TMDQA! Entrevista: O Grilo, aniversário, festa e carreira

Em 2021, o mundo parecia girar em uma frequência de incertezas, e a banda paulistana O Grilo decidiu abraçar esse caos com um sorriso no rosto. Ao lançar seu álbum de estreia, Você Não Sabe de Nada (2021), Pedro, Felipe (Fepa), Teixeira e Cavallari não entregaram apenas uma “mistureba” deliciosa de indie rock, axé, psicodelia e tudo o que você quiser definir sobre o som do grupo na época; eles entregaram um manifesto sobre o amadurecimento. Entre gravações no meio do mato em um sítio em Limeira e a criação do icônico personagem Lauro, o disco se tornou o coração de uma base de fãs que aprendeu a cantar sobre desilusões amorosas e crises existenciais com a leveza de um “bloquinho indie”.
Meia década se passou. Aquele quarteto que ainda batia o pé para decidir o setlist e estudava teoria musical através das próprias composições, hoje olha pelo retrovisor com a bagagem de quem já pisou nos maiores palcos do país, do Lollapalooza Brasil ao Rock in Rio. Agora, com a turnê “Você (Ainda) Não Sabe de Nada”, o grupo se prepara para reencontrar o público e revisitar as 13 faixas que mudaram suas vidas, desta vez, com a maturidade de quem lançou o ambicioso TUDO ACONTECE AGORA depois de todos esses anos.
Nesta entrevista exclusiva para o TMDQA!, mergulhamos nos bastidores dessa celebração. Conversamos com os meninos sobre como as tensões de faixas como “Contramão” e o groove de “Adeus” soam hoje, cinco anos depois. Discutimos o amadurecimento individual de cada membro – do baixo “Daft Punk” de Cavallari às guitarras manauaras de Fepa – e como a relação com os fãs transformou um disco de estúdio em um patrimônio coletivo.
Você pode até achar que sabe tudo sobre O Grilo, mas a verdade é que, cinco anos depois, ainda temos muito o que descobrir. Bora relembrar boas memórias?
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TMDQA! Entrevista – O Grilo
TMDQA!: Pô, meninos, primeiramente, muito obrigado por receberem a gente num momento tão especial. Celebrar cinco anos do Você Não Sabe de Nada chega a ser meio surreal. Eu queria saber: meia década depois e com dois álbuns de estúdio na bagagem, o que vocês realmente descobriram que não sabiam em 2021 e que hoje é essencial para a banda?
Teixeira: Caraca, muitas coisas! [risos] Eu acho que aquele foi um álbum de “primeiro encontro” da banda com esta formação. Quando o Fepa entrou, tivemos um ano bem caótico em termos de agenda – teve o Lolla, começamos a abrir shows maiores e houve um movimento de profissionalização. O álbum veio no momento em que conseguimos, pela primeira vez, cuidar da relação entre a gente.
Acho que essa é a lição que fica até hoje e que o VNSDN trouxe como marca: aprendemos que, acima de qualquer trampo, compromisso ou dúvida sobre a profissão, precisávamos cuidar da nossa relação. Esse cuidado transparecia no palco, nas gravações e nos ensaios. Com certeza, hoje sabemos um pouco mais sobre isso, e foi um dos motivos para termos conseguido levar a banda por tantos anos e até hoje.
TMDQA!: Interessante demais. E eu queria saber: se o Lauro, personagem daquela história em quadrinhos, tivesse envelhecido com vocês nesses cinco anos, ele ainda estaria mudo e reflexivo ou vocês acham que ele estaria reclamando do preço das passagens aéreas pós TUDO ACONTECE AGORA?
Cavallari: Nossa, com certeza estaria reclamando! Estaria depressivo e noiado com a Terceira Guerra Mundial ou com uma próxima pandemia. Estaria falando de todas as coisas com as quais eu fiquei noiado [risos]. Mas eu acho que o Lauro é um cara “crisado” por essência. Talvez, quanto mais velho ele fique, pior ele piore.
Pedro: Acho que o Lauro é um cara que, há cinco anos, gostava de imaginar como estaria melhor hoje; e agora ele está se imaginando daqui a cinco anos… e não acho que a coisa vá melhorar tanto assim [risos].
TMDQA!: Muito massa! Acabei pesando o clima sem querer, mas vamos continuar [risos]… Sobre curiosidades: quando vocês gravaram “Contramão”, foram forçados a estudar teoria musical. Para esta turnê, ela continua sendo a “chefona final” dos ensaios ou vocês finalmente domaram a fera?
Teixeira: Eu acho que domamos. O Você Não Sabe de Nada tem essa característica de as músicas serem um conjunto de retalhos; elas têm dois ou três gêneros misturados. Às vezes é difícil soar coeso e fazer uma transição fluida sem se perder. “Contramão” é difícil porque começa num samba, vai para um samba-rock, depois para um rock e termina pesadona… Mas, nos últimos anos, estudamos bastante para tocar hoje sem preocupação!
Pedro: Acho que a parte mais difícil é a convenção mesmo. Toda hora tem uma “convençãozinha”. Como ainda vamos fazer os ensaios abertos e os rearranjos, não sei se vamos fazer alguma maluquice em “Meu Pior Amigo” ou “Adeus”…
Teixeira: “Meu Pior Amigo” também é uma música meio tricky, com respiros e pausas, e é uma que não tocamos tanto!
Fepa: As músicas d’O Grilo são cheias de detalhes, e isso é o que pega… Harmonicamente é muito simples, mas como que a gente vai embelezar que é a questão.
Teixeira: Inclusive, acho o VNSDN mais difícil de tocar do que o TUDO ACONTECE AGORA. No disco novo, a gente escolhe uma vibe e vai atrás dela, enquanto no primeiro a gente tava com a mente livre: qualquer coisa podia acontecer. Poderíamos sair de um funk para um som pesadão, ou de uma guitarrada para o hardcore… Isso torna o ao vivo desafiador, mas a gente se diverte pra caralho! [risos]
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TMDQA!: E galera, sobre a turnê, vocês já avisaram que o disco não será tocado exatamente na ordem. Se o show d’O Grilo fosse um filme do Tarantino, qual seria a cena (música) de abertura e qual seria o grande plot twist no meio do repertório?
Pedro: Eita porra… Qual seria a música de abertura?
Teixeira: Caralho! [risos] Velho, a gente sempre gostou muito de “Trela” para abrir. Tem aquela “caixada” no início da bateria que não dava para tirar; era algo que eu fazia de improviso nos ensaios para puxar a banda, mas virou algo tão marcante que quando a gente dá o play no álbum e ouve aquele “pá”, é tipo: “Ok, vamos escutar uma longa história daqui para frente”.
Pedro: Por enquanto, eu tô no time que abre com “Trela”, mas agora pro plot twist cara… Talvez “Infinito (-1)“.
Você não espera que a música vá para aquele lugar “Pink Floydiano”, com violão em cinco tempos, mudanças rítmicas e solos espaciais.
Cavallari: Seria o nosso momento Era Uma Vez em… Hollywood. [risos]
TMDQA!: Galera, vocês meio que responderam isso, mas como é para o grupo equilibrar esse som “remendado” e experimental do primeiro disco com essa sonoridade mais robusta, de “rock de arena”, que vocês atingiram ao longo dos anos? Podemos esperar releituras desses clássicos?
Teixeira: Eu acho que releituras a gente sempre faz, tanto que fizemos o TUDO ACONTECE AO VIVO justamente para lançar essas novas versões. Muita coisa muda: em “Meu Amor” colocamos um solo e uma parte nova; em “Trela” incrementamos um jazz no meio…
Enfim, eu gosto muito dessa nossa característica de pegar músicas gravadas, mesmo que seja há oito ou dez anos, e deixá-las com a cara do nosso momento atual. Estou ansioso para ver como vão soar as músicas que “largamos” um pouco, como “Adeus”, “Meu Pior Amigo”, “Tudo e Mais um Pouco“… Com certeza acho que vai vir uma reinterpretação.
TMDQA!: Voltando no tempo: no lançamento original, algumas músicas eram as queridinhas e outras ficavam mais no “cantinho”. Agora que o Grilo conquistou o Brasil, vocês acham que o público vai redescobrir alguma música e transformá-la num “hit injustiçado”?
Teixeira: Eu espero muito! [risos]
Pedro: Eu espero que sim, tomara, porque eu gosto muito das músicas que “não vingaram” desse disco!
Cavallari: Tem uma que eu pessoalmente acho que tem um potencial enorme desse álbum, a gente sempre toca, mas que pode atingir um potencial maior ainda: “Onde Flor“. Dentre todas as viagens do álbum, ela é uma música que poderia chegar em muito mais pessoas. Tomara que redescubram.
Teixeira: Eu lembro que “Guitarrada” começou a viralizar no TikTok e eu achei animal. É legal ver “Serenata Existencialista” estourar e tal, tem esse apelo jovem/adolescente, mas “Guitarrada” traz algo diferente, que conecta as pessoas com algo que elas nem sabiam que existiam, mesmo sendo brasileiros. E ela tem uma temática mais subjetiva sobre não acreditar em tudo o que você coloca na sua cabeça!
Pedro: Eu queria muito que ou “Meu Pior Amigo” ou “Tudo e Mais um Pouco” tivessem essa “vingança”. Em termos de fórmula, acho elas mais interessantes e autênticas, saca? Se não tivéssemos feito o VNSDN naquele momento específico, talvez hoje não as lançaríamos por serem “esquisitas”. E, por serem esquisitas, elas são mais autênticas.
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TMDQA!: Pegando vocês de surpresa: se tivessem que tocar “Malabarista de Granadas” no meio do mato de novo, como na gravação original, quem seria o primeiro a ser carregado pelos mosquitos?
Todos: O Cavallari! [risos]
Cavallari: Com certeza eu. Eu sempre me lasco, tenho a pele fina.
Pedro: Cê também tem uma parada de tomar a picada de mosquito e ficar inchadão? Eu ia me foder inteiro, ia tocar com os dedos enormes.
Cavallari: Pô, é o Pedro então! [risos]
Fepa: Eu ficaria suave, estaria fazendo um churrasco enquanto eles eram picados.
TMDQA!: O refrão de “Meu Amor” é impossível de ficar parado, como vocês mesmo já reforçaram e foi comprovado depois de todo esse tempo desde o lançamento. Vai ter um concurso de passinho oficial no show ou vamos ter que improvisar?
Pedro: Isso é legal, tá? [risos]
Teixeira: Acho que assim… Está lançado o concurso aberto para quem quiser criar dancinhas de TikTok para “Meu Amor”!
TMDQA!: Recado tá dado! Caso pudessem enviar um objeto desta turnê de volta para os “meninos verdes” de 2017, que estavam gravando o Herói do Futuro, o que seria?
Teixeira: Cara, acho que eu enviaria o nosso livro. Quando eu era um adolescente de 18 anos, escutava Supercombo, O Terno e amava o universo estético das bandas! Meu sonho era fazer música e construir uma marca por trás dela, assim.
Eu me orgulharia muito se visse esse livro naquela época, porque tem todo o universo estético, expande o universo do álbum…
Cavallari: Eu enviaria a plaquinha do camarim do Lollapalooza 2023!
Pedro: É bem emotiva essas paradas que os meninos tão dizendo, mas eu enviaria os números da última Mega-Sena da Virada [risos]. Ia pagar a turnê internacional, ia pagar tudo!
Todos: Caralho! [risos]
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TMDQA!: Rapaziada, vocês estão prontos para ver os “Lauros de 2021” agora como adultos, trazendo uma nova geração de “grilinhos” para o show?
Teixeira: Isso é uma coisa muito foda. Conhecendo bandas do cenário, trabalhando na Rockambole, trabalhando em outra banda (PLUMA), sei que é muito difícil lançar um álbum que os fãs antigos amem e que, ao mesmo tempo, traga novas pessoas.
O VNSDN é um marco porque fez isso de forma orgânica. Tem gente que conheceu a banda com 8 anos e hoje tem 15; outros estavam na faculdade e hoje têm 25… Essa turnê foi a que mais vendeu ingressos nas primeiras semanas de toda a nossa história. As pessoas querem se conectar com quem elas foram e ressignificar isso.
Pedro: Fora que também é um puta luxo poder revisitar casas como o Cine Joia, que foi o divisor de águas da nossa carreira. Antes, a gente penava para botar 250 pessoas num show; aí saímos da pandemia, fazer o nosso primeiro show e estreamos lá com 1.200 pessoas gritando.
Poder revisitar esses lugares cinco anos depois, sendo a mesma banda, mas em outro patamar, é um privilégio. E ainda levar essa turnê para lugares onde nunca fomos, como Natal… Estamos muito gratos por isso!
TMDQA!: Galera, foi um enorme prazer. Eu sou Eduardo Ferreira, redator do TMDQA!, e para encerrar temos uma tradição: vocês também consideram ter “mais discos que amigos”?
Todos: Sim! [risos]
Cavallari: Eu tenho poucos amigos hoje em dia!
Pedro: Então, eu ia falar que não, mas como nosso último álbum é duplo, acho que sim! [risos]
Fepa: A meta é sempre lançar mais discos do que ter amizades. Se eu tiver cinco amigos, quero sete discos de estúdio!
TMDQA!: E qual álbum foi fundamental para vocês como pessoas (não necessariamente como artistas)?
Cavallari: Audioslave, do Audioslave. Esse álbum mudou minha vida, se eu tivesse que ficar ilhado com um disco, seria ele!
Fepa: Posso roubar no jogo? [risos] Greatest Hits, do Queen. Pode ser? [risos]
Teixeira: Pra mim, o Is This It, do The Strokes.
Pedro: Só consigo pensar no O Grande Circo Místico, do Edu Lobo e Chico Buarque.
TMDQA!: Ótimas escolhas! Gente, muito obrigado por receberem a gente mais uma vez, foi um privilégio enorme. Até a próxima!
Todos: Valeu, te vemos no show!
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O Grilo – “Você (Ainda) Não Sabe de Nada”
Fepa, Pedro, Teixeira e Cavallari vão rodar o país celebrando 5 anos do emblemático VNSDN! A turnê que passará por cidades como São Paulo, Porto Alegre, Natal, Manaus e muito mais já está com ingressos à venda – e atenção: mais datas estão por vir!
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Eduardo Ferreira




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