A evolução do funk, a força das mulheres e a nostalgia dos bailes, por Pocah

A funkeira Pocah é a 15º convidada da Coluna Pop, um espaço no POPline para os artistas expressarem suas opiniões, anseios e perspectivas sobre música e mercado, e compartilharem histórias pessoais, em comemoração aos 20 anos do portal.

Comecei minha carreira no funk em 2010, em uma época em que o protagonismo feminino estava muito forte. Valesca, Sabrina e Marcelly eram algumas das mulheres que eu admirava e que me inspiravam. Eu olhava para elas e entendia que também queria ocupar aquele espaço. Hoje, depois de 17 anos de carreira, consigo olhar para trás e perceber o quanto o funk mudou, cresceu e conquistou novos territórios.
Quando comecei, a gente tinha uma dinâmica muito diferente para divulgar a música. As rádios eram fundamentais, fazíamos promoções, participávamos de shows ligados às emissoras e os bailes de comunidade tinham uma importância enorme para os artistas. Também existiam os DVDs de funk, produzidos por diferentes equipes e que ajudavam a levar o trabalho dos MCs para muito mais gente. A televisão tinha outro peso, e cada uma dessas frentes contribuía para que as músicas chegassem ao público.
Essa viagem pela história do funk também está presente no Baile da Pocah, que construí pensando nessa relação entre passado e presente. A proposta é reunir diferentes fases do gênero em uma experiência que passa por músicas que marcaram gerações e sucessos que representam a cena atual. No repertório, revisito referências como Bonde do Tigrão e Valesca, relembro artistas que marcaram outros momentos, como MC Magrinho, e percorro diferentes épocas do funk até chegar aos sons de hoje. Quero que o público reconheça essas músicas, relembre momentos da própria vida e perceba como o gênero continua se transformando.
Hoje, os artistas do gênero estão em campanhas de grandes marcas, em festivais de diferentes estilos e em espaços que, no início da minha carreira, eram mais difíceis de alcançar. O mercado internacional também não é uma novidade absoluta. Tati Quebra-Barraco, por exemplo, já fazia shows fora do Brasil naquela época. O que vejo agora é um movimento de expansão ainda maior, com o funk ocupando outros mercados sem deixar de lado suas raízes.
Quando penso nesses 17 anos de carreira, também percebo como a comunicação foi importante para a expansão do funk e para a forma como o gênero passou a ser reconhecido como parte da música pop brasileira. Durante muito tempo, o mercado consumia principalmente o pop internacional, com nomes como Beyoncé, Rihanna e Taylor Swift ocupando grande espaço na cobertura musical. Veículos como o POPline tiveram um papel importante ao abrir espaço para artistas brasileiros, aproximando o funk do universo pop e ajudando a levar essa música a públicos cada vez maiores. Esse olhar contribuiu para ampliar a visibilidade do gênero e mostrar que o funk também faz parte da cultura pop do país.
Mas, mesmo com todo esse crescimento, ser mulher no funk continua sendo um desafio. Historicamente, o gênero sempre teve uma presença masculina muito forte, e nós nunca tivemos tantas representantes ocupando os principais espaços. Conseguir lugar nos lineups de casas de shows, baladas e festivais nem sempre foi fácil, mesmo quando tínhamos músicas de sucesso, público e fãs pedindo nossa presença. Existe uma luta constante para que as mulheres sejam reconhecidas e tenham oportunidades de ocupar esses palcos.
Outra questão que marcou minha trajetória foi a pressão estética. Comecei muito nova, e as pessoas criavam uma imagem do que esperavam de uma funkeira. Eu me lembro de como era ser apresentada em um show e perceber que o público tinha uma expectativa diferente sobre a minha aparência. Eu era uma menina magrinha, usava boné e tinha meu próprio estilo. Muitas meninas se identificavam comigo, usavam acessórios parecidos e se vestiam de uma maneira que lembrava a minha. Isso criou uma relação de representatividade muito bonita, especialmente com o público feminino e LGBTQIA+, que sempre esteve muito presente na minha trajetória.
Ao mesmo tempo, eu também sentia a pressão para me encaixar em determinados padrões. Coloquei silicone, por exemplo, porque queria me sentir mais feminina diante das cobranças que recebia. Naquele momento, foi uma decisão muito influenciada pela pressão externa e pela vontade de pertencer. Hoje, consigo reconhecer o quanto isso pode ser cruel. Não é uma questão exclusiva do funk: mulheres de diferentes áreas convivem com a cobrança para corresponder a uma imagem idealizada. Com as redes sociais, essa comparação ficou ainda mais presente. A gente olha para outras pessoas, se compara e, muitas vezes, deixa de reconhecer a própria beleza.
Existe uma nostalgia muito forte em torno das músicas que marcaram diferentes épocas, e eu mesma gosto de ouvir os funks antigos. São músicas que carregam lembranças, histórias e momentos que continuam vivos na memória de quem acompanhou essa trajetória.
Acho muito interessante perceber como essas músicas continuam conectando diferentes gerações. No Baile da Pocah, quero proporcionar justamente essa experiência de viagem no tempo, mostrando que o funk não parou no passado. Ele se transformou, alcançou novos públicos e continua produzindo artistas e sucessos, mas as músicas que abriram caminhos seguem fazendo parte dessa história. Para mim, celebrar o funk também é reconhecer quem veio antes e entender a importância de cada fase para o que o gênero representa hoje.
Tenho orgulho de ter começado em uma época em que mulheres como Valesca, Sabrina e Marcelly me inspiravam e de fazer parte de uma história que continua sendo escrita. Sigo acompanhando as mudanças do funk e vendo como ele encontra novas formas de chegar ao público. O Baile da Pocah representa um pouco disso: a oportunidade de celebrar minhas próprias referências, compartilhar essas memórias com os fãs e mostrar que a história do funk continua viva.
Pocah
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