O que os olhos não veem, NAIMACULADA sente e toca no novo EP “ACROMATOPSIA”

A NAIMACULADA acaba de lançar o EP ACROMATOPSIA. Curioso é que, pela segunda vez, a banda recorre à visão como forma de pensar a própria música. Se antes, na estreia, era A Cor Mais Próxima do Cinza (2025), agora é a incapacidade de perceber as cores que dá nome ao trabalho. Entre um título e outro, parece existir uma investigação sobre o que significa enxergar e sobre a individualidade e a subjetividade do olhar de cada um.
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E se há uma cidade que conhece bem a paisagem do cinza, do preto e do branco, é São Paulo, de onde a banda vem. Os tons intermediários, a velocidade, o concreto, o excesso de estímulos, a selvageria-domesticada e suas pequenas e grandes estranhezas: tudo parece caber nessa espécie de ensaio-percepção que a NAIMACULADA constrói nas quatro faixas de ACROMATOPSIA.
Não se trata, necessariamente, de fazer uma música cinzenta. Pelo contrário, a música da NAIMACULADA não é nada óbvia e é divertido caçar as inúmeras referências possíveis (não necessariamente declaradas pelos músicos) que costuram o som.
No campo das apostas, há quem escute e deposite votos em Tim Maia, Jards Macalé, Portishead e até Lobão! Há psicodelia, há o progressivo, há a pulsação da black music, há momentos em que a voz se desloca para lugares mais ásperos e outros em que a canção parece interessada em dissolver as próprias bordas. O ar da flauta encontra a o metal pesado na guitarra.
A César o que é de César
Talvez você conheça a NAIMACULADA pelo seu baterista, Pietro Benedan, filho do cantor João Gordo. É uma informação impossível de ignorar, sobretudo porque Pietro carrega desde o nascimento uma história familiar que o precede. Mas é preciso reconhecer a herança sem deixar que ela engula aquilo que ele construiu por si. E, nesse sentido, a NAIMACULADA é muito mais do que a banda de um herdeiro.
Ao lado de Ricardo Paes (vocal), Luiz Viegas (baixo), Gabriel Gadelha (sopros), Samuel Xavier (guitarra) e Duda Freitas (guitarra), recém-integrada à formação, Pietro participa do agora sexteto de jovens que andam na contramão da lógica da música algorítmica e do hype.
Não parece haver em ACROMATOPSIA uma ansiedade evidente para parecer novo, nem a necessidade de se encaixar rapidamente em alguma cena. Existe uma disposição para procurar, experimentar e mostrar o que se sente e como se sente. E que há quem sinta como a gente. Ou diferente. Isso é justamente o que torna a banda tão interessante.
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Adicionando cor
Em ACROMATOPSIA, NAIMACULADA segura nas mãos de BNegão, Thalin, Nabru, Kiko Dinucci e Sol, que participam do EP e representam o encontro de gerações. Dessa fusão certamente só se pode esperar uma ampliação da paisagem sonora. É cor mesmo onde ela não habita.
“Pecado Tem Medo” tem as participações de BNegão e Thalin, do álbum Maria Esmeralda, e explora a contemporaneidade de um artista lidando com a rotina. “Shangrilá”, com a rapper Nabru, parte dos dissabores da vida artística. “Terminal Bandeira” tem Kiko Dinucci na guitarra e aborda a conformidade distópica presente no cotidiano. Fechando o EP, “O Que É Que Será”, parceria com Sol, da banda Ímola, trata da paralisia dos movimentos coletivos.
Uma curiosidade de ACROMATOPSIA é que parte do trabalho foi gravado na China, mais precisamente em em Shijiazhuang, onde foram captados músicos locais tocando instrumentos da cultura chinesa.
São Paulo continua lá, cinza, acelerada, concreta, barulhenta. Uma cidade que parece já ter visto de tudo, até que surja uma NAIMACULADA para olhar de novos ângulos. E talvez uma banda tão diversa quanto a própria cidade não pudesse ser diferente: negros, indígena e branco dividem a formação e fazem questão de que essa pluralidade seja percebida.
NAIMACULADA parece querer nos fazer enxergar além do mundo concreto em ACROMATOPSIA e exercitar o pensamento sobre aquilo que, muitas vezes, olhamos sem realmente ver.
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Isis Correia
O que os olhos não veem, NAIMACULADA sente e toca no novo EP “ACROMATOPSIA”




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