40 anos depois, Plebe Rude relança disco histórico e expõe feridas abertas do Brasil (ENTREVISTA)
Quarenta anos após se consolidar como um dos pilares mais contundentes do rock brasileiro, o álbum “O Concreto Já Rachou”, da Plebe Rude, ganha uma edição histórica de relançamento pela Universal Music Brasil. O projeto celebra as quatro décadas da obra e marca também os 45 anos de atividade ininterrupta do grupo de Brasília. Em entrevista ao ROCKline, o vocalista Philippe Seabra e o baixista André X repassam a trajetória do álbum, analisam a incômoda atemporalidade de suas letras e fazem uma leitura ácida sobre a indústria musical e o Brasil de hoje.

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Além do formato digital, os colecionadores e entusiastas ganham a edição em vinil original, acompanhada de um compacto duplo com quatro faixas-demo, o videoclipe de “Até Quando Esperar” e um documentário exclusivo no qual a banda comenta faixa a faixa a criação do disco.
O grande destaque da nova versão é uma performance inédita do clássico “Até Quando Esperar”, trazendo a voz e a guitarra de Herbert Vianna – produtor do trabalho original em 1986. A novidade tem também o arranjo do instrumentista Jacques Morelenbaum, que recriou a marcante introdução de violoncelo da canção.
“Como cidadão e pai, fico aflito”: o peso de “Até Quando Esperar”
Composta em meio à transição democrática dos anos 1980, “Até Quando Esperar” tornou-se um hino de contestação social. Passadas quatro décadas, a permanência da mensagem gera um sentimento agridoce em seus criadores, como reflete Philippe Seabra.
“Quem poderia saber o respaldo que essa música teria? Nem a gravadora, nem nós. Quarenta anos depois, como artistas e compositores, ficamos felizes com a relevância da obra. Mas como cidadão e pai, fico aflito ao saber que o Brasil mudou muito pouco.”
Para o baixista André X, a letra nasceu da observação direta do contraste social do país:
“A preocupação no meu ensaio era comprar palhetas para o baixo; o flanelinha na rua pensava em como sobreviver mais um dia. A letra surgiu desse incômodo. Fico triste que, 40 anos depois, nada disso foi resolvido. Pelo contrário: temos uma sociedade mais dividida e mais apática.”
O reencontro com Herbert Vianna e o legado de Renato Russo

A presença de Herbert Vianna no projeto resgata a conexão visceral da geração do BRock. Liderando os Paralamas do Sucesso, o músico foi crucial para apresentar a Plebe Rude ao mercado fonográfico nacional na década de 80.
“Sempre nos esbarramos na estrada, mas estar no estúdio celebrando esse momento foi muito emocionante”, relembra Philippe Seabra. André X reforça a gratidão: “Herbert colocou a Plebe para cima em momentos decisivos da nossa história. A conexão continua viva.”
Ao projetarem como Renato Russo – responsável pelo release original do álbum em 1986 – reagiria ao cenário político e cultural do país hoje, os integrantes compartilharam visões complementares:
Philippe Seabra: “Ficaria feliz ao ver os amigos da Plebe honrando o legado do rock de Brasília, mas ficaria aflito ao ver alguns conterrâneos brigando e trucidando sua obra.”
André X: “Ele estaria no ápice de sua carreira solo, metendo letras extremamente bem escritas sobre o Brasil atual.”
Reprodução via Plebe Rude
“No mainstream ninguém aborda assuntos sérios”
Ao analisarem a postura política da nova geração de músicos, a Plebe Rude aponta uma mudança de postura em relação aos anos de ouro do rock nacional. Para Philippe Seabra, o medo e o interesse comercial sufocam o discurso crítico:
“No mainstream ninguém aborda assuntos mais sérios. Sinto mais postura em entrevista e em blog do que em repertório, porque isso comprometeria o artista. Fora do repertório, virou mais autopromoção do que qualquer outra coisa.”
André X complementa apontando a transformação promovida pelos algoritmos e pelas rádios de formato corporativo.
“O algoritmo do streaming é programado para diluir qualquer manifestação que não seja a da própria plataforma. As rádios hoje operam com playlists mandatórias focadas na diversão. O rock virou nicho, infelizmente.”
Apesar do diagnóstico, a banda faz questão de destacar que a urgência artística segue viva na cena independente. Entre os nomes citados estão o trio Black Pantera e o trombonista capixaba Joabe Reis como provas de que a chama da contestação continua acesa no underground.
Crédito: Caru Leão
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Bruna Cora
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