Manger Cadavre? aposta em estética noventista e ataca “Obsolescência Programada” em novo clipe

Caro leitor, talvez você esteja aqui no meio de um scroll infinito, entre notícias, vídeos, memes e lançamentos. Talvez esteja apenas tentando preencher alguns minutos do dia e não pensar demais. Mas, em algum momento do dia, é provável que o pensamento tenha voltado ao trabalho e ao medo de perdê-lo. À próxima prestação. Ao contrato que pode não ser renovado. À pejotização que transforma a vida em uma sucessão de boletos sem garantias.
E não é apenas o trabalho que se tornou descartável. Vivemos cercados por produtos feitos para durar pouco, versões novas que chegam antes mesmo de as antigas perderem sua utilidade e uma pressão constante para substituir aquilo que temos. O descarte deixou de ser apenas uma etapa do consumo para tornar-se uma maneira de organizar a vida.
É nesse ponto que a Manger Cadavre? coloca seu death crust e hardcore a serviço de uma leitura particularmente certeira do nosso tempo. A banda, que acaba de completar 15 anos, construiu sua história no metal extremo encarando exploração, desigualdade, violência e precarização em suas letras. Depois de percorrer boa parte do Brasil e festivais como o Abril Pro Rock, o grupo chegou à Europa em 2024 para tocar no lendário Obscene Extreme, na República Tcheca. Em 2025, realizou a tour de Como Nascem os Monstros. Agora, em 2026, debuta, como sempre, na estrada.
É dessa trajetória que nasce o videoclipe de “Obsolescência Programada”, faixa de Como Nascem os Monstros, álbum finalista do Prêmio TMDQA! de 2025 entre os melhores lançamentos de metal. A música parte da ideia de que produtos podem ser fabricados para se tornarem obsoletos e amplia o conceito até chegar a uma conclusão incômoda: dentro de um sistema baseado no descarte, o próprio trabalhador pode ser tratado como uma peça substituível.
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“Em época de pejotização, em que boa parte dos trabalhadores não possui direitos e garantias sociais, a insegurança é algo constante no dia a dia. A letra dessa faixa possui algumas camadas de interpretação”, explica Nata de Lima, vocalista da Manger Cadavre?.
O cenário escolhido para o clipe traduz essa ideia sem precisar explicá-la. Filmado nas ruínas da antiga Tecelagem Parayba, em São José dos Campos, cidade natal do quarteto, o vídeo coloca a banda diante de um espaço que já foi símbolo de produção e trabalho e hoje é apenas um vestígio de um ciclo que não mais pertence a esse tempo. Produzido por Gustavo Rodrigues, o clipe acompanha inicialmente um explorador pelas ruínas e depois o transporta para o encontro com a banda, em cenas gravadas no Hocus Pocus Estúdio, que também fica na cidade.
A estética também faz parte da crítica. Filmado com handycams antigas e inspirado na linguagem audiovisual dos anos 1990, o vídeo abraça granulação, saturação e efeitos que hoje podem parecer tecnicamente ultrapassados. É uma escolha coerente com uma banda que questiona a padronização estética provocada pelas novas tecnologias e a obsessão contemporânea pela imagem perfeita e sintética.
A origem da letra, curiosamente, está longe de qualquer ambiente industrial. Ela surgiu durante a primeira turnê europeia da banda, quando Nata estava em Berlim. Depois de preparar um almoço para cinco pessoas, percebeu que havia gastado cerca de oito euros em ingredientes que, no Brasil, custariam pelo menos R$ 200. O choque aumentou quando ela percebeu que o molho que havia comprado na Europa era feito com tomates cultivados no Brasil.
Quando li na embalagem da passata, que no Brasil é vendida como um molho de tomate especial e lá é simplesmente molho, que os tomates haviam sido cultivados no Brasil, aquilo me chamou atenção”.
A experiência aconteceu em um período de alta do café e forte exportação de commodities brasileiras. Ao mesmo tempo em que observava preços e condições de consumo muito diferentes, Nata também se deparava com a qualidade e a tecnologia presentes em produtos cotidianos na Europa.
Era a mesma época da alta do café, pois estávamos exportando tudo e tínhamos que consumir a pior qualidade do que sobrava e pagávamos caríssimo por ele. (…) O sentimento era de choque de realidade: nunca deixamos de ser colônia”.
O instrumental de “Obsolescência Programada” já estava pronto, com referências de bandas como Bolt Thrower, Carcass e do death metal dos anos 1990 nas cordas e a energia do hardcore crust na bateria. A letra veio depois daquela experiência, transformando um episódio cotidiano em reflexão sobre consumo, desigualdade, dependência econômica e trabalho.
Por isso, a antiga Tecelagem Parayba funciona tão bem como cenário. Aquilo que um dia foi aparentemente indisipensável e central para uma cidade — máquinas, produção, empregos e trabalhadores — hoje é ruína.
Manger Cadavre? e o disco Como Nascem os Monstros
O disco Como Nascem os Monstros investiga diferentes manifestações do medo. Em “Obsolescência Programada”, ele aparece de uma maneira particularmente familiar: no desemprego, na precarização e na sensação de que existe uma data de validade para aquilo que fazemos e para nós próprios e o espaço que ocupamos.
Enquanto você termina este texto, o scroll continua infinito, novos produtos continuam sendo lançados e novas tecnologias prometem tornar tudo mais rápido e eficiente. Em algum lugar, alguém provavelmente está descobrindo que seu trabalho já não é mais necessário. A obsolescência programada talvez nunca tenha sido apenas sobre coisas e sim, um novo modo de vida.
Manger Cadavre? é formada por Nata de Lima (vocal), Marcelo Kruszynski (bateria), Paulo Alexandre (guitarra) e Bruno Henrique (baixo).
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Isis Correia
Manger Cadavre? aposta em estética noventista e ataca “Obsolescência Programada” em novo clipe




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