Muitas histórias, guitarra e a forte influência do sul dos EUA: você já conhece o som do Wednesday?

Wednesday
Foto por Graham Tolbert

Por Dais Sampaio

Se você gosta de indie rock, shoegaze e daquele tipo de música que faz você pensar “como é que eu ainda não conhecia essa banda?”, é bem provável que Wednesday já tenha cruzado o seu caminho. Se não cruzou, tudo bem: estamos aqui para corrigir esse pequeno erro de percurso.

Vinda dos Estados Unidos e cada vez mais impossível de ignorar na cena alternativa, a banda vem construindo um dos sons mais interessantes (e deliciosamente caóticos) dos últimos anos. Então, se você ainda não conhece Wednesday, talvez seja uma boa hora para descobrir por que tanta gente está falando deles.

Tudo começou através da vocalista, Karly Hartzman. Ela era uma estudante de fotografia com um pequeno problema: gostava demais de ir em shows. Durante a adolescência, passou tanto tempo acompanhando grupos locais em turnês… e, em algum momento, aparentemente pensou: “quer saber? cansei de ser plateia, vou fazer meu próprio som”. E foi exatamente o que fez.

Em 2017, Karly se juntou ao multi-instrumentista Daniel Gorham e os dois começaram a gravar o primeiro álbum juntos, Yep Definitely, lançado no início de 2018. Esse disco foi um projeto pequeno com um som bem inspirado em Asheville, sua cidade natal, e a sonoridade dele é muito mais voltada para um lo-fi, indie e noise do que pro “countrygaze”, que posteriormente virou marca registrada deles.

Depois de começar como um duo, Wednesday decidiu que duas pessoas eram pouco caos e rapidamente virou um quinteto. Em 2020, veio I Was Trying to Describe You to Someone, álbum que começou a desenhar com mais clareza a identidade da banda: músicas com cada vez mais storytelling e aquele tipo de guitarra que parece estar prestes a destruir alguma coisa, mas de um jeito muito bonito.

No ano seguinte, MJ Lenderman deixou de ser colaborador e entrou oficialmente para a banda, e então veio Twin Plagues. E foi aí que a brincadeira ficou mais séria. O disco marcou uma verdadeira virada de chave na carreira do grupo, aparecendo na lista de 31 melhores álbuns do ano da Pitchfork e fazendo a imprensa finalmente parar para prestar atenção.

De repente, aquela banda que contava histórias profundamente sulistas por cima de guitarras ensurdecedoras não era apenas interessante: tinha alguma coisa ali que era difícil de ignorar.

Wednesday é uma banda profundamente ligada às suas raízes

Talvez a melhor maneira de entender por que a Wednesday soa tão… Wednesday é olhando para o lugar de onde ela veio. 

A banda praticamente nasceu da cena musical de Asheville, na Carolina do Norte… Uma comunidade pequena o suficiente para todo mundo se conhecer, tocar nas mesmas bandas, frequentar os mesmos lugares e, provavelmente, esbarrar nas mesmas pessoas em algum bar. Karly e os outros integrantes vieram desse mesmo circuito, cercados por uma tradição musical em que country e folk fazem parte do DNA cultural do sul dos EUA.

Só que eles resolveram pegar tudo isso e jogar no liquidificador. As narrativas das letras carregam aquele jeito de contar histórias típico do country, enquanto as guitarras mergulham no shoegaze e ainda sobra espaço para noise e punk. O resultado é uma mistura tão específica que fica difícil apontar para outra banda e dizer: “é tipo isso aqui”. É Wednesday!!! E, talvez, esse seja justamente o charme.

Foi ficando impossível de ignorar um som tão autêntico na cena

Uma grande virada de chave na história da banda foi quando eles assinaram com a Dead Oceans, selo que já tinha no catálogo nomes como Phoebe Bridgers, Mitski e Japanese Breakfast. Ou seja, a banda definitivamente estava sendo aposta de algo grande. Para marcar a nova fase, veio “Bull Believer”, uma música de mais de oito minutos que acabou se tornando uma das faixas mais emblemáticas da banda.

Mas o verdadeiro “agora vai” aconteceu em 2023, com Rat Saw God. O álbum foi recebido com aclamação pela crítica e pelo público, e colocou o Wednesday em outro patamar: aquela banda cult de Asheville, conhecida por quem frequentava os cantos mais alternativos da cena, finalmente começava a ganhar a visibilidade que merecia dentro do indie rock. A partir dali, ignorá-los ficou consideravelmente mais difícil.

Da Carolina do Norte para o mundo

E aí aconteceu o inevitável: o Wednesday começou a trocar os pequenos palcos de Asheville por uma quantidade cada vez mais preocupante de aeroportos, vans e festivais ao redor do mundo. 

O que antes era uma banda conhecida principalmente pela cena independente da Carolina do Norte, passou a ocupar palcos de grandes festivais e a tocar para públicos que provavelmente nunca tinham ouvido falar de Asheville, e talvez nem soubessem apontar a cidade no mapa.

A estrada virou parte essencial dessa nova fase, a banda conquistou fãs e atenção internacional, mas, mesmo enquanto rodava o mundo, continuou carregando consigo as referências, as histórias e aquele caos delicioso que fizeram o surgimento do seu som acontecer. 

Uma história ainda em movimento: qual será o próximo capítulo? 

O Wednesday já passou há algum tempo da fase em que precisava convencer alguém de que era uma banda para ficar de olho. Bleeds, seu álbum de estúdio mais recente, nasceu em meio a uma série de mudanças: o fim do relacionamento entre Karly e MJ Lenderman, a explosão da carreira solo de MJ e uma nova configuração para a banda na estrada.

Só que, em vez de transformar toda essa turbulência em motivo para parar, a Wednesday fez o que aparentemente sabe fazer melhor: transformou as mudanças em músicas e seguiu em frente ainda mais barulhenta, inventiva e impossível de encaixar em uma caixinha.

Hoje, MJ segue seu próprio caminho, mas continua fazendo parte da história e das gravações da banda, enquanto Karly e o restante do grupo continuam levando o seu countrygaze cada vez mais longe. 

E, falando em longe, parece que o Wednesday decidiu trazer essa história até mais perto. No domingo (29/09), eles finalmente atravessam o oceano pela primeira vez rumo ao Brasil para tocar em São Paulo, no Balaclava Festival.

Depois de sair de casa, conquistar a cena alternativa americana, atravessar festivais e rodar o mundo, faltava só descobrir o que acontece quando esse furacão de guitarras encontra uma plateia brasileira – que, convenhamos, não existe nenhuma igual.

3 músicas para conhecer o som do Wednesday

“Bull Believer”

É Wednesday em sua forma mais visceral: guitarras enormes, noise e uma catarse final que explica, em uma música, por que Rat Saw God foi a virada de chave na história deles.

“Chosen to Deserve”

Aqui eles transformam histórias de juventude do interior americano em uma música surpreendentemente divertida. É provavelmente um resumo do que a banda oferece: uma história muito sulista envolta em guitarras melancólicas.

“Elderberry Wine”

Do último álbum, aqui eles se mostram mais maduros, sem abandonar a “estranheza” e emoção que eles sempre colocam em todas as canções. É uma boa porta de entrada para conhecer a banda na sua fase atual.

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