Humberto Gessinger no metalcore? It’s All Red consegue esse feito em novo álbum

Dez anos depois de seu último álbum de inéditas, o It’s All Red retorna com um novo trabalho de estúdio, ainda que, nesse intervalo, a banda de metalcore tenha mantido sua produção com o lançamento de singles. E talvez não exista imagem melhor para representar esse momento de retorno aos discos cheios do que a presença de Humberto Gessinger na faixa “Pertencimento”, música dividida em duas partes em uma colaboração inédita e sui generis que aproxima dois universos aparentemente antagônicos da música.
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Trazer Gessinger para um disco de música pesada é um dos grandes trunfos do It’s All Red. O encontro, aparentemente improvável, aproxima universos distintos e materializa uma das ideias centrais do álbum: a busca por um lugar onde seja possível caber.
O It’s All Red chega a este álbum homônimo carregando 20 anos de trajetória e um peso histórico na música pesada brasileira. Pioneira do metalcore nacional, a banda ultrapassou as fronteiras da cena brasileira e chegou a ser escolhida pessoalmente por Dave Mustaine para abrir o show do Megadeth em Porto Alegre, em 2016.
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O direito de pertencer
O ser humano é gregário e colaborativo, embora o modo de vida contemporâneo pareça nos empurrar cada vez mais para o individualismo e o isolamento. É na contramão dessa lógica que o álbum It’s All Red, homônimo à banda, faz do pertencimento o fio condutor de histórias muito diferentes entre si, que atravessam deslocamento, violência, memória e identidade. O disco investiga o que significa buscar e lutar por um lugar no mundo.
Essa busca aparece de maneira especialmente evidente em “Pertencimento Pt. 1” e “Pertecencimento Pt.2”, as faixas divididas com Gessinger. A colaboração não é apenas um encontro de artistas gaúchos, pois ela também carrega uma história anterior, já que Gessinger produziu alguns trabalhos no estúdio do guitarrista Rafael Siqueira, do It’s All Red. Rafael trabalhou nas gravações de Sem Piada Nem Textão e acompanhou a pré-produção de Revendo o que Nunca Foi Visto, ambos trabalhos de Gessinger.
Em “Pertencimento”, a banda em conjunto com Gessinger olha para os imigrantes que foram buscar, no Sul ou em outros territórios, um espaço onde pudessem encontrar um lugar onde coubessem. O deslocamento, nesse caso, não é apenas geográfico, é também a busca por identidade, reconhecimento, enfim, pertencimento.
Gessinger e o metal
A colaboração com Humberto Gessinger nas duas partes de “Pertencimento” aproxima universos que os rótulos costumam separar. Gessinger cita Led Zeppelin, Deep Purple, Iron Maiden e Motörhead entre suas principais referências ligadas à música mais pesada e afirma que, aos 60 anos de idade, as classificações de gênero já não dão conta da diversidade da música para ele.
Durante as gravações, Gessinger e o It’s All Red trocaram referências sobre diferentes gerações do metal, incluindo conversas sobre Opeth e Ghost. Para Rafael Siqueira, ouvir a voz do músico sobre uma base pesada foi emocionante. “Dá vontade de fazer um disco inteiro”, conta Rafael.
Humberto Gessinger tem voz ativa para falar de pertencimento, ou justamente da dificuldade em encaixar-se. Suas colaborações são bastante diversas tendo transitado ao lado de Chico César, Duca Leindecker, Paulinho Moska e tantos outros. Aqui, Gessinger comenta sobre a experiência de cantar em um disco de heavy metal:
Tento não deixar que rótulos atrapalhem meu caminho. Desde o início, o pessoal do rock me achava muito MPB e a MPB me achava muito rock. Gaúchos me achavam uma banda nacional e o Brasil me achava uma banda gaúcha. Conheci o It’s All Red através do Rafa, guitarrista, e achei legal, ponto final.”
Caso real de feminicídio vira clipe
Na faixa “Femme”, o tema do pertencimento ganha uma dimensão muito mais dolorosa a partir de um caso real de feminicídio que atingiu diretamente a família do vocalista do It’s All Red, Tom Zynski.
O crime aconteceu em 2025 e foi o décimo feminicídio registrado no Rio Grande do Sul somente no primeiro mês do ano (via g1 e GHZ). O caso ganhou repercussão na imprensa gaúcha e teve uma particularidade especialmente brutal: a violência foi presenciada e denunciada pelo filho da vítima.
“Femme” não trata a violência contra a mulher como uma questão distante, estatística ou abstrata. Ela nasce de uma experiência que atravessou diretamente a família do vocalista que agora transforma essa dor em matéria artística, como explica Tom:
Não devemos aceitar a dor do mundo com resignação. Este disco é nossa recusa ao silêncio. O disco nasce da urgência de colocar tudo pra fora. ‘Femme’ é a letra mais pesada do disco. Ela vem da dor visceral, inspirada no feminicídio que impactou a minha e a tantas outras famílias, em um país e um estado em alerta, sem ver um fim. Uma das respostas possíveis é a indignação transformada em arte”
O clipe de “Femme”, dirigido por Bruno Carvalho, é um trabalho extremamente pesado, perturbador, daqueles que podem provocar gatilhos em quem assiste. Mas justamente por isso ele se torna uma peça necessária. Com uma abordagem cinematográfica, o vídeo não tenta suavizar a violência nem oferecer ao espectador uma distância confortável.
Certamente também é papel da música alcançar universos de fantasia e imaginação, mas, nada melhor que uma expressão típica da contra cultura como o metal para mostrar aquilo que não é palatável.
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Se “Pertencimento” pergunta sobre a busca por um lugar no mundo, “Femme” mostra o lado mais perverso dessa questão: o que acontece quando alguém tenta impor a outra pessoa o lugar que ela deve ocupar — e quando essa violência chega ao extremo de negar-lhe a própria existência.
“Naad”: a liberdade de atravessar fronteiras
A amplitude temática também aparece na própria construção musical do álbum. Elementos de prog metal e death metal convivem com referências que vêm de diferentes momentos do rock e do metal, criando um trabalho que parece mais interessado em encontrar a sonoridade adequada para cada ideia do que em obedecer a uma fórmula.
É aí que entra “Naad”, faixa que incorpora a cítara, instrumento tocado pelo guitarrista Daniel Nodari. Antes de integrar o universo musical da banda, Nodari foi professor de yoga e mantém conteúdos relacionados a relaxamento na internet, experiências que contribuíram para seu domínio desse instrumental e ajudam a explicar a naturalidade com que a cítara aparece dentro do disco.
“Naad” amplia o vocabulário sonoro do trabalho e reforça a ideia de que pertencimento também pode significar permitir que diferentes elementos coexistam sem que um precise anular o outro.
“Macau”: território, poder e deslocamento
O mesmo vale para “Macau”, que acrescenta outra perspectiva a esse universo e reforça a sensação de que o disco não quer ficar restrito a um único território musical ou conceitual.
A faixa olha para as Guerras do Ópio, na China do século XIX, e transforma um episódio histórico em matéria-prima para discutir território, poder e deslocamento.
A música amplia a pergunta central do álbum. Afinal, quem tem o direito de ocupar um lugar? Quem decide quem pertence a determinado território? E o que acontece quando fronteiras, interesses políticos e relações de poder determinam quem pode permanecer e quem precisa partir?
É mais uma maneira encontrada pelo It’s All Red de levar o conceito de pertencimento para além da esfera individual.
A papoula como síntese
A imagem escolhida para a capa do álbum é a papoula. A papoula remete diretamente ao ópio associado aos conflitos históricos abordados em “Macau”, mas carrega significados amplos. Pode representar beleza, amor e contemplação, mas também sofrimento, morte, perda e memória.
É difícil imaginar uma imagem mais adequada para sintetizar um álbum que trabalha justamente com essas contradições.
A delicadeza da flor convive com a violência de sua associação histórica. A beleza divide espaço com a dor. E o indivíduo, mais uma vez, aparece diante de forças maiores do que ele próprio.
Um disco que não quer caber em uma definição
Parkway Drive, Gojira, In Flames, Killswitch Engage, Sevendust e Trivium aparecem entre as referências apontadas por Rafael, ao lado de nomes como Alice in Chains, Bring Me the Horizon, Death, Faith No More, Metallica, Nevermore, Nine Inch Nails, Sepultura e Tool.
É uma lista que ajuda a entender o espírito do disco e do It’s All Red: mais do que obedecer a uma cartilha estilística, a banda parece interessada em absorver aquilo que faz sentido para a música. Essa liberdade também ajuda a entender a própria presença de Gessinger. O álbum cria um espaço onde essas diferenças podem coexistir.
O It’s All Red aborda o pertencimento sem oferecer respostas prontas, explorando diferentes formas de buscar, perder ou ter negado um lugar no mundo. No fim, o disco deixa uma pergunta: onde, afinal, é o nosso lugar e quem decide quem pode ocupá-lo? Claro, usando peso e brutalidade do jeito que qualquer fã de metal gosta!
A formação atual do It’s All Red é Tom Zynski (vocais), Rafael Siqueira (guitarra e baixo), Daniel Nodari (guitarra) e Renato Siqueira (bateria). Participou de “Pertencimento” o baixista Vicente “Velles” Telles e o tecladista e arranjador Vini Möller.
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Isis Correia
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