TMDQA! Entrevista: Gabriel Leone revisita canções menos conhecidas da MPB em seu disco de estreia, “Minhas Lágrimas”

TMDQA! Entrevista: Gabriel Leone comenta sobre
Créditos: Foto de Zabenzi / Design de Lucas Pires

Para muitos, Gabriel Leone é um rosto conhecido das novelas, séries e filmes brasileiros, onde costuma interpretar personagens intensos e, muitas vezes, dramáticos. Porém, neste ano, ele decidiu compartilhar com o público sua faceta musical, lançando o disco de estreia Minhas Lágrimas.

A música já cruzou o caminho do artista carioca em diferentes momentos da sua trajetória como ator. Em Minha Fama de Mau (2019), cinebiografia do saudoso Erasmo Carlos, ele chegou a interpretar ninguém menos que Roberto Carlos e, ao longo dos anos, Leone também deu vida a personagens que mantinham alguma relação com a música. Em entrevista ao TMDQA!, ele reforçou como essa arte sempre esteve presente em sua vida.

Em sua estreia oficial no mundo da música, Gabriel Leone enxerga a definição de autoral de uma forma diferente. O ator explicou que, apesar de sempre ter desejado fazer um projeto autoral, ele nunca conseguiu compor suas canções “seja por questão de tempo ou talvez por uma questão realmente de não ter talento para isso”. Sendo assim, seu toque “autoral” pode ser encontrado através dos arranjos de suas releituras, com algumas faixas com “um pezinho no rock”, como disse o cantor.

Gabriel Leone reinterpreta a MPB “com um pezinho no Rock”

Em Minhas Lágrimas, Gabriel decidiu revisitar obras de grandes lendas da música brasileira mas, ao invés de apostar em clássicos da MPB, explorou composições menos óbvias desses músicos. Entre as faixas, que ele define como “pérolas da MPB”, estão “Minhas Lágrimas” de Caetano Veloso, “Segredo” de Djavan e “Antes da Chuva Chegar” de Guilherme Arantes.

O disco ainda conta com a participação ilustre de Ney Matogrosso na regravação de “Eta Nois” e de Juliana Linhares, destaque da nova cena da música brasileira, em “As Portas do Meu Sorriso”, canção de Paulinho Tapajós e Raimundo Fagner. Sobre a escolha dessas músicas, Leone apontou:

“Essas músicas têm uma densidade em comum, têm um assunto em comum, uma temática em comum. Têm uma coisa das letras poéticas, das imagens que estão ali, que eu acho que também, além de ser o tipo de música que eu gosto de ouvir, comunica muito com o fato de eu ser ator e de ser um ator que, ao longo da carreira, acabei me desenvolvendo mais como um ator dramático. Então, eu acho que isso tudo casou muito bem, favoreceu muito pra gente chegar no resultado final do disco.”

O lançamento de Minhas Lágrimas acontece em meio a uma fase movimentada da carreira de Gabriel Leone. Enquanto apresenta ao público seu disco de estreia, o ator também acompanha a repercussão internacional de O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho do qual ele faz parte ao lado de Wagner Moura. A produção brasileira foi destaque na temporada de premiações e está concorrendo em quatro categorias do Oscar.

A seguir, confira a entrevista com Gabriel na íntegra, na qual ele revela detalhes sobre o processo de criação do disco, sua relação com a música e como as produções nas quais ele atuou influenciaram a escolha das músicas do seu projeto musical. E ouça o disco completo ao final da matéria!

TMDQA! Entrevista Gabriel Leone

TMDQA!: Gabriel, eu li um pouco sobre o contexto do início da sua relação com a música, você comentando sobre o violão da sua mãe, sobre a coleção de discos do seu pai também. E pensando sobre o momento que você ouviu esses primeiros discos, eu queria saber se você lembra se tiveram discos que mexeram mais com você e como aquele momento te despertou uma paixão pela música?

Gabriel Leone: Então, o que eu tinha amplo acesso, quando era moleque, na minha infância e tal, nos anos 90, eram os CDs. Era uma grande coleção de CDs que meus pais tinham. E aí eu tinha uma rotina de escolher três CDs por dia e aí eu ia escutando um na ida pra escola, eu escutava um no recreio e escutava um na volta pra casa. E escolhia os mais ecléticos que você possa imaginar, porque eu estava realmente num momento de conhecer, de descoberta daquele universo maravilhoso. Meus pais sempre foram muito ecléticos, muito abertos pra música. Eventualmente, sei lá, eu ia escutando um disco da Elis, ouvia no recreio Elvis e voltava escutando Eagle, sabe? Coisas muito distantes entre si. Mas isso foi, acho que, de alguma forma, me formando, formando o meu gosto musical.

E aí a minha relação com o disco veio um pouco mais tarde. O meu pai tinha os discos ali, mas a gente não tinha um toca-disco. E aí, um pouco mais tarde, uma tia minha me deu um velho toca-discos dela. E aí eu levei pra casa e falei pro meu pai, “pô, agora a gente pode voltar a escutar”. E aquilo, acho que despertou um desejo tanto em mim quanto nele, de revisitar aqueles discos. E aí a gente foi atrás, comprou uma vitrolinha legal, assim, e tal, montou o som. E eu comecei a também poder escutar aqueles discos que o meu pai tinha. E aí, anos depois, aí sim eu comecei a fazer a minha coleção de discos. Hoje em dia eu tenho mais de 3 mil discos em casa, e é uma das maiores paixões que eu tenho, é a minha coleção. E não é só o colecionismo de ter pra mim, é o colecionismo de escutar. Eu escuto música o dia inteiro e quando eu estou em casa, eu amo ficar em casa, eu passo o dia inteiro ouvindo discos, Acho que é mais do que um hobby, mais do que o colecionar por colecionar, é esse lugar realmente de… A música faz muito parte da minha vida, sabe? Então, tem um lugar de pesquisa, de descobrir coisas novas. Mas tem um lugar de viver com a música.

TMDQA!: E isso, com certeza, também deve ter influenciado esse resgate que você fez nessas músicas pro seu disco. E eu vi você comentando nas entrevistas e nas publicações, chamando essas músicas de “pérolas da MPB”. O que que te atraiu de trazer essas canções menos óbvias e como foi esse processo de curadoria para essas músicas?

Gabriel Leone: Foi um processo sem tanta consciência, eu diria. Não é que a anos atrás eu falei, !bom, a partir de hoje eu vou começar a ir atrás de um repertório para um disco que eu vou fazer em algum momento”. Não foi isso. Eu acho que foi uma coisa meio intuitiva de ir juntando canções que em algum momento chegavam pra mim dos jeitos mais variados possíveis, mas músicas desses grandes mestres, mas que chegavam pra mim e que o que elas tinham em comum era esse lugar de eu falar “como essa música não foi um sucesso, como essa música não é uma coisa muito mais tocada e comentada e celebrada, etc”. E eu acho que isso foi juntando elas, foi deixando elas ali, como eu brinco que são essas pérolas perdidas.

E aí, quando eu olhei, eu tinha esse repertório que tinha quase como conceito natural do disco justamente serem músicas menos conhecidas desses compositores. Então, eu acho que foi isso, foi muito orgânico. Eu sempre tive o desejo de fazer um projeto autoral de música, mas a minha cabeça estava muito no lugar de que um dia eu ia parar pra sentar, pra compor as minhas canções, etc. E esse dia nunca chegava por questão de tempo e talvez por uma questão realmente de não ter talento pra isso.

E aí eu acho que foi uma virada de chave de olhar pra esse repertório, de encontrar um disco… coincidentemente ou não, essas músicas não só têm essa questão de não serem tão conhecidas, tem músicas que nem nas plataformas digitais tem, né? Mas essas músicas têm uma densidade em comum, tem um assunto em comum, uma temática em comum, tem uma coisa das letras poéticas, das imagens que estão ali, que eu acho que também, além de ser o tipo de música que eu gosto de ouvir, mas comunica muito com o fato de eu ser ator e de ser um ator que, enfim, ao longo da carreira acabei me desenvolvendo mais como um ator dramático. Então, eu acho que isso tudo casou muito bem, favoreceu muito pra gente chegar no resultado final do disco.

TMDQA!: Você também comentou sobre conseguir ser autoral, não necessariamente com composições suas, e acredito que isso esteja bem relacionado aos arranjos que você apresenta no disco, com guitarras marcadas e outras experimentações. Quais são as outras referências que te acompanharam durante o processo de gravação desse disco e o que você escuta que também te influenciou? Além MPB, você citou ali o Elvis [Presley] na época da adolescência, e quando era criança. Quais são essas outras referências que também somaram na construção desse disco?

Gabriel Leone: Então, o meu gosto, justamente por conta dessa formação que eu tive, ele é bem eclético. Eu cresci, basicamente, ouvindo MPB e muito rock. Meu pai é roqueiro e eu depois tive banda de rock na época da escola, eu amo rock. Mas também escutava soul music, escutava muita música pop, tanto brasileira quanto gringa. Mais tarde eu fui também pro jazz e pra outros gêneros musicais. Mas as minhas referências são isso, são bem amplas e bem ecléticas nesse sentido. E, pra ser bem honesto, quando a gente decidiu fazer o disco e reuniu a turma toda, eu não tinha um conceito definido musical sonoro de pra onde a gente ia, de falar, “não, eu quero pegar essas músicas e transformar elas em não sei o que”. O que foi interessantíssimo, porque a gente montou uma banda espetacular, a gente teve dois produtores musicais incríveis, o Marcus Preto e o Tó Brandileone. E foi um processo muito vivo no estúdio, foi um processo da gente criar juntos, da gente descobrir junto com a própria banda. Muitas dessas músicas nem a banda conhecia. E uma banda de músicos incríveis, que tocam com uma galera, músicos maravilhosos, mas realmente como são músicas não tão conhecidas, às vezes eles não conheciam também. Então era uma coisa folha em branco total. Não era uma coisa, “oh gente, essa música aqui, eu quero ir pra essa referência, eu quero ir pra aquela outra”.

O que acontecia, naturalmente, ao longo do processo, quando a gente começava a tocar, a girar a música, e a gente ia descobrindo coisas, aí as referências começavam a gritar no ouvido. Falar, “oh, a gente tá indo por um caminho que é isso aqui, vamos escutar isso aqui pra gente entender o que a gente pode aprimorar, o que a gente pode melhorar”. Então foi um processo natural nesse lugar, nada foi premeditado, sabe? A gente não chegou com as coisas prontas, definidas, pelo contrário, a gente chegou absolutamente assim, temos um repertório, vamos ver pra onde a gente vai com ele.

TMDQA!: Que massa! E eu achei que o resultado, pelo menos do que eu ouvi, que ainda não é o definitivo, ficou muito interessante.

Gabriel Leone: E curiosamente ou não, é isso, não foi decidido antes, mas o disco tem um pezinho no rock ali, né? Tem, como você falou, o trabalho das guitarras, dos timbres de guitarra, tem músicas que naturalmente foram [pra isso]. E o rock, não só o rock bate-cabeça, mas rock baladas também, músicas românticas. E aí eu acho que, claro, é isso que eu te falei, eu acho que fala muito com esse lugar, esse meu outro lugar, de paixão também pelo rock. Então foi interessante de ver essas músicas ganharem essa roupagem nova e ter esse caminho mais pro rock do que pra música popular.

TMDQA!: Com certeza, e também é interessante de chegar nessa outra roupagem para uma nova geração também, essas músicas antigas, mas com uma bagagem muito interessante. E falando sobre as participações do disco, a gente não pode deixar de destacar a colaboração com o Ney Matogrosso. O que significa para você ter a presença do Ney no seu disco de estreia, e como foi dividir essa canção com um artista tão importante da música brasileira?

Gabriel Leone: Pois é, o Ney já é um velho amigo, a gente já tem uma amizade, um carinho de muitos anos. Eu quase fiz ele. Cheguei a iniciar a preparação pra fazer uma série sobre o Secos e Molhados, onde eu ia fazer o Ney, daí a gente se aproximou e ficamos muito amigos, mas a série acabou sendo cancelada, mas o que ficou de bom foi a nossa amizade, a nossa relação. O “Eta Nois” era uma música que estava nesse repertório, por isso, né, você pensar num cantor do tamanho do Ney, com os discos maravilhosos que ele tem, “Eta Nois” é uma canção pouco conhecida, uma canção da Luhli e Lucina, grandes parceiras dele, mas que sempre mexeu muito comigo, acho a letra dela linda, acho aquela coisa meio caipira, meio sertaneja, linda. E tinha uma versão anterior do disco do Ney, onde ele canta sozinho, um LP, onde tinha uma mistura de vários cantores e tal, e tinha uma versão do “Eta Nois” com o Ney cantando também, com as duas, as duas fazendo vocais, fazendo coisas, então dali veio a vontade de trazer um dueto pra essa música. E a letra dessa música tem uma coisa de uma história que está sendo contada entre duas pessoas, então, foi um momento lindo.

O Ney ama essa música, mas ela não faz parte do repertório dele de shows, de nada, e foi um momento lindo, muito especial ter tido essa honra de gravar com o Ney e também com a Juliana Linhares, que é outra participação do disco. A Juliana é uma das artistas da nova geração que eu mais admiro, né, uma voz espetacular, e aí a Ju, por outro lado, foi um arranjo. O original das “Portas do Meu Sorriso” é um dueto, mas entre dois homens, entre os autores, que é o Paulinho Tapajós e o [Raimundo] Fagner, e aí quando a gente estava gravando o dueto foi por uma coisa ali meio folk, meio Johnny Cash e tal, me deu essa necessidade, essa coisa de ouvir essa voz na oitava de cima, esse agudo, essa voz feminina fazendo um contraponto, eu falei, “bom, isso aqui é pra Juliana”. Curiosamente o Marcus Preto produziu o disco dela também, a gente convidou, ela topou e ficou um resultado lindo.

TMDQA!: Essa parceria ficou incrível mesmo. Nosso tempo está quase acabando, mas eu também não posso deixar de falar sobre “O Agente Secreto”. Antes de relacionar a obra com a música, me conta como está sua expectativa para o Oscar, e qual é a importância desse filme representar o Brasil em uma premiação tão prestigiada como essa?

Gabriel Leone: Eu tô muito feliz. A expectativa está alta, ainda mais depois do Globo de Ouro. A gente, claro, nunca entra num projeto e faz um projeto pensando nisso, né? Absolutamente você não tem como controlar. O que a gente tem como controlar é o nosso trabalho e a gente sabia que estava fazendo um grande filme. É um grande filme. E eu acho que tudo o que está acontecendo, está acontecendo como consequência natural, como merecimento do grande filme que é.

É uma coisa linda, né? Você ver em dois anos consecutivos, dois filmes brasileiros não só indicados a melhor filme estrangeiro, mas a melhor filme também. Ou seja, filmes falados em português, rompendo essa barreira da língua estrangeira e se colocando numa categoria de ser, sim, um dos melhores filmes da temporada, um dos melhores filmes do ano. Isso é muito especial. Eu acho que isso reflete um momento de fortalecimento e do reerguer da cultura nacional como um todo, da cultura brasileira – não só do cinema, mas de tudo, né? Você vê os teatros lotados, os shows, os festivais, as coisas acontecendo. É um momento lindo. Eu fico muito feliz de fazer parte disso, especialmente de estar no “Agente Secreto”, é um filme que eu adoro e tenho muito orgulho de ter feito parte.

Marcus Preto e Gabriel Leone | Divulgação

TMDQA!: E Gabriel, você comentou um pouquinho no início da entrevista sobre a relação dessas músicas com sua carreira de ator. De alguma forma fazer parte dessas produções que tocam em temas como política, identidade brasileira, influencia também a maneira como você olha pro seu repertório e a escolha dessas músicas da MPB que você decidiu gravar?

Gabriel Leone: Esses mestres todos, né, dos quais eu escolhi as canções, todos eles têm uma história muito relevante na cultura brasileira, enfim, cada um com a sua, mas com sua relevância histórica, política, social. São formadores da nossa cultura, são pilares da nossa cultura, e essas músicas, como eu te falei. Os artistas dessas músicas e, por consequência, essas músicas sempre foram músicas que mexeram muito comigo. Eu acho que a eu acho que a cultura é, sim, uma ferramenta das mais poderosas de transformação social, entendeu, de reflexão, de provocação e também, porque não, de entretenimento, de acolhimento, de fazer parte da sua vida, de estar ao seu lado. Então esses cantores todos fizeram e fazem parte das nossas vidas, têm a sua importância no mais alto nível, no mais alto grau, pra todos nós e é uma honra, é um privilégio poder pegar essas pérolas deles e poder dar a minha cara, dar a minha versão pra essas canções e, de alguma forma, apresentá-las de novo, dentro de um projeto, dentro de um álbum, de um disco.

Eu participei no ano passado de uma homenagem pro Djavan, no Altas Horas, e aí eu cantei “Segredo”, que é a música dele que tá no disco, ele ficou muito feliz, no final foi falar comigo, “cara, essa música eu amo, essa música é linda, e ela realmente nunca chegou a ser um grande sucesso”. E eu falei no programa ali que eu realmente acredito nisso, quando você escuta essas músicas que tão lá no meu disco, e você fala, cara, como eu nunca escutei essas músicas desses artistas, eu acho que isso só dá a dimensão do tamanho deles, e eu inclusive sugiro muito esse exercício de pegar esse cara que você gosta, sei lá, pegar o Caetano, o Gil, o Bituca, o João Bosco, o Ivan Lins, o Guilherme Arantes, escutar a discografia desses caras, porque a gente às vezes fic fica ali nas músicas que você mais gosta, que tocaram, e que se tocava na tua casa, na tua família. Mas quando você mergulha na obra desses caras, é tão vasto, e é tão potente, e é tão lindo, e tantas, assim como essas dez pérolas que eu coloquei ali, tantas outras dez, cem, duzentas, mil pérolas que eles têm, e isso só dá a dimensão do tamanho desses caras, da importância deles pra gente, pra cultura do nosso país.

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Lara Teixeira

TMDQA! Entrevista: Gabriel Leone revisita canções menos conhecidas da MPB em seu disco de estreia, “Minhas Lágrimas”


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