“É como reencontrar um amigo que você não vê há muito tempo”: Stefan Olsdal fala sobre o retorno do Placebo

Placebo, em foto por Scarlet Page
Foto por Scarlet Page

Se a música alternativa dos anos 1990 fosse um filme de época, o figurino padrão seria feito de camisas xadrez largas e jeans rasgados. Mas, em 1996, figuras de unhas pintadas, delineador carregado e guitarras afinadas de forma herética decidiram que o tédio suburbano merecia um pouco de glamour, perversão e androginia. O Placebo não pediu licença para entrar no cenário musical britânico – eles arrombaram a porta da frente enquanto o britpop ainda tentava decidir qual pub era o mais autêntico.

Três décadas se passaram, e o que era visto como uma afronta juvenil transformou-se em profecia. Em um mundo que finalmente aprendeu a debater a fluidez de gênero e a identidade fora das margens, o álbum de estreia da banda ganha uma nova vida com Placebo RE:CREATED. O projeto não é um tributo caça-níqueis e nem uma tentativa de corrigir o passado, mas sim um acerto de contas artístico.

É a maturidade de 2026 abraçando a urgência crua de 30 anos atrás, provando que aquelas canções estavam apenas esperando a tecnologia e a experiência da banda alcançarem o que já estava em suas cabeças.

Aproveitando esse retorno às origens e a iminente turnê que tocará as faixas do disco autointitulado e de seu sucessor (Without You I’m Nothing), o TMDQA! teve a oportunidade de mergulhar em uma conversa profunda com Stefan Olsdal. Neste papo, o calmo e analítico multi-instrumentista despe a mística da banda para falar de matemática musical, o impacto do isolamento na composição e a beleza das imperfeições gravadas em fitas de duas polegadas. Ele reconecta o passado ao presente, avalia o estado atual das nossas “guerras culturais” e resume a maior lição de longevidade no rock em pouquíssimas palavras.

Confira essa conversa especial abaixo!

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TMDQA! Entrevista Stefan Olsdal (Placebo)

TMDQA!: Stefan, muito obrigado por nos receber, é uma honra! Como você está?

Stefan Olsdal: Olá! Estou bem, muito obrigado por me receber, é um prazer imenso.

TMDQA!: O prazer é todo meu! Queria começar perguntando: o abrir as fitas master de 30 anos atrás, você certamente redescobriu notas e escolhas de produção que já havia esquecido há muito tempo. Se você pudesse isolar um único erro ou imperfeição daquela época que hoje considera brilhante, qual seria?

Stefan Olsdal: Nossa, uau! [risos] Essa é difícil, escolher só uma é complicado. É como perguntar qual é a sua música favorita ou, se você tiver filhos, qual é o seu filho favorito [risos] mas, no geral, quando abrimos as fitas master, estava praticamente tudo lá. Foi gravado em fita de 2 polegadas, então eram apenas 24 canais. Era o máximo de canais que cabia em uma fita de 2 polegadas, e ali estava todo o primeiro álbum.

Foi um processo bem direto voltar a essas fitas, revigorante ver como tudo era simples naquela época. Depois, no segundo e no terceiro álbum, fomos para estúdios maiores, a tecnologia mudou e toda a era digital chegou; então, esse primeiro disco foi gravado de uma forma surpreendentemente simples. Pareceu mesmo uma viagem ao passado.

Tínhamos que acertar cada take na fita, não dava para copiar e colar como hoje. Agora, no computador, se você grava algo e gosta, pode copiar e colar onde quiser na música, pode dobrar, inverter, tudo mais.
Naquela época, tínhamos que fazer o drop-in (gravar por cima de um trecho específico). Se você errasse uma parte da guitarra, por exemplo, era tipo: “ok, vamos de novo, mas você tem que entrar exatamente no ponto certo da música”.

Houve alguns momentos marcantes assim. Lembro de gravar uma parte de guitarra em “Bruise Pristine” e, logo após tocar, soube que tinha sido a gravação perfeita. Eu sabia que era um daqueles momentos no tempo que nunca poderiam ser recriados, porque cada vez que você toca, toca de um jeito diferente.
Aquela sensação de saber, enquanto está tocando, que é o take perfeito, que vai ficar ali e que você nunca fará melhor, mas que conseguiu… houve alguns momentos desses, e lembro de um especificamente em “Bruise Pristine”. Isso é algo único desse nosso álbum, porque depois dele a era digital dominou. Acho que é por isso que esses pequenos momentos continuam guardados comigo.

TMDQA!: Imagino como deveria ser mágico! O baixo costuma ser visto como um suporte rítmico, mas no Placebo, ele frequentemente dita a melancolia. Você vê o seu instrumento mais como um escudo que protege os vocais do Brian ou como uma lança que corta a agressividade das músicas?

Stefan Olsdal: No primeiro álbum, éramos um trio. Ao vivo éramos um trio e no estúdio também, basicamente.
Então era bateria, baixo, guitarras e vocais. O fato de sermos um trio permitia que nossos instrumentos fossem mais melódicos e preenchessem mais espaço, porque eram literalmente apenas três instrumentos.

Ter esse tipo de dinâmica me deu muita liberdade para ser mais melódico. Como não tínhamos um segundo guitarrista nem um tecladista, eu precisava ser um pouco mais inventivo nas minhas linhas de baixo para preencher o que um segundo guitarrista ou tecladista faria. Acho que as limitações de ser um trio, na verdade, trouxeram à tona mais musicalidade de cada instrumento.

TMDQA!: Você tem uma forte ligação com a música eletrônica e ambiental. Como essa sensibilidade eletrônica “fria” ajuda a aquecer o som orgânico e visceral do Placebo em 2026?

Stefan Olsdal: Bem, acho que o Placebo RE:CREATED, se trata exatamente disso – queríamos usar toda a nossa experiência de estúdio dos últimos 30 anos. A forma como incorporamos a tecnologia, os sintetizadores e o lado eletrônico da música, além do uso do próprio estúdio – porque hoje o estúdio pode ser um instrumento, com todos os avanços tecnológicos -, e nós amamos tudo isso.

Ao revisitar este primeiro álbum, queríamos pegar todas as coisas boas que aconteceram nos últimos 30 anos e trazer para ele. Não queríamos tirar nada, porque o primeiro álbum tinha muita energia, muita paixão, e todas as composições e performances já estavam lá. Queríamos adicionar camadas de texturas sonoras e alguns sons que passamos a amar ao longo dos anos. Foi isso o que quisemos fazer: trazer esse álbum de 30 anos atrás para os dias de hoje.

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TMDQA!: Stefan, nos anos 90, a androginia de vocês era um ato radical de rebelião visual e hoje, a moda e o gênero são fluidos no mainstream. Você sente que o Placebo venceu a guerra cultural ou a hipervisibilidade atual acabou tirando um pouco do mistério que antes definia a identidade da banda?

Stefan Olsdal: Olha, quando lançamos o primeiro álbum, a banda certamente tinha aspectos de androginia e uma certa fluidez de gênero. As pessoas ficavam confusas sobre quem éramos: “é um menino? é uma menina?”.
Explorávamos todos esses temas nas letras também. Isso não era nem um pouco “da moda” na época, até porque o pano de fundo do Placebo era o britpop, formado por caras que sentavam no pub, bebiam e depois subiam ao palco para tocar suas guitarras de camiseta. Aquilo não era o que queríamos fazer, não éramos nós.

Nossa abordagem em relação à música sempre foi muito instintiva, nunca tentamos ser outra pessoa ou nos esconder atrás de algo. Continuamos fiéis a isso ao longo de toda a nossa carreira. É ótimo ver que muita coisa mudou na sociedade, que hoje há muito mais visibilidade e discussões mais abertas sobre identidade e gênero… acho isso fantástico!

Mas, ao mesmo tempo que você pensa que a sociedade e a cultura estão avançando, também olhamos para o lado e vemos que a outra metade do mundo está indo na direção oposta.

O assunto parece tão relevante agora quanto era naquela época. E você pode ir ainda mais longe no passado e encontrar artistas como Little Richard, por exemplo: um homem negro e gay usando maquiagem, cantando sobre sexo e “tutti frutti”. Existe uma linhagem desse tipo de música e de artistas, e não acho que isso vá desaparecer, porque sempre haverá uma grande parte do mundo que vai se posicionar contra, infelizmente.

TMDQA!: Agora, uma pergunta pessoal: como alguém que já viveu em diferentes polos culturais, de que forma a sua localização física impacta a frequência do que você compõe? O Stefan que escreve em Londres soa diferente do Stefan que escreve na Espanha?

Stefan Olsdal: Nossa, boa pergunta! Acho que não, porque para onde quer que você vá, você sempre leva a sua própria cabeça junto e você nunca consegue fugir dela, para o bem ou para o mal. Acho que às vezes você é ativado por estímulos externos, mas na maioria das vezes as coisas vêm de dentro de você, e o que vem de dentro você carrega para onde for.

É interessante porque, durante a pandemia, por exemplo, eu fiz um projeto musical com outra pessoa e o que percebemos foi que, em vez de viajarmos para nos ver ou para um lugar específico para gravar e compor, nós viajávamos dentro da música. A música passou a ser a localização.

Aquele era o lugar para onde viajávamos. Não era um espaço físico real; era um mundo que existia dentro da música, dentro da nossa cabeça. Não sei se faz sentido, mas é assim que eu vejo [risos].

TMDQA!: Não, isso é incrível e faz todo sentido! Continuando agora, o Placebo sempre foi apoiado por gigantes. Qual é a lição mais valiosa sobre envelhecer com dignidade no rock que você aprendeu apenas observando o Robert Smith nos bastidores, por exemplo, sem que ele precisasse dizer uma única palavra?

Stefan Olsdal: Chegue no horário e não fique preguiçoso [risos].

TMDQA!: Perfeito, justíssimo! [risos] Vocês vão tocar músicas que não são ouvidas ao vivo há 20 anos. Existe alguma música que você reaprendeu a amar durante a preparação para a turnê? Algo que estava enterrado e que agora soa como se tivesse sido escrito ontem?

Stefan Olsdal: Sim, estou muito animado! Revisitar o álbum fez com que nos reaproximássemos dele 30 anos depois, e é um pouco como reencontrar um amigo que você não vê há muito tempo. Leva um tempinho para se reambientar, mas aí você percebe que ainda têm muito em comum e a conexão volta, sabe?

Acho que a principal diferença é que vamos ter que recuperar o fôlego e a força física, porque tocávamos algumas dessas músicas tão rápido que eu me pergunto: “como diabos a gente conseguia tocar nessa velocidade?” [risos] Então, sim, vou ter que começar a praticar logo para conseguir acompanhar o ritmo, porque aquela energia que você tem aos 20 anos, você não tem mais aos 50.

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TMDQA!: Agora imagine que você é um artista com uma instalação em um museu daqui a 100 anos, e os visitantes podem ouvir um loop de apenas 10 segundos de qualquer um dos seus canais de instrumentos para entender a alma da banda. Qual trecho você escolheria?

Stefan Olsdal: Caralho! Não sei, essa é difícil… acho que seria incrível ter apenas uma microfonia de guitarra, sabe? Uma microfonia de guitarra muito boa.

Nós sempre usamos a microfonia como se fosse um instrumento musical, para trazer uma melodia dissonante e etérea para a faixa – como um ruído, uma dissonância quase irritante. Então, sim, apenas um loop de microfonia (feedback loop). Seria bem legal.

TMDQA!: Stefan, nossa conversa foi incrível. Meu nome é Eduardo e estou representando um site brasileiro chamado Tenho Mais Discos Que Amigos!. Você poderia listar alguns dos trabalhos que mudaram a sua vida e as razões para tal?

Stefan: Vamos lá! Provavelmente, o Violator do Depeche Mode é um deles. Eu achava as músicas deles e aquela escuridão fascinantes, além dos aspectos eletrônicos e da sensibilidade pop, acho que é um clássico absoluto desse gênero.

Também tem o White Album dos (The) Beatles, porque lançar um álbum duplo foi algo muito corajoso na época. Há tantos aspectos diferentes no que eles fazem ali, desde a super experimental “Revolution 9” até “Helter Skelter“, que é uma das primeiras músicas de rock pesado da história. Lembro de ouvir muito esse disco.

O Sonic Youth, que conheci quando mudei para Londres. Acho que o Goo é provavelmente o que mais influenciou a mim e à banda, no sentido de usar sons não convencionais na guitarra. Eles usavam afinações muito estranhas e incorporavam a microfonia como parte das músicas e da identidade sonora.
E tinha também aquela atitude muito foda e relaxada de: “não precisamos cantar músicas pop, nem precisamos deixar o cabelo crescer para ser heavy metal”. O Sonic Youth existia nesse gênero punk artístico (arty punk). Eles foram uma grande influência.

Para fechar… eu teria que ir muito mais longe no passado e escolher as Suítes para Violoncelo de Bach. Eu acho que ele abordava a música de uma forma muito matemática; ele olhava para o papel e tudo se transformava em uma espécie de equação. A maneira como as notas se encaixam, como modulam e se movem, e tudo feito em um único instrumento.
Ele cria toda uma atmosfera e a sonoridade de quase uma orquestra sinfônica usando apenas o violoncelo, essa precisão musical sempre me inspirou a tentar dizer o máximo usando o mínimo. Então, Bach sempre estará comigo como uma grande inspiração.

TMDQA!: Escolhas incríveis, cara, me surpreendi bastante. Muito obrigado pelo seu tempo, foi um grande prazer!

Stefan: Obrigado, cara! Tchau, tchau, se cuida.

Placebo RE:CREATED será lançado nessa sexta-feira (19/06)

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Eduardo Ferreira

“É como reencontrar um amigo que você não vê há muito tempo”: Stefan Olsdal fala sobre o retorno do Placebo


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