Americanos gastam mais com bets do que cultura, diz estudo

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A rápida expansão das apostas esportivas no mundo vem transformando o setor em uma das maiores formas de entretenimento do planeta. Nos Estados Unidos, por exemplo, o segmento das bets já superou, em volume financeiro movimentado, diversas indústrias culturais tradicionais.

Em 2025, os americanos apostaram oficialmente cerca de R$855,5 bilhões em eventos esportivos, montante que ultrapassa com ampla margem a soma das receitas obtidas por cinemas, música, livros e museus.

Para efeito de comparação, a bilheteria de cinemas no país arrecadou R$45,5 bilhões no ano passado, permanecendo 22% abaixo dos níveis registrados antes da pandemia. Já a receita da música gravada atingiu o recorde de R$59 bilhões, enquanto o segmento de música ao vivo, incluindo shows e festivais, movimentou R$95 bilhões.

Ao mesmo tempo, as editoras de livros monitoradas pela Associação de Editoras Americanas (Association of American Publishers) registraram faturamento de R$75 bilhões, e o setor de museus dos EUA gerou aproximadamente R$84,1 bilhões. Somadas, as atividades alcançam cerca de R$359,2 bilhões, menos da metade do volume movimentado pelas apostas esportivas.

Especialistas falam sobre substituição da cultura por bets

Segundo Martin “Marty” Conway, professor adjunto do programa de Gestão da Indústria Esportiva da Universidade de Georgetown, as apostas passaram a ocupar um espaço antes destinado a outras formas de lazer e hospitalidade (via Fortune):

Isso preenche uma lacuna e, certamente, vai acabar ocupando o espaço de outras formas de entretenimento e hospitalidade.”

Para ele, a popularização das plataformas de apostas ampliou significativamente o envolvimento dos torcedores com os eventos esportivos, destacando ainda a presença de apostas que vão além do resultado, incluindo, por exemplo, fatores como número de cartões amarelos, escanteios e outros pequenos acontecimentos em jogos de futebol:

Eles pegaram algo que se resumia a ‘quem vai ganhar’ e agora permitem que você se envolva em outros eventos específicos da partida. Isso representa uma forma de engajamento diferente do que conhecíamos anteriormente.”

Apesar da dimensão já impressionante do mercado legal, especialistas afirmam que o volume real de apostas é consideravelmente maior. Isso ocorre porque diversos estados permitem operações por meio de cassinos administrados por tribos indígenas, especialmente na Flórida, além de Washington e Wisconsin, que não são obrigados a divulgar publicamente o volume total de apostas (handle).

Victor Matheson, economista da Holy Cross especializado em apostas esportivas, estima que somente a Flórida represente entre R$25,6 bilhões e R$51,3 bilhões adicionais. Em entrevista à Fortune, ele afirmou que o número estimado pelo estudo deve ser considerado “baixo”.

Além disso, os dados oficiais não incluem as apostas realizadas em plataformas de mercados de previsão, como Kalshi e Polymarket, que expandiram rapidamente sua atuação para contratos esportivos após obterem autorização para isso e podem movimentar entre R$256,6 bilhões e R$513,2 bilhões por ano, segundo Matheson.

Considerando também as apostas realizadas em cassinos indígenas que não divulgam dados, o economista estima que o volume efetivo de apostas esportivas nos Estados Unidos em 2025 possa alcançar aproximadamente R$1,3 trilhão.

Tal número, entretanto, exige uma interpretação cuidadosa. O chamado handle representa o valor bruto apostado, e não o gasto efetivo dos consumidores. Como mais de 90% do dinheiro apostado retorna aos jogadores na forma de prêmios, os cerca de R$5 mil apostados em média por cada adulto americano correspondem a uma perda líquida próxima de R$500 ao longo do ano.

Para Matheson, esses valores, isoladamente, não caracterizam uma crise de saúde pública:

No geral, isso não parece ser realmente uma crise.”

O que acha por aí?

A concentração das perdas financeiras no mercado das bets americanas

Vale destacar que as perdas financeiras não são repartidas de maneira uniforme. Estima-se que aproximadamente 95% do total perdido fique concentrado em apenas 5% dos apostadores, pequeno grupo de usuários intensivos cujos gastos estão muito acima daqueles realizados pelo torcedor ocasional que coloca R$100 em uma aposta combinada durante o final de semana.

Martin Conway, que acumulou três décadas de experiência como executivo da Major League Baseball, do Baltimore Orioles, do Texas Rangers e da AOL, explicou que as plataformas de apostas são estruturadas justamente para identificar, monitorar e reter os usuários de maior valor:

Elas conseguem identificar: ‘Olha, essa pessoa não participa há duas semanas. Preciso enviar uma oferta para estimulá-la.’ Elas são muito eficientes no uso de dados internos para monitorar quando as pessoas estão deixando de apostar.”

Nesse contexto, as promoções de apostas gratuitas, utilizadas nas campanhas publicitárias das empresas do setor, cumprem um papel estratégico. Segundo Conway, a prática deriva do antigo mercado ilegal de apostas, no qual apostadores recebiam crédito para continuar jogando após uma perda.

Hoje, as chamadas “apostas grátis” funcionam como incentivo para trazer usuários de volta às plataformas, como Martin contou:

A melhor palavra do marketing em toda a história dos negócios sempre foi ‘grátis’. E, neste caso, eles fazem parecer que é algo gratuito, embora saibamos que, na realidade, não é.”

A velocidade da expansão ajuda a explicar a dimensão atual do mercado. Até 2018, as apostas esportivas eram proibidas na maior parte do território americano. A mudança ocorreu quando a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a proibição federal, abrindo caminho para a legalização estadual.

O processo resultou em uma das mais rápidas expansões de uma atividade de consumo na história recente do país, com o volume anual de apostas passando de R$33,8 bilhões no primeiro ano após a decisão para R$852,1 bilhões em 2025. Para Victor Matheson, que acompanha há décadas o mercado britânico, essa evolução era esperada.

Segundo ele, os estados americanos que adotaram modelos mais abrangentes de legalização, como Nova Jersey, Nova York, Massachusetts, Colorado e Arizona, já apresentam níveis de apostas por habitante semelhantes aos registrados no mercado britânico, superando R$5,1 mil por adulto por ano.

Se houvesse um estudo minucioso das bets no Brasil, seria bem capaz de termos um cenário muito tenebroso como esse, né?

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Gabriel von Borell

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