TMDQA! Entrevista: a irreverência de Getúlio Abelha

Getúlio Abelha, em registros realizados por Luan Martins
Fotos por Luan Martins

Em 2021, enquanto o Brasil tentava reencontrar o seu próprio ritmo entre telas e incertezas, Getúlio Abelha emergia como um choque térmico necessário. Com o lançamento de Marmota (2021), o artista piauiense não apenas bagunçou as prateleiras do forró e do pop nacional; ele fincou uma bandeira de insurreição estética onde o brega, o punk e o eletrônico dançavam um “dois pra lá, dois pra cá” frenético e libertador. Entre o escracho do “Laricado” e o brilho dos palcos, Getúlio se consolidou como uma das figuras mais magnéticas e imprevisíveis da nossa música, provando que a vanguarda também se faz com suor e sanfona.

Quatro anos depois e uma mudança para a selva de concreto de São Paulo, o glitter deu lugar a uma textura mais densa, crua e metálica. O que era festa virou exame minucioso. Com o projeto Autópsia (2025), que agora ganha sua versão definitiva em Autópsia+ (lançado no dia 12/03), o artista decide abrir o próprio peito para investigar o que morre e o que insiste em pulsar após o fim; se antes o grito era de celebração, agora ele ecoa entre os prédios da metrópole, carregando uma melancolia industrial que transforma o piseiro em trilha para crises existenciais, sem nunca perder a capacidade de nos fazer tirar o pé do chão.

Nesta entrevista exclusiva para o TMDQA! realizada ontem (26/03), mergulhamos nos bastidores desse necrotério pop. Conversamos com Getúlio sobre a “oxidação” de sua sonoridade após a chegada na capital paulista, a mística por trás da colaboração com Alice Caymmi em “Espantalho” e a ressurreição da “Caranguejeira Satanista“. Também discutimos a linha tênue entre o corpo que performa e o corpo que sente, e como ele lida com o diagnóstico de uma obra que parece nascer pronta para a imortalidade.

Prepare os sentidos e deixe o formol de lado: o corpo de Autópsia está mais vivo do que nunca. Vamos decifrar esse delírio?

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TMDQA! Entrevista – Getúlio Abelha

TMDQA!: Getúlio, que maravilha te receber! Muito obrigado mesmo, temos muita admiração pelo seu trabalho – e antes de mais nada, parabéns pelo Autópsia+. Quero começar te perguntando: em Marmota, a gente tinha o escracho colorido; em Autópsia, você disse que acabou trocando esse glitter pela ferrugem. Se pudéssemos passar um detector de metais na sua música hoje em dia, o que encontraríamos de mais oxidado e pesado nessa sua nova fase em São Paulo?

Getúlio Abelha: Eu acho que no começo do álbum as coisas estavam pesadas e oxidadas, mas nessa segunda parte (Autópsia+) eu já entreguei as coisas tentando me livrar disso; foi algo que foi ficando para trás. Mas acho que o detector não ia detectar nada, porque o álbum não é de metal também! [risos].
Mas amei a pergunta, meu cérebro ainda está processando. É que eu estava comemorando ontem, teve o prêmio MVF, a gente ganhou e ficamos celebrando até tarde, então eu ainda estou…

TMDQA!: Ótima resposta! Bom, o EP nasceu dessa tensão entre deixar para trás e carregar para sempre, né? Como que esse concreto de São Paulo acabou alterando a química do seu forró? Você acha que ele ficou mais industrial ou um pouco mais claustrofóbico?

Getúlio Abelha: Eu acho que ficou as duas coisas. O Autópsia só é o que é, definitivamente, pelo que São Paulo é e foi – esse álbum saiu dessa forma por eu ter vindo para cá. Como eu escrevo as músicas e me envolvo profundamente em tudo, não teria como fazer um álbum que não falasse do que eu estava vivendo. Você mora em São Paulo?

TMDQA!: Não, eu sou de Belo Horizonte.

Getúlio Abelha: Olha aí, está menos… está bom até! Belo Horizonte tem um aconchego. Mas a gente que mora em São Paulo se depara com essas durezas e não tinha como a cidade não ser a influência principal para o álbum sair desse jeito.

TMDQA!: Compreendo perfeitamente. Querido, “autópsia” é basicamente o exame de um corpo que não pode mais reagir, entretanto, você deturpa isso no palco: mostra que esse corpo morto é sempre hiperativo, eletrizado e performático. Você sente que precisa “morrer” um pouco no camarim para que o artista Getúlio Abelha possa assombrar o público com tanta vida?

Getúlio Abelha: Não, eu acho que a mesma energia que existe no palco existe fora; tudo se mistura, não há uma separação. Óbvio que no palco a coisa cresce, mas cresce porque é a paixão da minha vida – não existe outra saída.
Mas não se separa; não tem uma preparação onde eu tenha que matar um para o outro estar vivo. Tudo é o mesmo corpo que passa por momentos mais frágeis e outros mais fortes.

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TMDQA!: Maravilha! Algo que é notório é que muitas das suas novas letras falam sobre um reconhecimento tardio. Se a sua obra fosse um testamento deixado para a música brasileira, qual cláusula você escreveria em letras garrafais para que ninguém deixasse de cumprir?

Getúlio Abelha: Eu acho que ela já é uma coisa que vai ficar, porque eu vou morrer e a obra vai ficar – não é nem um “se”, já é fato. [risos] Mas eu acho que isso vai se resolver sozinho, sabe? No fim das contas, qualquer cláusula que eu deixar não vai importar tanto, porque as coisas vão ter acabado para mim.
O mundo – ou quem ficar nele – vai decidir o caminho, onde a obra vai parar e o que ela vai ser… O que eu posso fazer é agora. Ao mesmo tempo, ela pode simplesmente se apagar e não vai ter cláusula nenhuma que resolva isso.

TMDQA!: Getúlio, você transita entre o Piauí, o Ceará e agora São Paulo. Se cada uma dessas terras fosse um órgão vital no corpo de Autópsia, quem seria o coração pulsante, o estômago que digere as influências e o fígado que filtra as toxinas paulistas?

Getúlio Abelha: Eu acho que São Paulo é um pulmão de quem fumou muito cigarro! [risos] Mas também pode ser uma prisão de ventre, tipo um monte de cocô tentando sair. O Piauí seria um útero, porque me vejo como alguém que nasceu lá e saiu. E o Ceará seria tudo o que sobrou e que não foi prisão de ventre, útero ou pulmão com fumaça.
Nossa, não sei se estou respondendo o que tu está me perguntando! [risos]

TMDQA!: Cara, muito pelo contrário, estou adorando as respostas! Mas pegando o gancho das faixas agora: “Espantalho” foi composta com a Alice Caymmi. Se Autópsia+ é sobre o que morre enquanto ainda estamos vivos, qual parte de você a Alice ajudou a “costurar” nessa faixa específica?

Getúlio Abelha: Essa música é a mais simples do álbum no sentido de estrutura. Ela é grandiosa na letra, mas é um forró bem feito, experimentando menos; é a confiança de instrumentos bem tocados, foi muito tranquilo.
Eu disse: “Alice, me manda uma música aí, por favor” e ela mandou, só que não era “Espantalho”, era “Leopardo”. Aí eu peguei a música, comecei a mudar os símbolos e falei: “Alice, por favor, não me odeie, mas o leopardo virou um espantalho e foram vindo outros bichos estranhos” e ela ficou meio “Ai, Getúlio, tá…“.
Acabei sumindo por meses, voltei e disse: “Vou gravar amanhã e vai ser lançada, libera pra mim!”. Alice deixou eu adaptar a faixa para o meu universo, e fiz isso também com a ajuda da Helô Duran, minha iluminadora.

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TMDQA!: Incrível! E você resgatou “Caranguejeira Satanista” (do vinil de Marmota) para o digital do Autópsia+. Por que esse crustáceo precisava ser dissecado novamente agora? Ele combina com o cheiro de formol dessa nova era?

Getúlio Abelha: É porque as pessoas simplesmente queriam e foi uma maneira de tornar a música acessível nas plataformas! Mas, depois que lancei, percebi que ela nasceu no álbum errado: ela faz total sentido no Autópsia.
Ela é uma coitada, não tem lugar nenhum; era bônus de um, virou bônus de outro… não tem oportunidade a não ser como um “extra”. [risos] Mas no fundo, ela poderia ter sido feita para o Autópsia.

TMDQA!: Você usa muitas imagens de “cova”, “cortes” e “ossos”. Se abríssemos o “peito” do álbum, qual seria o objeto físico mais inusitado lá dentro? Um terço de vovó, uma fita cassete estragada, um dente de leite?

Getúlio Abelha: Não, eu não vou para esse lugar… deixa eu pensar…
Tinha que ser a maca velha que usei para gravar o clipe e que levo para o show! Me dá uma dor de cabeça para transportar, mas ela é importante.

TMDQA!: Getúlio, se você pudesse realizar uma autópsia em qualquer ícone da música brasileira que já se foi – de Cássia Eller a Luiz Gonzaga – para entender o que os fazia imortais, de quem você abriria o peito?

Getúlio Abelha: Eu vou deixar a galera quieta, amores! [risos] Mas deixa eu pensar… a pessoa que pensei agora está viva, mas está meio morta ao mesmo tempo.
Eu gostaria muito de entender o que tem por dentro da Britney Spears!

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TMDQA!: Adorei! O álbum parte da ideia de que o reconhecimento só chega tarde demais. Você sente que o “Forró LGBTQIA+” ainda precisa morrer um pouco todos os dias para renascer com essa força vanguardista?

Getúlio Abelha: Não, coitado, não tem que morrer não! As coisas já estão tão difíceis, a gente já está se segurando… se morrer, ferrou. Acho que é o contrário: continuamos tentando encontrar vida e vitalidade onde é possível.

TMDQA!: No final de “Zezo”, temos aquele clima de fim de festa, de “fotografia intoxicada pelo cloro do apego”. Depois de analisar a “autópsia” completa da sua história, o que você encontrou lá dentro que te deu mais susto e o que te deu mais paz?

Getúlio Abelha: Tuas perguntas estão me deixando em pânico porque são muito profundas, mas estou amando! [risos] O Autópsia foi feito para eu responder isso, mas ainda estou descobrindo; eu não faço o álbum para entregar algo específico, vou fazendo o que dá na telha. Só depois que é lançado, conversando com o público ou em entrevistas como esta, é que começo a entender o que ele deixou. É tudo muito recente.

TMDQA!: Quase lá: se o seu show na Casa Natura fosse um laudo médico, qual seria o diagnóstico para o público que saiu de lá no dia 12 de março?

Getúlio Abelha: Eu não sou médico! Eu seria preso por exercício ilegal da medicina dando laudo sem ser formado! [risos] Mas o meu sentimento foi de surpresa, foi uma revelação. Eu olhei para as pessoas e percebi que já não tinha mais domínio de quem estava ali; já não conhecia os rostos. Chega uma época que o público deixa de ser apenas seus amigos ou sua cidade e começam a ser pessoas novas.
Ver pessoas que eu não sabia quem eram, ali, abertas para o show, foi uma revelação.

TMDQA!: Getúlio, meu nome é Eduardo Ferreira, represento o Tenho Mais Discos Que Amigos! e a gente sempre faz essa pergunta no final: você também considera que “tem mais discos que amigos”?

Getúlio Abelha: Não! Só tenho dois discos e vários amigos. [risos] Eu conseguiria viver sem discos… bom, sem os meus não! Sem os que eu lancei eu não conseguiria, mas sem os outros, acho que sim.

TMDQA!: De toda forma, a música se faz presente em nossas vidas e eu gostaria que você citasse cinco álbuns que mudaram sua vida!

Getúlio Abelha: Óbvio!

  1. Violator, do Depeche Mode: Foi meu contato com uma música sombria e um vocal que descobri que parecia com o jeito que eu podia cantar.
  2. Ray of Light, da Madonna: Abriu portas, descobri sons novos. Eu estava com febre quando ouvi esse álbum pela primeira vez, então doía, mas era incrível.
  3. Calcinha Preta, Ao Vivo em Belém do Pará: O forró ali na minha cara. O que eu faço hoje tem tudo a ver com isso.
  4. It’s Not Me, It’s You, da Lily Allen: Eu tinha um namoradinho na época, a gente ouvia juntos, foi tudo.
  5. Marmota, amore! Porque, literalmente, mudou a minha vida.

TMDQA!: Getúlio, muito obrigado pela entrevista. Foi um papo maravilhoso, não mudaria nada. Parabéns pelo trabalho e comemore tudo!

Getúlio Abelha: Eu quem agradeço! Um beijo, gente! Tchauzinho!

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Eduardo Ferreira

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