Cigarros e artistas pop: a glamourização do fumo pode afetar os fãs?
Nos últimos meses, diversos artistas têm incorporado o tabagismo em videoclipes, sessões de fotos, letras de músicas e aparições públicas, muitas vezes retratando o hábito de forma estética ou até mesmo sofisticada.
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Foto: Youtube | Sabrina Carpenter
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Madonna e Charli xcx foram vistas fumando juntas, Sabrina Carpenter aparece com cigarros nos clipes de “Manchild” e “House Tour”, Charli também fuma em “Rock Music”, enquanto Olivia Rodrigo faz referência ao tema em “Cigarette Smoke”. Katy Perry canta “light a cigarette” (“acenda um cigarro”, em português) em uma de suas músicas mais recentes e chegou a publicar um meme de um caranguejo fumando. Já Dua Lipa distribuiu cigarros durante seu casamento, enquanto Bebe Rexha, Chappell Roan, Addison Rae e Anitta também aparecem associadas ao cigarro em diferentes momentos de suas carreiras.
Embora a representação do cigarro na música e na moda não seja novidade, o retorno desse imaginário desperta um debate importante: até que ponto a forma como celebridades tratam o tabagismo pode influenciar seus fãs?
O poder da identificação com os ídolos
Para a psicóloga Sintia Navarro, a influência exercida pelos artistas vai muito além da música. Segundo ela, fãs costumam reproduzir comportamentos na tentativa de se aproximar de quem admiram.
“Não só o cigarro, mas outros vícios acabam gerando um impacto e sendo muito referência para os fãs, porque eles acabam copiando. Eles copiam estilo de vida, roupa, cabelo, cigarro, bebida, porque isso acaba tornando mais próximo do seu ídolo.”

Foto: Instagram @theperfectmagazine
A especialista afirma que já acompanhou casos de pacientes que começaram a fumar justamente motivados por essa identificação com artistas durante a adolescência. “Eu já tive alguns pacientes que começaram a fumar na adolescência para copiar o seu ídolo e, hoje, já são adultos e continuam tabagistas. O cigarro acaba sendo glamouroso. O jeito de segurar, a postura… eles copiam porque querem ficar cada vez mais parecidos com o cantor ou artista que admiram.”
O desejo já pode existir antes da influência
Apesar disso, o psicanalista Diego Vlada ressalta que a influência dos artistas não deve ser analisada isoladamente. Para ele, o cigarro pode funcionar como um gatilho para desejos que já existem de forma inconsciente.
“Muito possivelmente, o indivíduo pode reproduzir o comportamento do seu astro e consumir o cigarro, mas isso diz muito mais sobre os desejos inconscientes desse fã do que sobre a influência externa que ele recebeu.”
O especialista explica que, na psicanálise, diferentes pessoas encontram prazer em diferentes objetos ou comportamentos. “Algumas pessoas vão ter o objeto cigarro como um objeto de prazer, mas não necessariamente precisa ser o cigarro. Tem gente que vai trabalhar até a exaustão, estudar compulsivamente ou buscar outras formas de satisfação.”
Foto: Youtube | Charli xcx
Na avaliação de Diego, os artistas não seriam necessariamente responsáveis por criar esse desejo, mas poderiam funcionar como um estímulo para que ele se manifeste.
“Há uma camada mais profunda para o tabagismo. Os motivos que levam o indivíduo ao cigarro já estão encrustados nele e talvez — mas esse ‘talvez’ em letras garrafais — os artistas apenas deem um pontapé inicial para que esse desejo venha à tona.”
Adolescência é o período mais sensível
A psicóloga Cristiane Rosa destaca que essa influência tende a ser ainda maior durante a adolescência, fase em que a construção da identidade e o sentimento de pertencimento se tornam prioridades.
“Vamos pensar no que é um adolescente: um ser humano em transição, de criança para adulto. Nessa fase, estão descobrindo o mundo, os sentimentos e o próprio corpo. Eles precisam fazer parte de um grupo e passam a se espelhar em quem admiram.”
Segundo ela, nesse período, os pais deixam de ser a principal referência e dão espaço para professores, atletas, influenciadores e estrelas da música.
Foto: Youtube | Sabrina Carpenter
“O ídolo passa a ser um professor, um jogador de futebol, um amigo mais velho ou um pop star. Eles começam a querer ‘fazer igual para ser igual’. Passam a se vestir igual, a se comportar igual, trazendo uma sensação de pertencimento e importância.”
Embora a decisão de fumar envolva diversos fatores individuais, os especialistas concordam que a maneira como o cigarro é apresentado na cultura pop pode contribuir para normalizar ou romantizar o hábito, principalmente entre públicos mais jovens. Em um momento em que artistas voltam a incorporar o tabagismo como elemento estético, o debate sobre a responsabilidade dessas representações e seus possíveis impactos sobre os fãs ganha ainda mais relevância.
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Leonardo Nascimento
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