“Chaos A.D.”, do Sepultura, ganha mergulho literário e tem história dissecada em livro

Difícil encontrar um DNA único na concepção de grandes acontecimentos e,
quando o assunto é a inauguração de toda uma escola estética, a missão é quase inglória.
Mesmo diante desse dilema, há um consenso entre pesquisadores musicais: Chaos A.D., do Sepultura, trouxe novidades que mudaram para sempre o jeito de se fazer metal.
O disco, agora com 33 anos, é considerado um marco, o início do new metal, um “proto-nu metal” — ou qualquer coisa que o valha — ao apresentar uma mistura de grooves pesados, riffs densos, ritmos variados e ousadia que abriu caminhos que muitas bandas exploraram depois. Agora essa história acaba de ganhar uma versão literária à altura da grandiosidade da música com O Livro do Disco: Sepultura Chaos A.D., do jornalista e pesquisador musical Vinícius Castro (Editora Cobogó).
Todos os caminhos levam a Chaos A.D.
Ao batizar o álbum de Chaos A.D., o Sepultura brinca com a sigla latina A.D. (Anno Domini), equivalente ao nosso D.C. — “Depois de Cristo” — transformando-a em “Chaos Anno Domini”. Ou seja, uma declaração de caos absoluto em escala histórica, que reforça o peso, a densidade e o caráter arrasador do disco para o heavy metal.
O livro mergulha nos bastidores da criação, nos ensaios, nas decisões estéticas da capa e das fotos, nos shows e nas histórias que cercaram a banda naquele período, se tornando um registro vivo da era Chaos A.D..
Além disso, investiga os caminhos que levaram o Sepultura até a obra, incluindo a história que moldou a identidade de Max e Iggor Cavalera, Paulo Xisto e Andreas Kisser através de viagens, mudanças de casa entre Minas Gerais e o ABC Paulista, estilo de vida, jeito de ser e claro, os cinco discos anteriores na bagagem.
Mesmo para fãs mais dedicados que acreditam já saber tudo sobre o álbum, ainda há muito a descobrir e o ponto alto são as entrevistas exclusivas com personagens-chave dessa história. Entre os escutados estão Max Cavalera, Andreas Kisser, Jairo Guedz (primeiro guitarrista do Sepultura), os jornalistas Gastão Moreira e Fábio Massari, Toninho “Iron” (fundador do fã clube brasileiro do Sepultura), Michael Whelan (ilustrador) e outros.
Castro destrincha o disco faixa a faixa, claro, mas não se limita a isso. Ele constrói uma narrativa envolvente que combina pesquisa minuciosa, relatos pessoais e memórias de fã, humanizando o livro e aproximando o leitor da experiência da banda.
Ao explorar mais profundamente o tema, o autor mergulha também nos bastidores visuais do álbum. Ele conta como nasceu a icônica capa criada pelo artista Michael Whelan, intitulada “Cacophony”, e detalha o processo das fotografias assinadas por Gary Monroe, fotógrafo documental americano conhecido por registrar o cotidiano no Haiti.
Monroe, a princípio relutante em trabalhar com uma banda de rock e sem apetite para imagens promocionais posadas, acabou seduzido pelo desafio que significava traduzir visualmente a energia de uma banda de metal. Seu olhar cru, direto, espontâneo e sem concessões foi justamente o que convenceu a banda a insistir em seu nome. Como ele só fotografava em preto e branco, as fotos foram colorizadas depois.
Curiosidades não faltam: Castro destaca que Stonehenge (monumento pré-histórico de significado ainda incógnito localizado na Inglaterra) aparece de forma discreta como um “easter egg” nas três primeiras capas criadas por Whelan para o Sepultura — Beneath the Remains, Arise e Chaos A.D. — conectando visualmente os discos e reforçando o caráter épico e quase místico dessa fase da banda. E o convite inicial para o fotógrafo Monroe fazer fotos era justamente uma ida ao Stonehenge, que não se concretizou.
Maiores que Caetano e Gil
O videoclipe de “Territory”, a segunda faixa do disco, dirigido por Paul Rachman e gravado em 1993 em Israel e nos territórios palestinos, combina imagens da banda no deserto com cenas de soldados e confrontos – cenas que parecem ter sido captadas ontem.
No MTV Video Music Awards de 1994, o clipe faturou o International Viewer’s Choice Award (Brasil), à frente de lançamentos como “Haiti”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Não era pouca coisa: era o Sepultura mostrando que, nos anos 90, o Brasil também fazia o mundo bater cabeça.
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A voz do povo é a voz… dos deuses do metal
O livro também narra episódios de turnê e bastidores que dão dimensão quase cinematográfica à época de Chaos A.D., como a mobilização dos fãs para garantir a participação do Sepultura no Hollywood Rock de 1994, que reuniu nomes como Aerosmith, Poison, Ugly Kid Joe, Live e Robert Plant.
A banda quase ficou de fora, carregando um carma que não lhes pertencia: em 1991, uma pessoa morreu durante um show do Sepultura na Praça Charles Miller, em São Paulo — você já deve ter ouvido falar dessa história emblemática.
A mobilização dos fãs foi digna de filme, já que eles peregrinaram por filas de shows para coletar assinaturas e entregaram pessoalmente o abaixo-assinado à Souza Cruz, empresa dona do evento. Tudo num tempo sem internet, na pura raça.
O Hollywood Rock virou palco estratégico para o Sepultura em 1994. A participação, conquistada com apoio dos fãs, marcou a era Chaos A.D. e consolidou a banda como referência do metal.
É tetra!
Definitivamente, o Sepultura estava nas nuvens em 1994, voando alto com Chaos A.D.. Durante o show de encerramento da turnê do disco nos EUA, eles foram premiados com um momento histórico: assistiram ao tetra da seleção brasileira ao vivo, no estádio. Um marco para a banda e para uma geração de fãs que vivia a seca de vitórias do Brasil no futebol — e, mais tarde, o momento se transformou em um fim apoteótico no palco, com os integrantes celebrando de camisetas verde e amarelo.
Autor de música, músico é
Além de jornalista, Vinícius Castro, o autor de O Livro do Disco: Sepultura Chaos A.D., tem as bandas Throe e Huey, esta última um quinteto instrumental onde é guitarrista. Completando 15 anos de trajetória, o Huey lançou recentemente o disco Quinze, destaque da cena independente em 2025 e premiado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como um dos melhores álbuns do ano. O álbum traz quatro faixas que condensam peso, groove e emoção, transitando por sludge, stoner, post-metal e metal alternativo.
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Castro é ainda co-criador do site de conteúdos musicais Sounds Like Us, ao lado de Amanda Mont’alvão. No fim de 2025, a dupla lançou o livro Sounds Like Us: Entrevistas da Música Alternativa, celebrando os 10 anos do site e trazendo uma seleção de entrevistas com nomes importantes da música alternativa mundial, destacando o cenário independente e DIY.
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Isis Correia
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