“A gente também pertence a esse lugar”: a convite de Joelma, Viviane Batidão fala sobre sua estreia no Palco Sunset

Por Fabricio Araújo
No dia 13 de setembro, quando Joelma subir ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026, o show ganhará uma participação que vai muito além de um encontro entre duas artistas paraenses. Convidada para dividir o palco com a cantora, Viviane Batidão levará ao festival o tecnomelody, o melody e o chamado rock doido, sonoridades moldadas nas festas, nas aparelhagens e na experiência cultural do Pará.
Para Viviane, o convite reúne duas sensações que atravessam toda a sua trajetória: gratidão e pertencimento. Ela sabe o tamanho de ocupar um dos principais palcos do festival, mas também entende que sua presença ali não pode ser lida apenas como uma vitória individual. É a chegada de uma artista que permaneceu fiel ao tecnomelody mesmo quando o gênero perdeu espaço, mostrando que a sua identidade não era um obstáculo a ser corrigido.
É uma conquista profissional. Receber esse convite da Joelma e do Rock in Rio para estar no Palco Sunset é muito grandioso. É uma sensação de gratidão, de ‘chegamos lá’, e, ao mesmo tempo, de pertencimento. A gente sente que também pertence a esse lugar.”
A história com o Rock in Rio
A relação de Viviane com o Rock in Rio começou de forma bem mais modesta. Em 2019, ela se apresentou durante uma ação de marca em um pequeno espaço dentro do evento. Sete anos depois, retorna como convidada de Joelma, em um dos maiores palcos do festival. A mudança de escala ajuda a dimensionar o alcance que Viviane vem tendo no cenário musical brasileiro.
Quando o convite veio, eu fiquei surpresa, porque não esperava mesmo. Joelma é muito grande, não apenas como potência cultural, mas como mulher e ser humano. Ela e a equipe me deixaram muito à vontade. Vou cantar com a banda dela, personalizar o telão com a minha identidade visual e usar efeitos. É uma abraçando a outra.”
O Rock Doido no Rock in Rio
Existe uma coincidência interessante entre a cultura paraense e o Rock in Rio. No dia 13 de setembro, haverá o encontro do “rock” do Rock Doido e o “rock” do Rock in Rio, que não precisam ser entendidos apenas como referência ao gênero musical. Nos dois casos, a palavra também pode carregar uma ideia mais ampla de agito, festa e movimento.
No Pará, o Rock Doido nasceu dentro do universo das aparelhagens como uma expressão de pista, marcada pelas batidas eletrônicas aceleradas e pela energia do público; no Rock in Rio, o nome de um festival que há décadas extrapolou as fronteiras do rock e também passou a abrigar uma programação formada por diferentes gêneros e culturas musicais.
É justamente nessa aproximação que a presença de Viviane Batidão ganha uma camada a mais de significado. Se “rock” também é festa, movimento e encontro, o Rock Doido talvez nunca tenha estado tão em casa quanto agora. Ao levar essa sonoridade para o Palco Sunset, Viviane não precisa transformá-la em rock para que ela pertença ao Rock in Rio: é o festival que, ao abrir espaço para outras expressões da música brasileira, amplia o sentido do próprio nome e permite que o “rock” feito para dançar nas aparelhagens do Pará também encontre seu lugar ali.
Quem estiver no festival ou acompanhar a transmissão de casa, deverá experimentar, ainda que por alguns minutos, parte da atmosfera das festas de aparelhagem do Pará.
A galera vai conseguir sentir um pouco de cada som e entender o que é cada coisa. Vai ter identidade visual, figurino especial, transformação. Vai ser lindo.”
Poucos minutos, energia no 220
A participação será curta quando comparada a um show completo de Viviane, por isso, a preparação exige outra lógica. Não há tempo para construir a energia aos poucos: ela precisa entrar em cena já no ponto máximo.
No meu show, eu tenho uma hora e meia ou duas horas e meia para mostrar quem eu sou. No Rock in Rio, eu tenho alguns minutos. Então, a voz precisa estar boa, a energia precisa estar boa e eu não posso ficar ofegante. Eu preciso entrar no 220.”
Até o dia 13, a rotina incluiu ensaios com os dançarinos, preparação vocal e treinos físicos. Viviane conta que canta enquanto corre na esteira ou pedala, reproduzindo o esforço que enfrentará no palco.
A resistência que virou coroa
Viviane, ao recordar o discurso emocionado que fez ao receber o Prêmio Multishow 2025 na categoria “Brasil”, reforça que cada novo palco representa um movimento inteiro — artistas, produtores, DJs, dançarinos e públicos que mantiveram o tecnomelody vivo mesmo em períodos difíceis.
Todas as minhas conquistas profissionais eu não encaro como só minhas. Eu encaro como conquistas de um movimento.”
O título de “Rainha do Tecnomelody”, segundo ela, não foi uma escolha pessoal. Durante algum tempo, Viviane resistiu a assumir a expressão. Com o passar dos anos, entendeu que o reconhecimento estava ligado justamente à sua permanência.
Esse título veio depois do entendimento de que eu fui resistência, de que continuei acreditando. Eu sou muito apaixonada pelo que faço. O tecnomelody me deu tudo. Eu venho de uma história muito pobre, de não imaginar nem ter uma casa um dia. O movimento me abraçou, disse que tinha espaço para mim, e desde 2007 eu não parei de produzir música.”
Uma conquista que aponta para outros caminhos
Quando fala sobre o futuro, Viviane separa a mulher da personagem pública. Como pessoa, diz ter conquistado muito mais do que imaginou. Como Viviane Batidão, ainda quer alcançar novos festivais, palcos internacionais e públicos que desconhecem a música produzida no Pará.
Eu quero chegar a muitos lugares para falar sobre a nossa cultura, para as pessoas olharem e dizerem: ‘isso é muito bom, de onde vem?’. Quero que essa curiosidade faça com que procurem outros artistas e outras músicas.”
Ela reconhece que existe preconceito e xenofobia, mas também insiste em um problema menos explícito: a falta de conhecimento sobre as diferentes culturas do Brasil. Para Viviane, colocar artistas paraenses em grandes palcos não serve apenas para confirmar carreiras já consolidadas; serve para abrir uma porta de descoberta. É nesse sentido que ela se sente representada ao ver nomes como Joelma, Gaby Amarantos, Zaynara, Felipe Cordeiro e Jaloo circulando por espaços de alcance nacional.
A participação ao lado de Anitta em Lisboa, lembrada durante a entrevista, reforçou essa convicção. A recepção do público fora do país mostrou que as sonoridades paraenses podem criar conexão mesmo onde ainda são pouco conhecidas. O Rock in Rio aparece, portanto, como mais uma etapa de um projeto artístico que nunca foi apenas sobre ocupar o centro, mas sobre levar consigo o lugar de onde veio.
Eu sei que muitos queriam também ter essa oportunidade e se enxergam em mim quando estou em um palco como esse. Não é fácil, mas é possível outros chegarem também.”
Em poucos minutos no Palco Sunset, Viviane Batidão terá a missão de condensar uma trajetória construída entre aparelhagens, batidas e resistência. A convite de Joelma, a artista leva ao Rock in Rio a sonoridade que escolheu defender durante toda a carreira e terá diante de um dos maiores públicos do país a oportunidade de mostrar por que carrega a coroa de Rainha do Tecnomelody.
E, se o “rock” também é festa, encontro e movimento, talvez não exista lugar mais simbólico para provar que o Rock in Rio pode, também, ser casa do Rock Doido.
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