“Hamnet”: quando a tragédia clássica encontra a poesia do cinema

Há filmes que não apenas contam uma história, mas parecem sussurrá-la ao espectador. Hamnet, dirigido por Chloé Zhao, nasce exatamente desse lugar raro onde o cinema se transforma em memória, silêncio e emoção.
Inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, o longa que estreia no Brasil nesta quinta-feira (15) resgata uma das ausências mais marcantes da história da literatura: o filho perdido de William Shakespeare. A partir dela, a obra protagonizada por Jesse Buckley e Paul Mescal constrói uma obra de beleza profunda e devastadora.
Vencedora do Oscar e conhecida por sua sensibilidade contemplativa, Chloé reafirma no novo filme sua assinatura autoral. A diretora chinesa transforma o luto em paisagem, o tempo em respiração e a dor em algo quase palpável. Cada plano parece carregado de intenção, como se a câmera soubesse que certas emoções só se revelam quando se permite o silêncio.
No centro da experiência está a competente Jessie, em uma atuação que já se anuncia como uma das mais marcantes de sua carreira. Sua Agnes, figura inspirada na esposa de Shakespeare, é o coração pulsante do filme. Buckley interpreta o luto não como explosão, mas como permanência.
Em cena, a atriz explora o vazio que se instala, transforma e redefine tudo ao redor. Seu trabalho é de uma entrega rara, sustentado por olhares, gestos contidos e uma dor que nunca se torna excessiva. É uma atuação que permanece com o espectador muito depois dos créditos finais.
A narrativa dialoga de maneira elegante e simbólica com a obra de Shakespeare. Hamnet, o menino, carrega o nome quase idêntico ao de Hamlet, e o filme sugere, sem jamais afirmar de forma literal, que da perda nasceu a arte.
Hamnet é candidato a diversas categorias no Oscar deste ano
O longa propõe que a tragédia escrita anos depois pode ter sido moldada pelo trauma vivido antes. Assim, o cinema encontra a literatura não como adaptação direta, mas como eco emocional, como herança invisível.
Visualmente, Hamnet é de uma delicadeza arrebatadora. A fotografia valoriza a natureza, os ciclos, a vida que insiste em continuar mesmo diante da morte. Zhao transforma o ambiente rural em metáfora do estado emocional de seus personagens, criando uma atmosfera quase etérea, onde realidade e memória se confundem.
Não surpreende que o filme já seja apontado como um dos fortes candidatos ao Oscar 2026. A combinação entre direção autoral, roteiro literário sofisticado e uma atuação feminina de enorme impacto coloca Hamnet em posição privilegiada nas principais categorias, especialmente Melhor Atriz, Direção e Filme.
Mais do que uma produção pensada para prêmios, se trata de uma obra que dialoga com a Academia de Ciências Cinematográficas por sua humanidade, sua elegância estética e sua profundidade emocional. Hamnet é mais que um filme sobre perda, é um retrato sobre como a dor pode se transformar em criação, sobre como o amor persiste mesmo quando a ausência se instala.
Com sensibilidade e respeito, Chloé Zhao, que já havia chamado a atenção com Nomadland (2020), conduz o espectador por uma experiência íntima, onde cada silêncio diz mais do que palavras, e onde o cinema se aproxima, mais uma vez, da poesia.
Confira o trailer de Hamnet logo abaixo!
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Gabriel von Borell
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