Ouvir, calar e (não) salvar: o peso das palavras em “O Drama”

AVISO: Este texto contém spoilers do filme “O Drama”. Caso você tenha interesse em assistir a obra e não queira detalhes acerca, leia em outro momento.
O Drama (The Drama) pode ser resumido a sua genialidade: o “casal perfeito” Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) está em uma degustação de buffet, cercado por flores, promessas e um casal de amigos, quando decidem jogar “Qual a pior coisa que você já fez?”. O que começa como um flerte descontraído termina em um vácuo ensurdecedor.
Por quê? Porque a resposta de Emma – a confissão de um plano terrorista escolar na adolescência – é uma granada lançada no colo da moralidade burguesa. Enquanto o mundo em que vivemos se ocupa com cancelamentos de 140 caracteres, Kristoffer Borgli nos tranca em uma sala para assistir o oxigênio acabar, em planos cada vez mais sufocantes e desconfortáveis. É uma metáfora visualmente hipnótica sobre o estado atual das relações: um grito de verdade que ninguém sabe como processar, e que até mesmo passa despercebido pela velocidade dos tempos em que vivemos.
A produção de O Drama foi cercada de expectativas, mas o resultado final vai muito além de “um filme contemplado em festivais” – é um tratado sensorial sobre a pós-modernidade. Borgli, o norueguês que já havia nos provocado em O Homem dos Teus Sonhos, agora entrega a chave do paraíso para dois monstros da atuação que transformam o desconforto em uma forma de arte refinada.
O TMDQA! assistiu ao longa que chegou aos cinemas do país com sessões antecipadas a partir dessa quinta-feira (2), e te conta tudo a seguir.
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Idealização Incondicional
O retorno de Zendaya e Robert Pattinson às telas como um casal é tratado com uma química que desafia a estética plastificada das redes sociais. Há closes íntimos e enquadramentos rígidos de Arseni Khachaturan que transformam o cotidiano da dupla em um palco de ópera silenciosa.
Zendaya entrega uma Emma que é uma força da natureza introspectiva. Ela nos pede para acreditar que aquela doce mulher, editora literária e surda de um ouvido, é a mesma que um dia flertou com o abismo da violência. Sinceramente, a dinâmica é tão surpreendente e provocativa que foge de qualquer clichê de “mocinha arrependida”, afinal, Emma não pede perdão; ela pede para ser ouvida. O trabalho de Zendaya é implacável ao desafiar sua própria imagem de it girl, revelando uma vulnerabilidade crua que nos faz questionar: se fosse com você, o amor sobreviveria?
E onde está Pattinson? Ele dá lugar a um Charlie meticulosamente inseguro, um britânico cujos maneirismos de “bom moço” começam a rachar sob o peso da dúvida. A troca de olhares entre os dois durante a festa de casamento é como assistir a um duelo de esgrima onde o prêmio é a sanidade. O destaque de Mamoudou Athie e Alana Haim (como a amiga implacável que não consegue perdoar) eleva o elenco secundário a um patamar de realismo que chega a machucar o público presente na sala de cinema.
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Fofoca: a nova régua moral da humanidade
Mas o verdadeiro triunfo de O Drama (e o que o torna um dos melhores do ano) é como ele usa a cultura da fofoca e do estímulo digital para construir seu suspense. Borgli não faz um filme sobre o “erro” de Emma, mas sobre a reação de Charlie e da sociedade a essa confissão.
Vemos como a intimidade do casal é invadida por um tribunal invisível. O filme invoca os fantasmas do passado de Emma através de uma montagem frenética e planos-detalhe inquietos que transformam o espectador em um cúmplice de toda narrativa – é uma artimanha que subverte a lógica das comédias românticas tradicionais: o obstáculo não é uma ex-namorada ou um mal-entendido, mas o caráter e a capacidade humana de lidar com o inaceitável.
O terceiro ato é tão audacioso que me senti eletrizado. A sequência final, onde o casal finalmente se encontra em um momento de ternura sobre os escombros da própria reputação, é o golpe de mestre do roteiro – você pode não compreender as razões, mas percebe que a mensagem é muito além do julgamento entre “certo” e “errado”.
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Renascimento da anti-história de amor
O Drama é sobre subverter a própria vida. O filme troca o final feliz por uma conclusão honesta: o amor não é um conto de fadas, é o que sobra quando o idealismo cai e decidimos, apesar de tudo, permanecer.
Se fosse para definir O Drama de forma direta, ele é um documento visceral sobre como sobreviver ao “ruído” do século XXI. É uma prova de que o cinema de Kristoffer Borgli sabe exatamente quando apertar a ferida para nos lembrar que somos humanos.
Como a própria narrativa nos ensina, o mais perigoso não é o segredo, mas o que fazemos depois de ouvi-lo. Felizmente, Borgli ouviu o chamado da originalidade e nos entregou uma obra-prima desconfortável, necessária e, acima de tudo, profundamente apaixonante.
★★★★
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Eduardo Ferreira
Ouvir, calar e (não) salvar: o peso das palavras em “O Drama”




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