TMDQA! Entrevista: The Lumineers, turnê mundial e a atmosfera de “Automatic”

O cenário musical parece vibrar em uma frequência de nostalgia e renovação nos últimos tempos, e a icônica banda The Lumineers decidiu abraçar esse ciclo com a grandiosidade que lhes é peculiar. Ao lançar seu álbum mais recente, Automatic (2025), Wesley Schultz e Jeremiah Fraites entregaram um manifesto sobre a conexão humana e a persistência. Entre hinos coletivos e uma emoção crua que consolidou o grupo como um dos shows ao vivo mais poderosos do folk atual, o disco se tornou o novo coração de uma base de fãs que aprendeu a cantar sobre perdas e descobertas com a força de um coro de arena.
Aquele duo que outrora dormia no chão de casas de desconhecidos e trabalhava em restaurantes para pagar as contas, hoje olha pelo retrovisor com a bagagem de quem já pisou nos palcos mais icônicos do mundo, do Citi Field ao The O2 em Londres. Agora, com a “Automatic World Tour”, o grupo se prepara para reencontrar o público sul-americano e apresentar as faixas que marcam seu trabalho mais pessoal até hoje, trazendo a maturidade de quem sobreviveu à “máquina” da indústria e emergiu ainda mais autêntico.
Nesta entrevista exclusiva para o TMDQA!, mergulhamos nos bastidores dessa celebração global com Jeremiah. Conversamos sobre como a tensão de faixas como “Same Old Song” e o ritmo de “BIRTHDAY” soam hoje, após anos de estrada. Discutimos o amadurecimento da parceria – descrita como um “casamento platônico” – entre o duo, e como a relação com os fãs transformou projetos de estúdio em patrimônios compartilhados em seis continentes.
E aí, vamos destrinchar essa trajetória?
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TMDQA! Entrevista – The Lumineers (Jeremiah Fraites)
TMDQA!: Jeremiah, primeiramente, muito obrigado por receber a gente num momento tão especial. Você descreveu sua relação com o Wes como um “casamento platônico de duas décadas”. Se Automatic fosse a trilha sonora de uma renovação de votos dessa parceria, qual música representaria o momento em que vocês decidem, mais uma vez, empurrar essa pedra morro acima juntos?
Jeremiah Fraites: Ótima pergunta! [risos] Acho que a música “A.M. RADIO” é realmente transcendente e bonita ao falar sobre o nosso relacionamento, há um trecho nela que diz exatamente isso. É uma espécie de proclamação ou declaração dessa ideia de que, em algum momento, quando você alcança o sucesso em qualquer coisa – particularmente no campo criativo -, você pode acabar desenvolvendo um ego, e esse ego pode crescer muito. Acho que isso é normal e, às vezes, até saudável, mas eu e o Wes percebemos que somos bons no que fazemos individualmente, mas somos realmente incríveis quando nos unimos. A soma do que fazemos é muito maior do que nossas individualidades. “A.M. RADIO” é uma forma linda de representar isso na prática e na teoria; é sobre reconhecer o outro e dizer: “Ei, eu realmente preciso de você”.
Quando isso é recíproco, é algo especial.
TMDQA!: Ótima resposta! Inclusive, muitas bandas não sobrevivem à “psicose” de viver, trabalhar e criar juntas por tanto tempo. Como a energia do público latino-americano – conhecido por ser um dos mais apaixonados do mundo – ajuda a recarregar essas baterias e evita que a rotina da turnê se torne, bem, “automática” demais?
Jeremiah Fraites: Vir para a América Latina e para a América do Sul é revigorante para nós. Não é por escolha, mas parece que só conseguimos vir para cá a cada três ou nove anos – houve um hiato bem grande dessa última vez. Antigamente era difícil financeiramente porque ainda estávamos tentando crescer na América do Norte e na Europa, o que levou anos de turnês incessantes.
No ano passado, fizemos quatro meses seguidos de shows só nos Estados Unidos, e eu não recomendo isso para nenhuma banda! Você começa a se sentir meio louco, com uma sensação constante de déjà vu. Mas quando vamos ao Japão, à África do Sul ou ao Brasil, é tudo tão diferente de onde eu e o Wes crescemos em Nova Jersey. São culturas, países, línguas e comidas diferentes.
É uma fonte genuína de inspiração e alegria, e espero que possamos voltar com mais frequência agora.
TMDQA!: No álbum, vocês exploram o “vazio” de assistir pornografia e programas de corretores de imóveis enquanto sonham com dias melhores. No Brasil, o público é o oposto do “vazio”: as pessoas são barulhentas, físicas e presentes. Você vê os shows na América do Sul como uma espécie de “antídoto” ou um “Ativan natural” para a frieza tecnológica que o disco descreve?
Jeremiah Fraites: Com certeza. Cada país tem um público diferente e isso torna o mundo um lugar bonito, mas as diferenças quando tocamos pela primeira vez na Escócia, Irlanda, Inglaterra ou Itália foram palpáveis.
Não sei se vem do amor pelo futebol, mas há uma paixão visceral, e você vê isso claramente na Argentina, Colômbia, Brasil e México. É uma loucura. Nós fazemos shows incríveis no Canadá ou nos EUA, não é como se os lugares fossem silenciosos, mas a América do Sul é única, são alguns dos públicos mais barulhentos que já vimos.
Em cidades como Londres, Nova York ou Los Angeles, eles recebem muita música todos os dias — Ed Sheeran, Coldplay, Justin Bieber, Rihanna… todo mundo passa por lá. Já na América Latina, sinto que nem toda banda grande faz o esforço de ir, então quando vamos, sentimos esse amor de forma muito profunda. É um rapport incrível com o público!
TMDQA!: Na música “Same Old Song”, você fala sobre a incerteza de saber se alguém pagaria seu aluguel ou se você terminaria morto na calçada. Hoje, tocando em arenas na Argentina e no Brasil, essa música ganha um novo significado? É irônico cantá-la diante de milhares de pessoas que são a prova viva de que vocês realmente “chegaram lá”?
Jeremiah Fraites: Acho que sim. Temos uma música chamada “Sleep on the Floor” do segundo álbum que fala sobre a época em que realmente dormíamos no chão durante as turnês. Não éramos sem-teto, mas não tínhamos dinheiro para hotéis e ficávamos na casa das pessoas – era um sinal da nossa situação financeira na época.
Agora, ficamos em bons hotéis e as coisas mudaram, mas, apesar do sucesso, o desafio é continuar escrevendo músicas que inspirem aquele “eu” de 20 anos atrás – nunca quero estar no palco ou no estúdio com o Wes fazendo algo com o qual não me sinta conectado. Não quero sair em turnê apenas pelo dinheiro; quero ir porque amo o álbum que fizemos. Turnês são exaustivas, te tiram de perto da família por muito tempo, então você precisa acreditar no que está entregando. E para alguém de Nova Jersey, ver que nossas músicas em inglês transcendem a barreira da língua em países que falam português ou espanhol… isso significa o mundo para mim.
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TMDQA!: A turnê Automatic World Tour passará por grandes locais como o Vivo Rio e a Movistar Arena. Como vocês planejam traduzir visualmente o mito de Sísifo no palco? Haverá elementos ecoando esse ciclo infinito ou a “máquina” que você menciona em “Keys On The Table”?
Jeremiah Fraites: Trabalhamos muito no visual desta turnê e acho que é o nosso trabalho mais forte até agora! Nunca queremos ser uma banda que tem projeções apenas por ter algo visual, mas sim para ter uma experiência que adicione som e música. Quando você vê o show, a combinação do que acontece à sua frente com seres humanos reais tocando seus instrumentos cria algo emocionante. Estou ansioso para esse público ter a chance de assistir o espetáculo [risos].
TMDQA!: A faixa “So Long” foi descrita como tendo uma “vibe de viagem na estrada” e foi gravada em um take ao vivo. Como encerramento do álbum, ela foi projetada para ser aquele hino final de estádio onde o público grita “Maybe we’ll be famous when we die” a plenos pulmões? O que você visualiza quando imagina essa música fechando um show em São Paulo?
Jeremiah Fraites: Engraçado perguntar, é uma música que não tocamos tanto nesta turnê. [risos] Tocávamos todas as noites logo que o álbum saiu e é uma das minhas gravações favoritas, mas às vezes parece não funcionar tão bem ao vivo – mas nunca diga nunca! Em termos de estúdio e do que aconteceu na gravação, Wes cantava e tocava guitarra e eu tocava bateria ao mesmo tempo.
Isso não é tão comum hoje, onde você grava tudo separado, mas essa faixa nós fizemos juntos como uma banda. Fizemos apenas dois takes e o que você ouve no disco é o resultado disso, com algumas cordas e um Mellotron adicionados depois; é a nossa versão de um rock and roll mais pesado. Espero que as pessoas aprendam a amá-la tanto quanto eu… quem sabe em dez anos ela não se torne a nossa maior música?
TMDQA!: Você mencionou que este álbum apresenta muito mais bateria e pratos do que o seu primeiro disco. Para os fãs brasileiros que vivem de percussão, podemos esperar um Jeremiah mais “descontrolado” e energético atrás do kit nesta turnê?
Jeremiah Fraites: Com certeza! Percebi que este álbum realmente exige mais da bateria. Tem uma música que tocamos chamada “BIRTHDAY” que tem uma bateria muito rápida e intensa, quase num estilo punk como o Green Day na fase Dookie. É muito divertido e rítmico, estou animado para fazer isso!
TMDQA!: Sua esposa sugeriu o título para “Patience” e agora para “Sunflowers”. Existe a chance de vermos um momento solo seu ao piano — talvez um set acústico silencioso e íntimo no meio dessas arenas imensas — para honrar essas inspirações familiares?
Jeremiah Fraites: Suas perguntas são ótimas! Temos tocado uma música chamada “My Eyes” ultimamente e ela geralmente emenda em “Patience”. Temos feito isso nos últimos dois meses de turnê, então é possível, quem sabe? É uma forma legal de atrair o foco de todos em uma arena grande.
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TMDQA!: A gente tá quase encerrando: se você pudesse enviar uma mensagem para o Jeremiah e o Wes de 20 anos atrás, trabalhando naquele restaurante japonês em Ramsey, sobre o que eles sentiriam ao pisar no palco em Curitiba em 2026, o que você diria? Valeu a pena “perder para a máquina” para acabar com este disco?
Jeremiah Fraites: Eu diria que todos os sonhos deles vão se realizar e muito mais. Eu nunca esperei que nossa banda pudesse excursionar por seis continentes – já que ninguém vai à Antártida! Eu ficaria em choque se alguém me dissesse, 20 anos atrás: “Ei, você vai tocar no Brasil um dia”. Eu simplesmente não acreditaria.
TMDQA!: Isso é completamente admirável. Represento um site no Brasil chamado Tenho Mais Discos Que Amigos!. Temos uma tradição ao final de cada entrevista, e essa é a primeira pergunta: você também considera ter mais discos do que amigos?
Jeremiah Fraites: Com certeza! [risos]
TMDQA!: Perfeito! E você poderia listar cinco álbuns que são realmente significativos para você?
Jeremiah Fraites: Vamos lá:
- Kid A do Radiohead;
- Parachutes do Coldplay;
- For Emma, Forever Ago do Bon Iver;
- Pulse, o álbum ao vivo do Pink Floyd;
- Qualquer gravação das Sonatas para Piano de Beethoven.
TMDQA!: Cara, encerramos aqui. Muito obrigado por nos atender, foi um prazer!
Jeremiah Fraites: Eu quem agradeço! Tchau, tchau, nos vemos no Brasil!
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The Lumineers – “The Automatic World Tour”
Wesley Schultz e Jeremiah Fraites vão rodar a América Latina celebrando o álbum Automatic! A turnê que passará por cidades como Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo já está com ingressos à venda – e atenção: shows de abertura por conta de Rafael Witt, que recentemente, também abriu os shows do Hollow Coves no país!
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Eduardo Ferreira
TMDQA! Entrevista: The Lumineers, turnê mundial e a atmosfera de “Automatic”




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