecimento.

A cantora foi anunciada entre os artistas que receberão o Lifetime Achievement Award, Prêmio à Excelência Musical da Academia Latina da Gravação. Mesmo assim, Daniela acha que tem mais amigos.

Quando perguntamos qual seria a trilha sonora do filme da própria vida, Daniela preferiu cantar. Puxou o refrão de “É Terreiro”, faixa de Cirandaia, lançado em 2025 ao lado da cantora Alcione.

O Brasil que precisa aprender a gostar de si

Em 2026, o disco Feijão com Arroz completa 30 anos. Ao voltar àquele período, Daniela falou sobre a dificuldade de fazer a música produzida na Bahia ocupar espaços que, por muito tempo, estiveram concentrados no eixo Rio-São Paulo.

Para ela, a chegada do axé e a expansão do samba-reggae também obrigaram o Brasil a prestar atenção em uma produção cultural que já tinha força própria, mas ainda precisava disputar reconhecimento dentro do próprio país.

A gente aqui no Brasil é colonizado e sempre valoriza muito o que vem de fora, então é muito difícil você fazer o brasileiro gostar do que vem de dentro. Bonita essa frase, não é? O brasileiro tem dificuldade de gostar do que vem de dentro, do que vem do seu interior, ou de suas capitais, além do Rio e São Paulo, que foram consagradas internacionalmente como grandes capitais.

Daniela acredita que esse olhar está mudando. Os números ajudam a dimensionar essa virada. Em 2025, 75,2% dos streams consumidos no Brasil foram de artistas brasileiros, uma das taxas mais altas do mundo e a maior da América Latina, segundo a Luminate. No mesmo ano, 47 das 50 músicas mais ouvidas no país eram nacionais. O Brasil também avançou para a oitava posição entre os maiores mercados de música gravada do mundo, de acordo com a IFPI.

A baiana ainda chama atenção para uma diferença que considera fundamental: a tendência de medir a importância de uma região por sua força econômica, quando o Brasil, para ela, tem na cultura uma de suas maiores potências.

A gente se mede pela força econômica, não pela força cultural. Eu acho que o mundo está mudando, as pessoas estão refletindo e vendo quais são as outras forças que nós temos. E o Brasil é soberano em termos culturais.”

Rock in Rio 2026 e um “manifesto de soberania cultural”

Veterana dos palcos do festival, onde já se apresentou em edições passadas no Brasil e em Lisboa, Daniela se prepara para retornar ao Rock in Rio 2026 em um show emblemático que reunirá a força percussiva do Olodum e a suavidade solar dos Gilsons.

E esse show no Rock in Rio vai ser isso: vai ser um manifesto de soberania cultural, de beleza, de ancestralidade, no momento em que o Brasil está sofrendo, inclusive, ameaças à sua soberania, que a gente se une e se fortalece através desses vínculos que são a cultura, que são a música.

Longe de ser apenas um encontro comemorativo, a artista enxerga essa apresentação como uma trincheira política. Ela lembra que o nascimento do axé coincide justamente com a redemocratização do Brasil nos anos 1980 e 90.

O axé chega e consegue furar bolhas justo quando o Brasil está retomando sua democracia. E o Brasil gosta do axé porque começa a olhar para si mesmo com mais altivez. Porque a diferença de um regime autoritário para um regime democrático é que o regime democrático celebra a nossa diversidade, e o autoritário celebra o que alguns determinam como nossas características. O axé é um gênero que democratizou muito a música popular brasileira. Veio do povo, se estabeleceu como um movimento de massa poderosíssimo, genuíno, espontâneo. Não foi o marketing que fez o axé. Foi a gente, no chão, na rua, fazendo música de verdade.”

Resistência na indústria fonográfica

Quando o assunto é a relação com a indústria fonográfica e as burocracias do mercado, Daniela demonstra a mesma altivez que a fez colocar um piano de cauda e blocos afro em cima do trio elétrico.

O diretor da gravadora dizia assim: ‘Eu não consigo conversar com você, porque você tem argumento para tudo’. Então eu venci com argumentos, venci com pesquisa, venci porque acreditei muito mais na relação real minha com o público do que fiquei pensando que era o marketing, que era uma viralização, um dinheiro investido ali ou lá. Eu fui operária de chão de fábrica.

Questionada sobre como manteve a autonomia artística intacta ao longo das décadas, ela traçou um paralelo direto entre as suas batalhas de bastidor no passado e as lutas enfrentadas por artistas contemporâneas, como Anitta.

Sabe como é que a gente faz? Fazendo. Tem uma frase que diz assim: ‘To be is to do’ — ser é fazer. Quando você chega num determinado momento da carreira que você pergunta ‘quem sou eu?’, eu sou o que consegui fazer ao longo desses anos. Tudo que a Anitta está dizendo que viveu com a gravadora, eu vivi lá atrás. Ser artista é resistir, é perseguir um propósito.”

O palco como templo e o transcender de si mesma

Quem já assistiu a um show de Daniela Mercury sabe que a sua entrega física desafia a lógica. A baiana de 60 anos se comporta em cena com a eletricidade de quem acabou de descobrir a música.

Eu sou uma menina no palco. Eu sou tão feliz. É um lugar tão mágico para mim, é meu templo, é minha casa. Me lembro quando, com nove anos de idade, subi no Teatro Castro Alves pela primeira vez para dançar e eu beijei o chão do palco. O palco é um lugar mágico de brincadeira, de sonho, de imaginação, de possibilidades que transcendem tudo de mais concreto.

Ao relembrar o momento em que pisou no palco do Teatro Castro Alves pela primeira vez, ainda criança, Daniela traduziu em palavras a fagulha espiritual que continua a mover sua trajetória.

Eu sou pura energia, emoção, entrega, vida no palco. E, ao mesmo tempo, o palco me devolve essa alegria de viver, essa fé na humanidade. O axé que existe em nós é uma energia que transcende, que é muito mais do que o nome de um gênero musical. O axé é a alegria que habita a tristeza.”

Que essa alegria tome conta do Rock in Rio nesse show especial!

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Liz Sacramento

Daniela Mercury fala do axé, resistência e indústria: “ser artista é perseguir um propósito”


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