Medulla transforma pausa em recomeço e revela nova fase em entrevista ao TMDQA!

MEDULLA por @palu___bertissolli - 6
Foto por @palu___bertissolli

Depois de uma pausa que começou em 2018, o Medulla está de volta. Mas não exatamente ao mesmo lugar de onde saiu.

Formado pelos irmãos gêmeos Keops e Raony, o duo atravessou anos dedicados à direção criativa, ao audiovisual e a trabalhos para marcas e artistas antes de decidir mergulhar novamente na própria música. O resultado desse processo é No Dia Que Tudo Mudou, álbum que transforma experiências acumuladas ao longo de uma década em matéria-prima para uma nova fase.

Para além de um retorno, o disco também representa uma espécie de acerto de contas com o passado e, ao mesmo tempo, uma abertura para o futuro. Algumas das primeiras composições foram escritas há cerca de dez anos, mas ganharam novos significados a partir das mudanças vividas pelos irmãos. Entre escolhas profissionais, vulnerabilidades, acidentes que poderiam ter terminado de outra forma e a redescoberta do propósito artístico, o Medulla encontrou caminhos para fazer da própria história parte central do novo trabalho.

Em entrevista ao TMDQA!, Keops e Raony falam sobre coragem, transformação e a decisão de colocar novamente o Medulla no centro de suas vidas. A dupla também conta como a experiência acumulada fora da música passou a integrar o projeto, das experiências presenciais de audição à linguagem audiovisual, e explica por que No Dia Que Tudo Mudou não deve ser encarado apenas como um álbum de retorno, mas como o registro de tudo aquilo que aconteceu enquanto eles estavam longe.

Confira!

TMDQA! entrevista: Medulla

TMDQA!: Vocês definem “No Dia Que Tudo Mudou” como um manifesto sobre coragem. Qual foi o maior medo que precisaram enfrentar para colocar esse projeto no mundo?

Medulla: Pausar o Medulla em 2018 foi desafiador, porque pausar algo que você faz desde os 12 anos de idade, algo que já define muito quem você é socialmente, mistura muito as emoções. Aí enfrentando isso, ficamos alguns anos dedicados a direção criativa para marcas e artistas. Isso rapidamente tomou conta do nosso dia a dia e nos levou a coordenação do marketing de algumas marcas. E fomos dividindo o tempo dessa correria toda, com a calmaria de criar um álbum sem amarras. Quando o álbum estava quase pronto, algo dentro de nós pedia para que abríssemos mão de um cargo importante, um salário bom, uma segurança, e voltar 100% pro Medulla. Foi necessário coragem, mas foi o que fizemos. E foi fundamental para conseguir finalizar tudo e montar toda jornada que já começamos a trilhar.

TMDQA!: Dez anos separam algumas das primeiras composições do álbum do momento atual. O que vocês diriam hoje para os artistas que escreveram essas músicas no passado?

M: Essa pergunta foi forte. Há dez anos éramos bem diferentes do que nos tornamos. A gente foi procurar se conhecer além da música. Mergulhar na nossa história, em quem somos de verdade. E o que encontramos tá todo impresso nesse álbum. Valeu a pena!

TMDQA!: O título sugere um acontecimento definitivo, mas transformação costuma ser um processo. Para vocês, qual foi exatamente “o dia” em que tudo mudou?

M: Somos colecionadores desses dias desde sempre. Existe um momento recente que abre muito nossos olhos pra isso. No momento da pausa do Medulla, no começo da nossa carreira como diretores de arte, eu (Raw) estava fazendo um job para uma produtora de funk: um clipe que juntava os artistas mais importantes da época. Estávamos na laje onde iríamos filmar, quando pisei em uma telha de amianto e caí em um buraco de mais ou menos seis metros de altura. Fiquei um bom tempo no chão sem conseguir me mexer muito bem, enquanto as pessoas lá em cima do buraco falavam comigo. No meio delas, o Hariel começou me ajudar e perguntou meu nome, quando eu disse que era Raony ele ficou em choque, porque é o mesmo nome do irmão dele. Então ele fez questão de fazer todo corre para me ajudar, chamou ambulância com insistência para me atenderem e me salvou. Eu tava vivendo uma época muito difícil e esse dia serviu para me dar luz ao sonho, à vontade de viver, ao propósito.

TMDQA!: Como vocês lidam com a exposição de colocar vivências, afetos e cicatrizes pessoais em músicas que passam a pertencer também ao público?

M: Eu concordo com a Brene Brown, quando ela diz que a gente se conecta na vulnerabilidade. A gente é assim, taurino, pernambucano intenso, apaixonados, então é maravilhoso pensar que a vida é sobre como cada um de nós atravessa a vida do outro. Música é essa poção mágica que muda ou amplia a percepção das pessoas. Todos nós usamos a música para degustar as sensações. E aí cada música tem sua função. Tantos artistas me salvam e me guiam pela vida, e eu sou muito grato a cada um deles. E essa gratidão eu também posso devolver com música para outras pessoas.

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TMDQA!: O Medulla surgiu em outro momento da indústria musical. O que mudou na relação de vocês com público, redes sociais e mercado ao longo desses anos?

M: Acho que a maior mudança agora, é que como duo e irmãos, a gente pode agregar toda nossa vivência ao Medulla, então mais que música, agora toda nossa vivência como criativos faz parte do projeto. Pensando assim, nós montamos o circuito de audições pré-álbum, como designer de experiência, que foram audições em ambientes interessantes, como a Soap Club, uma lavanderia cool em SP, lavando roupa e ouvindo o álbum; uma corrida com a Bad Running no Minhocão e depois ouvir o álbum no escritório deles, de frente pro Minhocão; e uma experiência de cenografia na Casa Cósmica, onde o público montou um cenário com as próprias mãos e ouviu o álbum inserido nesse ambiente. Essa visão ampliou nossa maneira de falar com a nossa comunidade e com o mercado, mudou também a maneira como a gente vivencia o Medulla.

TMDQA!: Hoje, além da música, vocês também trabalham fortemente com direção criativa e audiovisual. Essa multiplicidade é uma escolha artística ou uma necessidade para acompanhar os novos tempos?

M: Uma escolha natural. Somos filhos de desenhista pernambucano, cheio de ideias, e crescemos na geração que foi impactada pela MTV Brasil. Sempre produzimos o audiovisual do Medulla, desde a narrativa até a execução. Eu (Raw) comecei como designer e o Keops como videomaker. Durante a carreira contamos com muitos parceiros que foram dirigidos por nossa visão. E com o tempo, diretores e artistas começaram a convidar a gente para produzir outras criações além das nossas autorais.

TMDQA!: As audições presenciais mostram uma tentativa de fugir da lógica de simplesmente anunciar um lançamento nas redes. O que vocês acham que a música perdeu — e pode recuperar — nesse modelo mais digital?

M: Agora, na minha cabeça, acho difícil dizer o que a música perdeu, só consigo pensar o quanto ela expandiu. Parece que ouvimos música de maneiras mais múltiplas agora. Houve um tempo que era só na rádio ou espaço na TV. A curadoria era muito restrita. Agora tem pra todo gosto, toda forma de ouvir, com muitas possibilidades de abordar as pessoas.Os formatos vão mudar, mas só tem um elemento que é necessário para se fazer arte: um artista.

TMDQA!: O conceito dos gêmeos divididos em dois corpos também pode ser entendido como uma metáfora para escolhas. Quais escolhas vocês sentem que estão fazendo agora na carreira?

M: Acho que a escolha mais importante que fizemos foi mergulhar outra vez. Conectar com os artistas, com novo público olho no olho, criar novos caminhos.

TMDQA!: O que vocês aprenderam sobre parceria depois de tantos anos trabalhando juntos como irmãos e como dupla?

M: A gente é muito abençoado de sermos gêmeos. Nossa parceria é a medula do que somos.

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