TMDQA! Entrevista: Jay Bentley, longevidade do Bad Religion e Brasil

Se o punk rock fosse uma universidade, o Bad Religion seria o conselho de reitores. Com mais de 45 anos de estrada, a banda de Los Angeles não apenas sobreviveu a décadas de mudanças na indústria, como se tornou a bússola moral de quem ainda acredita que a música pode (e deve) ser um exercício de intelecto. Enquanto muitos de seus contemporâneos se acomodaram no sofá confortável da nostalgia, o grupo liderado por Greg Graffin e Jay Bentley parece viver em um perpétuo estado de urgência.
Aterrissando em São Paulo no dia 28 de abril para um show único no Espaço Unimed, o Bad Religion traz na bagagem o peso político do álbum Age of Unreason. Mas não espere apenas celebração: para Bentley, tocar clássicos como “American Jesus” e “Infected” em 2026 é um misto de prazer técnico e um alerta incômodo de que o mundo continua ignorando as mesmas lições de meio século atrás. É o punk rock como um “sino sendo batido com um martelo” até que alguém, finalmente, acorde.
O TMDQA! conversou com o lendário baixista sobre a imprevisibilidade da natureza humana, o “caos interno” que move as sociedades e como manter a integridade artística em um mundo de “vigaristas” e algoritmos. Vem conferir esse papo denso, sincero e sem filtros, que ocorreu no dia 12/03!
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TMDQA! Entrevista – Bad Religion (Jay Bentley)
TMDQA!: Jay, muito obrigado por nos receber, é um prazer! Vamos começar falando sobre o Age of Unreason: o disco discute o “caos que vem de dentro”. Quase sete anos após o lançamento, você sente que esse caos finalmente transbordou para o mundo exterior ou o punk rock ainda é um “muro” forte o suficiente para proteger a razão?
Jay Bentley: Sabe, eu penso muito na faixa que dá o nome ao disco, no sentido de que ela é direcionada a pessoas que provavelmente não sabem que o caos está dentro delas.
Existe um filme chamado Idiocracia – não sei se você já viu, mas sempre dizemos que é um filme ok, a história é ótima, mas as pessoas que o assistem não são as que deveriam assistir, sabe? Quem precisa ver aquilo são as pessoas que carregam o caos internamente e não percebem.
TMDQA!: Muitas bandas com 45 anos de carreira se tornam “atos de nostalgia”. O Bad Religion, no entanto, parece permanecer em um estado de alerta constante. Como você equilibra a alegria de tocar clássicos como “American Jesus” com a urgência de cantar sobre um mundo que parece estar ignorando os avisos da história?
Jay Bentley: Essa é a nova parte deprimente, para ser honesto. O Greg disse isso no palco não faz muito tempo: “Aqui está uma música de 35 anos que ainda é relevante, e isso é uma droga”.
Então, acho que a paixão em tocar muitas dessas músicas é como tocar um sino com um martelo – você só quer bater cada vez mais forte até que as pessoas se levantem e ouçam, e estou chegando ao ponto em que acho que elas não vão, elas simplesmente não querem. Não importaria o que você estivesse fazendo ou dizendo; acho que vivemos em uma era de ganância sem fim.
TMDQA!: O Bad Religion já visitou o Brasil mais de 15 vezes. Se o Brasil fosse uma de suas músicas, qual seria? A energia caótica do público de São Paulo se parece mais com a velocidade de “Do What You Want” ou com a profundidade reflexiva de “Sorrow”?
Jay Bentley: Acho que é “Do What You Want“, porque essa é a música que parece ressoar mais, como acontece com todos nós, né? É tipo: “Sim, faça o que você quiser, que se dane, mas não faça perto de mim, vá para lá” [risos]. Faz sentido, com certeza.
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TMDQA!: Desta vez, vocês farão um show solo no Espaço Unimed. Para uma banda que já tocou em festivais gigantes aqui, como o The Town e o Lollapalooza, como muda a sua mentalidade quando você sabe que cada pessoa ali foi exclusivamente para ver o Bad Religion?
Jay Bentley: Isso nos permite escolher algumas músicas e colocar no set que são “lado B” (deeper cuts). Acho que quando você toca em um festival, tem que assumir que está tocando para pessoas que não sabem quem você é, elas só passaram por ali e pensaram: “Ah, vou dar uma olhada nessa banda”.
Então você tenta tocar músicas que talvez as pessoas já tenham ouvido, como “Digital Boy“, “Sorrow“, “Infected” ou o que quer que seja. Mas quando é o seu próprio show, você quer ir um pouco mais fundo e buscar músicas que fazem a gente pensar: “Ah, verdade, eu tinha esquecido dessa”, ou que são as favoritas de alguém e que nunca tocamos. Um show solo é o nosso momento de lembrar que todos que estão ali queriam vir nos ver especificamente.
TMDQA!: O Greg Graffin é um acadêmico e o Brett Gurewitz é um estrategista. Você já mencionou em entrevistas passadas que eles te proporcionam uma “educação contínua”. Após quatro décadas, qual é a lição mais importante que o Bad Religion te ensinou sobre a natureza humana que nenhum livro de história seria capaz de explicar?
Jay Bentley: Cara, essa é uma pergunta difícil. Acho que onde me encontro agora – e não sei onde mais teria aprendido essa lição – é que as pessoas são imprevisíveis, e que você nunca saberá o que elas estão pensando, mesmo seu melhor amigo, sabe?
Lá dentro pode estar acontecendo algo que você não sabe de nada. E é da nossa natureza humana esconder isso.
TMDQA!: Resposta incrível, mesmo. Na faixa “Candidate”, há uma crítica afiada ao culto às celebridades e à competição implacável. Como músico, como você mantém sua integridade punk em uma era onde as redes sociais forçam todo mundo a ser um “candidato” a algo o tempo todo?
Jay Bentley: Você não está errado! No fim das contas, não importa o que você faça, se você é um artista, você é um vigarista (grifter) porque você está vendendo algo. Uma banda punk perfeita se reuniria na garagem da mãe, escreveria 20 músicas e depois acabaria.
No minuto em que você grava uma música e tenta dá-la a alguém, é como se você tivesse se vendido. Fez uma camiseta? Se vendeu. Não dá para fugir da ideia de que o que você está fazendo é capitalista – simplesmente é.
Então, use seu formato, use sua plataforma de um jeito que tente fazer as pessoas pensarem de forma independente. É só isso. Não é sobre “faça o que eu digo”, porque eu não digo nada. O Bad Religion sempre foi muito específico sobre isso: não temos respostas, só temos um caminhão de perguntas.
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TMDQA!: Se você pudesse enviar uma mensagem via “Digital Boy” para o adolescente Jay Bentley lá em 1980, começando no San Fernando Valley, você o avisaria sobre o que o mundo se tornaria ou deixaria que ele descobrisse tudo através das letras do Greg?
Jay Bentley: Oh Deus… Eu não acho que nada do que eu pudesse ter dito para mim mesmo naquela época faria qualquer sentido, eu sei que o “eu” de antes não acreditaria no mundo de agora…
E se eu pudesse ter dito qualquer coisa para mim mesmo, teria sido: “Compre milhões de Bitcoins” [risos].
TMDQA!: Essa me pegou de surpresa, não vou mentir! Mas, quase encerrando: o que os fãs de São Paulo podem esperar de único nesse show? Poderemos ver surpresas no setlist que reflitam essa fase mais “científica” e política da banda?
Jay Bentley: Eu espero que sim… Eu ainda não sentei para conversar com o Greg sobre o que vamos fazer. Mas sim, meu pensamento seria trazer um setlist atual sobre como as coisas estão no mundo.
Digo, que porcaria… todo dia que eu acordo não é empolgante, é meio aterrorizante. Meu celular faz um barulho desgraçado quando recebo uma notificação e quando ouço isso eu penso: “E agora? O que aconteceu?”. [risos] Meu primeiro pensamento é: “Putz, e agora?”. Eu não gosto de viver assim, não gosto de ter que pensar “que m*rda aconteceu agora?”. Eu não quero saber, mas eu tenho que saber – isso é péssimo.
TMDQA!: Eu te entendo, cara. Jay, é um prazer falar com você. Meu nome é Eduardo, represento o site Tenho Mais Discos Que Amigos!. Primeiro de tudo, você também considera que tem mais discos que amigos?
Jay Bentley: Eu não tenho mais discos! Eu dei todos os meus discos embora, sério mesmo. Na segunda vez que me mudei, eu disse: “Não vou carregar todos esses discos de novo”. Dei tudo para um amigo meu. Não tenho mais discos, então, eu tenho mais amigos que discos.
TMDQA!: Meu Deus, essa também me pegou de surpresa! E cara, se pudesse escolher cinco álbuns que mudaram sua vida – não como o Jay Bentley artista, mas como pessoa – quais seriam?
Jay Bentley: Vamos nessa:
- Madman Across the Water (Elton John): Porque foi a primeira vez que li letras que eram mais profundas do que “garota bonita”, sabe? Músicas sobre um garoto triste e solitário… o Bernie Taupin é um letrista incrível.
- Never Mind the Bollocks, Here’s The Sex Pistols (Sex Pistols): Esse foi formativo porque, a partir dali, tudo era possível. Você podia simplesmente dizer “foda-se” e pronto.
- GI (The Germs): Porque eles eram terríveis ao vivo, mas era um álbum tão bom e o Darby [Crash] era um ótimo letrista. Acho que se você está percebendo que as letras são importantes para mim… o GI abriu as possibilidades do que você podia fazer como punk. Não precisava ser só palavrão ou “foda-se a polícia”, você podia realmente dizer algo profundo e significativo. Isso foi importante.
- Um álbum do The Locust: Eles eram da Epitaph. Nem lembro o nome do disco, mas peguei a primeira cópia e acho que ouvi no meu carro por um ano, porque era muito inesperado. Não fazia sentido, mas eu não conseguia parar de ouvir.
- Same Old World (Emily Davis and the Murder Police): Ela é uma artista de Albuquerque, Novo México. Foi o segundo álbum dela e eu ainda escuto até hoje.
TMDQA!: Cara, terminamos aqui, suas respostas foram maravilhosas. Muito obrigado!
Jay Bentley: Oh, obrigado você! Nos vemos em breve, pessoal!
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Bad Religion no Brasil
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Eduardo Ferreira
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