“A vida é tão curta”: MARO fala sobre recomeços, novo álbum e shows no Brasil

MARO retorna ao Brasil para turnê
Foto: Divulgação

MARO, cantora e compositora portuguesa, volta aos palcos brasileiros em novembro, com apresentações no Rio de Janeiro (3), no Circo Voador; em Belo Horizonte (4), no Teatro SESIMINAS; e em São Paulo (7), na Casa Natura Musical. A turnê apresenta SO MUCH HAS CHANGED, álbum lançado em janeiro de 2026 e gravado no interior paulista, e a passagem pelo Brasil marca sua estreia com uma banda fixa completa.

Multi-instrumentista, compositora e produtora portuguesa, MARO já colaborou com Jacob Collier (confira a entrevista incrível feita pelo jornalista Felipe Ernani do TMDQA! aqui), Eric Clapton, Milton Nascimento, ANAVITÓRIA e Maria Gadú. Em 2022, representou Portugal no Eurovision Song Contest com “saudade, saudade”, chegando ao top 10 da competição. Sua sonoridade transita entre folk, pop, música eletrônica e arranjos acústicos intimistas.

Após turnês pelos Estados Unidos, Canadá e México ao lado de NASAYA, a artista conversou com o TMDQA! sobre seu novo álbum, o amadurecimento, a influência da música brasileira e a nova fase dos shows.

“Você é uma pessoa chorona?”

A pergunta surgiu durante a entrevista porque há algo nas músicas de MARO que frequentemente provoca essa reação em quem escuta. Suas composições têm uma delicadeza particular. A voz, quase sempre contida, parece encontrar espaço justamente onde as palavras não conseguem explicar tudo.

A compositora e violonista não se considera exatamente uma pessoa chorona. Ela conta que pode passar bastante tempo sem derramar uma lágrima.

Recentemente, contou que chorou assistindo ao filme Eu Juro (2025), comédia dramática que acompanha a história de um homem com síndrome de Tourette. Na estrada, porém, foram os encontros humanos que provocaram algumas das emoções mais intensas do ano.

Não sou uma pessoa que chora assim tão facilmente, mas também não sou de nunca chorar. Na turnê da Europa, foi a primeira vez que fizemos uma turnê maior com aqueles ônibus em que a gente dorme. Na última noite, ficamos todos acordados até tarde, cantando. Tinha uma menina da Grécia, a Cristina, que estava filmando e começou a mostrar músicas tradicionais de lá. E agora, na última noite nos Estados Unidos, voltando de São Francisco, chorei de novo. Não era chorar, chorar, mas caíam lágrimas de olhar para aquela equipe e pensar: ‘Nossa, que privilégio poder fazer essa vida que eu amo’.”

Depois de uma extensa passagem pela Europa e pelos Estados Unidos, ela segue diretamente para a América Latina. Uma pausa maior, segundo a cantora, deve acontecer apenas no início de 2027.

Esse ano realmente está sendo ainda melhor do que eu imaginava. Eu já tinha muita expectativa porque escolhi meus melhores amigos para estarem no palco comigo e na equipe. Então estou fazendo isso com a minha família. E, mesmo com essa correria de show atrás de show, parece que todo dia eu consigo ter aquele momento de colocar tudo em perspectiva e pensar: ‘Nossa, que incrível’. É um instante em que as coisas desaceleram um pouquinho e eu consigo agradecer pelo que está acontecendo.”

“A vida é tão curta”

O título do novo álbum, SO MUCH HAS CHANGED (“Tanta coisa mudou”, em tradução livre), sugere uma transformação profunda. MARO, no entanto, faz uma distinção entre mudar de personalidade e aprender a interpretar a própria experiência.

Eu me sinto a mesma pessoa desde criança. É engraçado porque acho que certas coisas da personalidade, daquilo em que acredito, já estavam muito definidas. O que mudou, acima de tudo, foi a maneira de encarar as coisas, a perspectiva. Você continua sentindo tristeza, continua lidando com momentos difíceis, com dores de coração. Mas, nos últimos anos, comecei a perceber que essas coisas, afinal, não são o fim do mundo.”

A artista explica que algumas experiências continuam dolorosas, mas já não ocupam o mesmo espaço em sua vida. O tempo ajudou a reconhecer o que merece sua energia e aquilo de que é melhor se afastar.

A vida é tão curta. As coisas acontecem por uma razão, a gente tem que passar por elas e sempre existe alguma aprendizagem. Ao mesmo tempo, tudo é passageiro. Acho que essa noção foi se instalando cada vez mais. As sensações são as mesmas, eu continuo sendo a mesma pessoa, mas hoje consigo olhar para certas coisas e pensar: será que isso é mesmo para mim? Aprendi a entender melhor os meus limites, e tudo parece mais leve.”

Essa percepção aparece em “Love’s Not to Beg”, uma das dez faixas do disco. A canção fala sobre deixar de insistir em uma relação que já não oferece reciprocidade. Para MARO, reconhecer os próprios limites foi uma das mudanças mais importantes desse processo.

Essa música fala exatamente disso, de não fazer sentido a gente ficar correndo atrás daquilo que, na realidade, não está escolhendo a gente. E isso não parece fácil. Mas acho que comecei a ter esse tipo de percepção. As sensações continuam sendo as mesmas, só que agora consigo me perguntar se determinada coisa é realmente para mim. Consigo perceber melhor os meus limites. E o disco inteiro fala um pouco sobre isso.”

O álbum nasceu desse olhar mais sereno. Musicalmente, combina violões, piano e discretas texturas eletrônicas, com arranjos que deixam espaço para a voz e os detalhes de cada composição.

Gravado no estúdio Gargolândia, em Alambari, no interior de São Paulo, SO MUCH HAS CHANGED também reflete a proximidade da portuguesa com o Brasil. Duas ou três vezes por ano, ela visita a família dos músicos Pedro e Gabriel Altério, que integram sua banda. Os pais dos irmãos, Rita e Rafael, tornaram-se seus pais brasileiros. “Me lasquei… Arrumei pais brasileiros e agora tenho que vir visitar toda vez, porque não aguento de saudade quando estou longe”, brinca.

De hortelã ao novo álbum

O disco anterior ao lançamento deste ano é hortelã, de 2023. O disco nasceu durante um período em que a artista se sentia deprimida e profundamente esgotada. Na época, ela enfrentava dificuldades em um relacionamento amoroso e decidiu encerrar o vínculo profissional com uma produtora norte-americana.

‘hortelã’ nasceu numa altura em que eu estava muito deprimida, em um esgotamento. Foi quando decidi sair do management americano, da Quincy Jones Productions. Também estava numa relação amorosa que não estava funcionando. Acho que foi um ano em que resolvi mudar tudo na minha vida. Comecei a trabalhar sozinha, saí daquela gestão porque não estava funcionando e precisei olhar para dentro e reconstruir tudo aquilo.”

Foi uma fase de decisões difíceis. MARO passou a administrar a própria carreira e procurou reconstruir sua relação com a música, com o trabalho e consigo mesma. A capa de hortelã, na qual aparece com parte do corpo descoberto, representa a fragilidade de alguém que decide não esconder suas vulnerabilidades.

hortelã’ veio como um renascimento. Eu queria voltar às bases. Até a capa, em que estou um pouco sem roupa, não vem de um lugar sedutor. É mais um lugar de fragilidade, de mostrar como a gente vem ao mundo, despido, sem nada. Era essa sensação de começar de novo, mas num lugar ainda muito frágil, de alguém que passou por muita coisa. Escrevi aquele disco para deixar tudo para fora, como uma forma de terapia, colocar tudo naquele envelope e seguir em frente.”

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Uma continuação…

Se hortelã foi escrito para compreender uma fase difícil, o novo álbum revela a tranquilidade de perceber que algumas decisões deram certo. O tempo ajudou, e a cantora aprendeu a reconhecer aquilo que deseja preservar em sua vida.

Eu sinto que ‘SO MUCH HAS CHANGED’ é um pouco a continuação desse processo, mas já dez quilômetros à frente. Aquele renascimento de ‘hortelã’, que escrevi no final de 2022, não parou ali. Foi seguindo um caminho cada vez melhor, com a certeza de que tinha feito a escolha certa. Comecei a olhar mais para dentro, a me escolher mais e a entender os meus limites. É engraçado porque, sonoramente, os dois discos são muito distintos, mas, no fundo, acabam tendo a mesma intenção.”

Embora seja inteiramente cantado em inglês e assinado por uma artista portuguesa, SO MUCH HAS CHANGED foi gravado no Brasil. Diferentemente de hortelã, composto majoritariamente em português, o novo álbum reflete outra fase da vida da cantora e compositora. Questionada se a escolha do inglês teria relação com a busca por um público internacional, a portuguesa explica que o idioma de suas composições surge naturalmente, influenciado pelas pessoas e pelos lugares que fazem parte de seu cotidiano.

É engraçado porque muita gente me faz essa pergunta, e faz sentido pensar se é uma escolha para chegar a mais pessoas no mundo. Mas, no meu caso, nunca foi. Eu não tenho um lugar muito racional quando escrevo. Na parte criativa, sou muito fã de ficar aberta ao que estou sentindo e seguir aquilo, sem questionar muito. A língua acaba sendo sempre o que sai naturalmente.”

A mesma espontaneidade se aplica aos arranjos. Ela conta que não costuma começar um projeto definindo exatamente qual gênero musical pretende explorar.

Às vezes faço um projeto com três violões e voz, superacústico, mais folk. Depois aparece outro que é um pouco mais pop, talvez indie pop. Isso também não foi uma escolha planejada. Quando comecei a escrever, foi o que saiu. Claro que depois eu sabia o que queria fazer com a banda e tinha uma ideia da produção, do som. Mas nunca penso: agora vou fazer um disco pop em inglês para todo mundo. Não é assim que funciona comigo.”

Essa liberdade tem relação com sua formação musical. A jovem promessa da nova geração de artistas portugueses cresceu ouvindo cantores de diferentes nacionalidades, incluindo músicas de Madagascar, da Índia e de diferentes regiões africanas. Hoje, durante as turnês internacionais, observa que plateias nos Estados Unidos e no Canadá cantam suas composições em português, mesmo sem necessariamente entender cada palavra.

Eu cresci ouvindo música em hindi, malgaxe, suaíli, músicas com letras que eu não entendia. E elas me tocavam do mesmo jeito. Talvez por isso eu acredite tanto que a música é a linguagem mais universal de todas. Quando escrevo, não fico pensando se as pessoas vão entender. Se eu sinto aquilo e escrevo, acredito que a música vai falar por si. Nas turnês, vejo norte-americanos e canadenses cantando minhas músicas em português sem saber exatamente o que estão cantando. A música acaba chegando de qualquer forma.”

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Paixão pela MPB

A ligação da portuguesa com a música brasileira começou muito antes de suas primeiras apresentações no país. Durante a adolescência, embora já estudasse música e compusesse desde os 11 anos, imaginava seguir outra profissão. Gostava especialmente de animais e considerava cursar Veterinária ou Biologia Marinha.

Eu estudei música a vida toda. Ela sempre esteve tão presente que, de certa forma, eu tomava aquilo como garantido. Só entendi que não podia viver sem música num ano em que parei antes da faculdade. Estava pensando em tentar Veterinária, Biologia, Biologia Marinha, qualquer coisa que me permitisse trabalhar com animais. Também gostava muito de esportes. Eram duas paixões muito grandes, e eu nunca tinha pensado realmente na música como profissão.”

Tudo começou a mudar durante esse intervalo antes da faculdade, onde pesquisava música no Youtube. Uma dessas descobertas foi uma música do grupo brasileiro 5 a Seco. Anos depois, Pedro Altério, integrante do grupo, se tornaria um de seus parceiros musicais e um dos amigos mais próximos.

Eu tinha que estudar para um teste, mas descobria alguma música no YouTube às onze da noite e ficava até as cinco da manhã vendo o vídeo em loop. Lembro perfeitamente de estar na casa da minha avó, em 2013 ou 2014, e não conseguir parar de assistir ‘Feliz pra Cachorro’, do 5 a Seco. É engraçado pensar que hoje o Pedro, que fazia parte daquela banda, toca comigo e é como um irmão.”

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Pouco depois, a estudante e futura artista assistia a um vídeo em preto e branco, gravado em estúdio, de Milton Nascimento interpretando “Cais” ao lado da portuguesa Carminho. A combinação das vozes, dos violões, da melodia e da harmonia provocou uma reação que ela ainda descreve como espiritual.

Teve um dia em que vi um vídeo do Milton cantando ‘Cais’ com a Carminho. Aquela versão me bateu de um jeito tão forte, quase espiritual. Achei uma das coisas mais bonitas que já tinha ouvido na vida. Os arranjos dos violões, aquela melodia, a harmonia. Foi uma epifania. Lembro de pensar: ‘O que estou fazendo tentando estudar outra coisa?’. Nada ia me tirar o sono daquela maneira, nada ia me fazer sentir tudo aquilo. Eu já escrevia canções desde os 11 anos, havia quase nove anos, mas nunca tinha pensado que aquilo poderia ser uma realidade profissional. De repente, ficou óbvio que era isso que eu amava, que eu era completamente obcecada por música. Foi uma epifaniazinha graças ao grande Milton.”

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A partir daquele momento, seguir a música profissionalmente deixou de parecer uma possibilidade distante. O encontro com a obra de Milton Nascimento acabaria se transformando também em uma parceria artística: os dois já dividiram os vocais em “juro que vi flores”, faixa do álbum can you see me?, de 2022.

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Como serão os shows pelo Brasil?

A turnê marca a estreia de MARO com uma banda fixa completa, formada por Carbeau (baixo), Manuel Rocha (guitarra) – que possui um álbum com a artista, MARO & Manel (2018), Pedro Altério (guitarras e violões) e Gabriel Altério (bateria). O espetáculo, de quase duas horas, percorre diferentes fases da carreira.

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Estamos tocando o novo disco na íntegra, todas as músicas, mas é um show de quase duas horas. Também tocamos canções de ‘LIFELINE’ (2025), que lancei com o NASAYA, e algumas de ‘hortelã’. Conseguimos construir uma linha de show muito gostosa, que vai passando por momentos mais felizes, outros mais tristes, musicalmente falando. É uma viagem pelo meu repertório todo, não apenas pelo último disco. E também tem músicas em português.”

A portuguesa se apresenta pela primeira vez no Circo Voador, no Rio de Janeiro, e no Teatro SESI Minas, em Belo Horizonte, além de retornar à Casa Natura Musical, em São Paulo. A turnê também pode ter participações especiais, embora a cantora tenha ressaltado que ainda não havia nenhuma confirmação no momento da entrevista:

“Acho que vai ser uma noite muito gostosa, com uma energia muito especial que estamos vivendo no palco e construindo com o público.”

Serviço — Turnê MARO Brasil 2026

Rio de Janeiro (RJ) – Circo Voador

Data: 03 de novembro

Ingressos: EVENTIM (R$120-240)

Belo Horizonte (MG) – SESI Minas

Data: 04 de novembro

Ingressos: SYMPLA (R$100-200)

São Paulo (SP) – Casa Natura Musical

Data: 07 de novembro

Ingressos: SYMPLA (R$90 – 280)

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Liz Sacramento

“A vida é tão curta”: MARO fala sobre recomeços, novo álbum e shows no Brasil


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