TMDQA! Entrevista: Bad Nerves e como o plano de nunca fazer shows levou a banda aos maiores festivais do mundo

Bad Nerves
Divulgação

Por Thais Lima

O Bad Nerves subiu ao palco do Lollapalooza Chicago 2026 por volta das 13h30, com o sol forte no Grant Park e uma temperatura acima de 30 graus, o que testa a resistência de qualquer pessoa disposta a sair da sombra.

Ainda assim, o público respondeu com rodas punk, mosh pits e energia suficiente para surpreender até os próprios integrantes da banda. Bobby Nerves, vocalista da banda, valorizou isso:

“Quando você toca tão cedo, não sabe o que esperar. Mas parecia que todo mundo estava realmente disposto a participar”.

O comprometimento da plateia ficou ainda mais evidente diante das condições daquele dia.

“Eu via as pessoas assando debaixo do sol e pensava: ‘Isso é dedicação’. Achei que elas fossem colocar o lugar em chamas.”

A entrevista ao Tenho Mais Discos Que Amigos! aconteceu logo depois da apresentação do grupo no festival norte-americano, realizado entre 30 de julho e 2 de agosto. Apesar do calor e do cansaço após um show explosivo, os britânicos mantiveram o mesmo humor caótico que costuma acompanhar suas músicas.

Quem é o Bad Nerves?

Formado em Essex, na Inglaterra, o Bad Nerves é um quinteto de power pop e punk rock, conhecido por suas músicas curtas, velozes e feitas para serem tocadas no volume máximo.

A própria banda descreve seu som como o resultado de um encontro entre Ramones e The Strokes. Na prática, a fórmula combina a velocidade do punk clássico, melodias grudentas e a urgência de grupos que parecem tocar cada música como se o palco pudesse desaparecer a qualquer momento.

O primeiro disco, Bad Nerves, foi lançado em 2020 e apresentou ao público faixas como “Baby Drummer”, “Can’t Be Mine” e “Dreaming”. Quatro anos depois, o grupo lançou Still Nervous, trabalho que expandiu sua sonoridade sem abandonar a energia frenética que se tornou sua marca.

A repercussão levou a banda a realizar turnês com artistas como The Hives, Nothing But Thieves, The Darkness e Green Day. Billie Joe Armstrong chegou a definir o Bad Nerves como a “melhor banda da Inglaterra”, um belo reconhecimento para um projeto que, inicialmente, nem sequer pretendia fazer shows.

Uma banda que não queria sair em turnê

Quando o Bad Nerves começou, o plano era simples: gravar algumas músicas por diversão e não levá-las aos palcos.

A ideia, obviamente, não durou muito.

“Depois que fizemos algumas músicas, gostamos demais delas e pensamos: ‘Na verdade, deveríamos tocar isso. Parece divertido’. E foi basicamente assim que aconteceu”. 

Desde então, o grupo trocou o conforto do estúdio por uma rotina de vans, aeroportos, equipamentos e apresentações ao redor do mundo. Ao final da entrevista, por exemplo, os integrantes ainda discutiam o próximo voo, a retirada de outra van e a continuidade da turnê antes de novos compromissos na Europa.

A experiência “difícil de colocar em palavras” com o Green Day

Em 2025, o Bad Nerves acompanhou o Green Day em sua turnê pela América Latina, incluindo apresentações no Brasil. A passagem incluiu uma apresentação em Curitiba, e um show cancelado no Rio de Janeiro. Sem o Bad Nerves, o Green Day ainda fez uma apresentação no The Town, em São Paulo.

Para os britânicos, a experiência com uma das maiores bandas da história do rock foi daquelas capazes de fazer qualquer músico reconsiderar o que ainda deseja alcançar na carreira.

“Foi exatamente como você imaginaria. É difícil colocar em palavras o quão incrível foi aquela experiência. Eles foram pessoas muito legais. É uma daquelas coisas que você coloca na lista de sonhos”, conta Jon Poulton, baixista da banda. 

Bad Nerves e o público sul-americano

A passagem com o Green Day não foi o único contato recente do Bad Nerves com a América do Sul. O grupo também havia se apresentado no Lollapalooza Chile 2026 e lamentou não ter integrado a edição brasileira do festival.

Ao comparar as plateias latino-americanas com as dos Estados Unidos e da Inglaterra, a banda destacou a intensidade com que o público da região vive os shows.

“As pessoas são muito apaixonadas por música. Você sente isso e consegue ouvi-las até mesmo quando está nos bastidores. Nos shows maiores, dá para perceber toda aquela loucura”, relembra Bobby.

A reação ganha uma dimensão ainda maior para músicos que cresceram em um lugar no qual, segundo eles próprios, o entusiasmo não é exatamente uma característica nacional, como completou Bobby:

“Nós viemos da Inglaterra, onde ninguém demonstra empolgação com nada. Então você vai à América do Sul e pensa: ‘Uau, as pessoas estão realmente felizes’.”

O desafio de criar o segundo álbum

Lançado em 2024, Still Nervous veio depois que o público já conhecia a identidade do Bad Nerves. Se no primeiro disco a banda podia trabalhar sem expectativas externas, no segundo passou a ter consciência de que havia fãs esperando por determinadas músicas e sonoridades.

Mesmo assim, o grupo procurou não criar pensando exclusivamente no que as pessoas queriam ouvir, como disse Bobby:

“É difícil fazer alguma coisa quando você está criando para outras pessoas. Você precisa manter a mentalidade de fazer aquilo para si mesmo. Caso contrário, não soa certo, não parece autêntico.”

Isso não significa ignorar completamente a opinião dos fãs, mas sim entender que repetir o primeiro disco seria uma tentativa artificial de recuperar algo que pertence a outro momento.

“Acho que a maioria das pessoas quer que um artista faça aquilo que acredita ser certo. Mesmo que elas pensem que querem ouvir algo igual ao que veio antes, você nunca consegue realmente copiar. Acaba sendo uma imitação ruim.”

Para o Bad Nerves, a necessidade de avançar também é uma maneira de manter o próprio processo interessante. “Não podemos simplesmente refazer o primeiro disco. Criar a mesma música repetidamente fica entediante”, lembra Jon. 

Os cinco discos que mudaram a vida do Bad Nerves

Para encerrar a conversa, fizemos a pergunta tradicional: quais cinco álbuns de outros artistas mudaram suas vidas?

As escolhas ajudam a explicar boa parte do DNA musical do grupo:

  • The Beatles — Abbey Road
  • The Clash — The Clash
  • Ramones — Ramones
  • Kraftwerk — Radio-Activity
  • Jay Reatard — Blood Visions

A banda ainda tentou incluir o próprio disco de estreia na seleção.

“O primeiro álbum do Bad Nerves também. Ele realmente mudou nossas vidas.”

A brincadeira resume bem uma trajetória que saiu de um projeto sem qualquer intenção de fazer shows para turnês internacionais, apresentações nos maiores festivais do mundo e uma sequência de oportunidades que nem os próprios integrantes imaginavam viver.

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