Após “tapas na cara”, Colomy lança novo álbum: “Deixamos a ingenuidade para trás”

A mudança de ciclo na carreira de uma banda de rock costuma vir acompanhada de renúncias, maturidade e confrontos com a realidade. Representantes da nova geração do gênero no Brasil, os integrantes da Colomy lançam seu segundo álbum de estúdio, “Pra Quem Andou Perdido” e não se esquivam de analisar as barreiras da cena atual. Para o trio gaúcho, o amadurecimento veio acompanhado de uma visão crítica sobre a própria audiência do estilo.

Após antecipar o projeto com os singles “Causas Naturais” e “Rádio”, a banda reúne nove faixas que acompanham o percurso emocional de quem precisa atravessar o intervalo entre um fim e um recomeço. Ancorados por participações de ícones como Guilherme Arantes, Peter Buck (ex-R.E.M.) e Barrett Martin (Screaming Trees/Mad Season) — além do apadrinhamento contínuo de Nando Reis —, os músicos explicam que encarar o mercado sem romantismo foi essencial para que o trabalho nascesse.

A maturidade por trás de “Pra Quem Andou Perdido”, novo álbum da Colomy

Ao definir o novo projeto como o trabalho mais maduro da trajetória do grupo, os músicos destacam que o processo de composição exigiu deixar velhas concepções para trás. Para que o álbum existisse com essa densidade, a ingenuidade deu lugar a uma visão concreta sobre a vida pessoal e a carreira.

“A gente é músico, sonhador, então tem uma tendência à cabeça nas nuvens e a enxergar a vida de forma romântica. Esse disco trouxe uma visão concreta das coisas depois que a gente tomou uns tapas na cara. Esses tapas fazem a gente acordar e passar a enxergar dentro da realidade”, revelou a banda durante a entrevista.

As transformações pessoais refletiram diretamente no conceito do disco. O integrante Lipa reforçou que o álbum é a consequência dessas grandes modificações: “Deixei a minha concepção de amor-paixão para trás para admitir uma nova, que é o amor verdadeiro em várias esferas. O álbum é o produto final desse episódio da nossa vida.”

“O público de rock parou no tempo”: Colomy reflete sobre saudosismo e à falta de atualização

Questionados sobre a perda de espaço do rock nos charts e nas plataformas digitais, os integrantes rebateram o velho clichê de que o gênero está morrendo — lembrando que essa conversa existe desde o fim dos Beatles. No entanto, o trio apontou falhas diretas no comportamento do próprio meio musical e de seus ouvintes.

Para a Colomy, existe uma resistência cultural que impede o estilo de furar a bolha do mainstream no Brasil:

  1. O saudosismo do ouvinte: “O consumidor de rock do século passado tem uma tendência muito grande ao saudosismo. Ele vai gostar de Led Zeppelin e Rush, mas vai ter uma dificuldade gigante de ver bandas novas sem soltar críticas. Ele não dá o play. Acho que o público de rock, em geral, parou um pouco no tempo.”

  2. Acomodação das bandas: “Faltou para o rockeiro, principalmente nos anos 2000, se atualizar nas temáticas e abordagens, para não soar apenas como mais uma banda tentando ser alguma outra que já existiu.”

Apesar das críticas ao cenário nacional, eles destacam que o rock segue forte no underground — citando a jovem banda paulistana Venere Vai Vê-nos — e lembram que em países vizinhos, como a Argentina, o rock nacional continua lotando estádios para 30 mil pessoas como música popular.

Da MPB ao Grunge: Como Guilherme Arantes e Peter Buck entraram no novo álbum da Colomy?

Um dos pontos altos de “Pra Quem Andou Perdido” é a ponte geracional construída através das colaborações. O trabalho une referências que vão da complexidade harmônica do rock progressivo brasileiro ao rock alternativo internacional.

A oportunidade de gravar com Guilherme Arantes, Peter Buck e Barrett Martin foi vista pelo grupo como uma validação de sua própria identidade musical:

“Ficamos muito honrados. Eles significam para a gente muito do que acreditamos na música. O Guilherme Arantes é um compositor maravilhoso, que se preocupa com as harmonias e vem desse lugar do rock progressivo. Trazer essas pessoas ajuda a mostrar para o público o nosso lugar e as nossas influências.”

Colomy fala sobre o desafio de criar conteúdo digital sem perder a essência

Se nos palcos o trio demonstra segurança, a adaptação às dinâmicas de vídeos curtos do Instagram Reels e TikTok trouxe um desafio geracional para os músicos. Vindo de uma rotina focada em estúdio e estrada, a banda precisou encontrar uma linguagem que não parecesse forçada.

A saída foi abraçar o humor e a espontaneidade, inspirando-se em bandas como Green Day e Foo Fighters:

“Se a gente não achar um canal para levar nossa música, hoje ninguém ouve. A gente precisava achar um jeito de falar sem se sentir constrangido. Nós sempre fomos muito palhaços no nosso ciclo íntimo, então usar o humor nas redes foi o caminho para que parecesse natural.”

Por onde começar a ouvir? Colomy recomenda 3 faixas do novo álbum

Para os ouvintes que querem imergir nas nove faixas de “Pra Quem Andou Perdido”, cada integrante apontou a sua porta de entrada favorita para o projeto, deixando os singles já conhecidos de fora:

  • “Tudo Vale Ingresso” (Indicação do Lipa): Aconselhada como a conclusão narrativa do projeto. Segundo o músico, a faixa não segue uma história linear, mas funciona como um resumo que reúne pequenas “gotículas” de tudo o que é abordado ao longo do álbum.

  • “Se Ainda Existe Amor” (Indicação do Sebastião): Uma power ballad emocionante que explora aberturas de voz inéditas para o grupo, trazendo a participação marcante de Guilherme Arantes ao piano e culminando em um solo potente de guitarra.

  • “Eu Tive Que Matar Você” (Indicação do Eduardo): A primeira incursão oficial da Colomy no blues. O guitarrista destaca a faixa como uma de suas favoritas do disco, impulsionada por uma letra densa e arranjos inéditos na discografia do trio.

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Bruna Cora

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