Aquela euforia nostálgica por trás de ‘reunions’ de bandas tem um limite de interesse para o fã?

Uma das engrenagens que têm feito a indústria musical girar é justamente ‘reunions’ de bandas, grupos ou projetos musicais que fizeram muito sucesso anos – por vezes, décadas – atrás e que por algum motivo saíram de cena. A nostalgia vende, é um produto que mexe com o imaginário do público. Além de esses grandes ‘comebacks’ serem norteados, para o fã, por um senso de escassez e de urgência, eles envolvem a realização de sonhos que ficaram perdidos lá atrás – geralmente na infância ou adolescência – e uma conexão profunda não só com o artista, mas com o ‘eu’ do passado, com épocas que no imaginário vêm acompanhadas de conforto e com memórias afetivas.

A nostalgia é um produto potencialmente atrativo e que envolve várias nuances, e não é equívoco dizer que muitas dessas bandas orquestraram um reencontro justamente por ver um fortalecimento desse movimento nos últimos anos. Querendo ‘surfar’ no hype, garantir a sua ‘fatia’ no contexto desse fenômeno. Geralmente funciona. Uma demanda absurda que se desdobra em engajamento nas alturas nas redes sociais, casas de show lotadas e aumento expressivo no número de plays nas plataformas.

Mas, e quando essas turnês de reencontro ou projetos comemorativos se esticam, às vezes perdurando por anos? É algo que se expõe ao risco de, por acontecer com muita frequência, ter uma tendência a perder força e se desgastar. O que era especial passa a ser previsível. Diante desse cenário, passado aquele momento inicial e com os ânimos mais controlados, a nostalgia tende a se esvaziar? É possível que o interesse dos fãs se mantenha intacto?

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Foto: deanie chen

Um desdobramento desse fenômeno que está em curso agora: os Jonas Brothers, que viveram o auge de sua carreira ali pela ‘meiuca’ entre 2008 e 2010, têm show marcado no Brasil para o próximo dia 13 de maio, em pleno Allianz Parque, em São Paulo. O estádio possui capacidade para até 55 mil pessoas e, agora, quase um mês e meio após a abertura das vendas, ainda há ingressos do tipo meia-entrada para todos os setores, até mesmo Pista Premium. Geralmente esses são os primeiros a esgotar.

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Foto: Ticketmaster Brasil

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Foto: Ticketmaster Brasil

O trio está na estrada com a turnê em que celebram os 20 anos de história da banda, a “JONAS 20 – GREETINGS FROM YOUR HOMETOWN”. Apesar de ser algo visto como especial e uma oportunidade única por muitos fãs, não tem tanto tempo assim desde que Joe, Nick e Kevin Jonas se apresentaram por aqui.

Em 2024, quando vieram pela última vez, eles estavam sem vir ao Brasil há 11 anos. Inclusive, aquela foi a primeira vez que fizeram show aqui desde o ‘comeback’ da banda, que retornou às atividades em 2019. Agora, o cenário é outro. A espera pelo retorno do trio não foi de mais de uma década, mas sim de “apenas” dois anos. A euforia nostálgica é menor. Consequentemente, a demanda também diminui.

Alinne Torre, Larissa Ricucci e Mayara Andrade são as figuras por trás do fã-clube Jonas Brothers Brasil (@jonasbrothersbr no Instagram), que já está no ar há 18 anos. Elas, que transformaram o amor pela banda em estilo de vida, estão habituadas a romper barreiras geográficas para ir atrás dos irmãos em outras regiões do mundo. É praticamente como se, quando eles saem em turnê, elas dão um jeito de sair em turnê junto com eles.

“Quando essa ‘reunion’ acontece, ela concentra uma demanda reprimida gigantesca. É diferente de agora: com a vinda mais recente, o público já teve essa experiência, então a urgência diminui, não necessariamente o interesse. A base continua forte, mas o comportamento muda”, avaliam elas a respeito da demanda que se revela agora para o show do trio.

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Foto: Instagram/@alinnetorre

A sensação de escassez é um combustível que sustenta a nostalgia

Nenhum fã gosta de se ver no ‘deserto’, quer dizer, num período sem novidades ou lançamentos por parte de seus artistas favoritos. Mas quando se fala em artistas que entraram em hiato ou bandas/grupos que de fato encerraram suas atividades, a escassez é algo que passa a marcar essa relação e se torna até atrativo no imaginário do público. É fácil se tornar um fascínio reviver alguma memória de um show ou interação e pensar: “será que ainda vou viver isso de novo?”.

Quando calha de o reencontro acontecer, é aquela euforia nostálgica, aquela realização imediata. É algo que se impõe a ser vivido com urgência, com intensidade. Afinal, pode ser a última chance na vida! Porém, quando esse projeto ressurge e se mantém na estrada por muito mais tempo, essa escassez deixa de existir, o que tende a fazer com que o interesse esfrie e o fã mude de comportamento.

Daniel Aguiar, Editor Sênior da Deezer para a América Latina, reflete a respeito dessa sensação: “A nostalgia tem um prazo de validade porque ela se alimenta de algo muito poderoso, que é a sensação de escassez. O grande segredo de um retorno triunfal, e o que faz a banda gerar números absurdos de plays, lotar estádios e quebrar a internet, é justamente a ideia de que aquilo é um evento único e que talvez nunca mais se repita. O fã consome aquela experiência com um senso de urgência”.

Esse aumento de interesse que está atrelado à sensação de escassez, de fato, não se restringe apenas à ‘reunions’ de grandes bandas e reencontros marcados pela nostalgia. É no que acredita a página D1sney Terapia (@d1sneyterapia no Instagram), que é um ‘prato cheio’ para os saudosos fãs da ‘era de ouro’ do Disney Channel com um compilado de memes, nostalgia e ‘surtos 2000’ e que soma 313 mil seguidores na rede social.

“Qualquer artista que está sempre muito presente no Brasil por exemplo pode ter menos demanda do que quando é algo inédito”, diz. É uma ideia que talvez possa explicar os motivos que levam grande parte do público reclamar tanto quando grandes festivais repetem as mesmas atrações todo ano em seus line-ups, ou de apontar um desgaste na imagem de artistas internacionais que estão sempre fazendo shows por aqui – como é o caso de nomes como Maroon 5, Ne-Yo e Jason Derulo.

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Maroon 5. Foto: Travis Hartley Schneider

A nostalgia se transforma e acessá-la uma única vez pode ser o suficiente para uma parcela dos fãs

Para além do fator da escassez, a nostalgia encontrar ou não um limite pode depender pela maneira particular que cada fã tem de se realizar. E o quanto se é fã de um artista pode ser outro fator determinante aqui. Para uma grande parcela do público, acessar essa nostalgia, indo a um show de uma banda que retorna à cena, pode representar uma realização que já se resolve ali, uma única vez.

Por vezes, pode parecer mesmo um fechamento de ciclo, quase como uma reparação histórica, sensações essas que comumente preenchem o coração de um fã quando, na infância ou adolescência, momento de ápice do consumo daquele artista pelo grande público, essa pessoa não teve a oportunidade de ir a um show ou ter um contato mais íntimo com seu ídolo. Tendo ficado ali uma dívida, dívida essa que fica adormecida, mas sempre à espreita por uma eventual oportunidade de ser resolvida: quando a banda anuncia seu então ‘comeback’.

A página Vida nos 30 (@vidanos30 no Instagram), que acumula 293 mil seguidores, analisa esse movimento: “Quando a gente tem um ‘comeback’ depois de muitos anos, vem aquela euforia absurda pelo reencontro, e às vezes até a emoção de poder viver algo que ficou pendente lá atrás. E nesse momento, o interesse é tão avassalador justamente porque é algo que parecia impossível de acontecer. Com o tempo, se esses retornos vão ficando frequentes, a nostalgia não some, mas ela fica um pouco mais calma. Até porque o impacto deixa de ser ‘MEU DEUS, FINALMENTE!!!!!’ e vira ‘ai que legal que eles voltaram!’. E isso afeta a demanda, ainda mais para quem já foi uma vez e sentiu que aquele sonho já foi realizado”.

Para o trio que alimenta o Jonas Brothers Brasil, quando uma banda ressurge após um hiato e decide se manter ativa na cena por mais tempo, o que acontece é uma redistribuição da necessidade de consumo por parte do fã. “Não acreditamos que exista exatamente um ‘limite’ para a nostalgia, mas sim uma transformação dela. No primeiro ‘comeback’, ela é explosiva. O emocional faz a pessoa gastar, faltar ao trabalho. Nos seguintes, ela vira um vínculo contínuo, mais estável e menos impulsivo. Ou seja: a demanda não some, mas se redistribui a necessidade”, dizem Alinne, Larissa e Mayara.

Às vezes, o limite que a nostalgia encontra não está no interesse, mas no bolso dos fãs

Quando o NX Zero anunciou seu reencontro após um longo período de hiato, retornando aos palcos em 2023, a novidade abalou todas as estruturas de Marina, fã de carteirinha da banda. De Salvador, a coordenadora de social media e fotógrafa deu seu jeito para viabilizar viagens para assistir a shows de Di Ferrero e companhia em outros estados, mas entende que nem sempre é viável financeiramente, ainda que exista a vontade de ‘morar’ dentro dessa nostalgia por muito mais tempo…

“Se pudesse, iria em vários shows dos Jonas Brothers, mas a vida adulta traz limites de tempo e dinheiro. E tem também uma questão prática: com o ‘comeback’ do NX Zero, por exemplo, por ser uma banda nacional, foi muito mais fácil acompanhar mais de um show. Já com artistas internacionais, tudo envolve um custo maior. No fim, cada um vive essa nostalgia do jeito que pode”, conta ela, que à época do ‘comeback’ do NX viajou para ver a banda em festivais como MITA e Rock in Rio.

Fundadora da página sobre cultura pop FALA AÍ, BABI! (@falaaibabi no Instagram), seguida por 195 mil pessoas, a jornalista Bárbara Martins pontua que, para além da limitação financeira, a falta de tempo e os compromissos de trabalho são outros fatores que podem ser limitantes para que um fã continue embarcando nessa atmosfera da nostalgia a longo prazo. Ainda sobre os Jonas Brothers, o trio se apresentou em São Paulo, em 2024, numa terça-feira. Já no mês que vem, o show cai numa quarta.

“Eu fui no show do RBD em 2023, já que não tive condições de ir quando era criança, então foi um mega sonho realizado pra mim. Mas se eles anunciassem uma nova turnê, eu com certeza iria novamente. Porém, reconheço que a grande maioria vai uma única vez e isso já é o suficiente, até porque (falando agora das pessoas que moram no interior) viajar tem um custo muito alto, além de que os adultos que são CLT, dependem também da liberação do trabalho pra conseguir ir nesses shows. Nem vou comentar o preço dos ingressos, que também dificulta bastante [risos]”, avaliou Bárbara.

Conexão profunda que não é só com o artista, mas também com nosso ‘eu’ do passado

O sentimento de fã é uma coisa plural e que pode se desdobrar de múltiplas formas. Uma delas é o entendimento de que toda essa euforia nostálgica alimentada por uma banda pode não ser necessariamente pelo estilo das músicas, pelos vocais, a estética dos projetos ou a presença de palco daquele artista, mas por tudo aquilo que ele representa. E, geralmente, rebobinar a fita é essencial para compreender isso. É uma força que vem do passado e que cria uma ponte de conforto com o que ficou lá atrás.

É mais do que ser fã do artista, é ser fã da capacidade que ele traz de nos transportar a um passado que fazemos questão de lembrar. Vai muito além de uma melodia que soe inovadora ou de uma letra de alto impacto, são trilhas sonoras que embalaram quem éramos, o que fazíamos, com quem convivíamos, com o que sonhávamos e como vivíamos em uma época. É, de fato, uma conexão profunda com nosso ‘eu’ do passado.

“Quem volta várias vezes vive outra coisa com a nostalgia: ali é um abrigo. Ir ao show é quase como ‘voltar pra um lugar seguro’, pra uma fase da vida que parecia mais leve. Então aquele show é um refúgio, pra onde você sempre pode voltar. Seja qual for o sentimento de cada um, o denominador comum é que a nostalgia faz uma ponte entre quem a gente foi e quem a gente é hoje, e isso é muito especial”, reflete a Vida nos 30.

Aos olhos da D1sney Terapia, trata-se de experiências que se repetem e que, a partir de lugares que revisitamos pela nostalgia, renovam nosso combustível para seguir em frente com a vida adulta e todas as dificuldades que podem vir junto a ela. “Reviver o passado, para alguns, é como abraçar suas origens, se conectar com seu ‘eu’ do passado e isso toca em um lugar muito sensível na vida adulta, aquela visão de tempos mais fáceis. É como fugir da realidade e ganhar mais forças para continuar na vida adulta, que é muito difícil. Por isso, muitos não se cansam: é como renovar as energias e a expectativa de vida toda vez que vivenciam momentos assim”.

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Pe Lu, da Restart, e um outro ponto de vista sobre os limites que a nostalgia pode encontrar: o lado do artista

Ao contrário do que fizeram Joe, Nick e Kevin Jonas, que cravaram seu ‘comeback’ em 2019 e se mantêm ativos como banda até hoje, a Restart se reencontrou, mas não veio pra ficar. Pe Lu, que conversou com o POPline, inclusive endossa que a “Pra Você Lembrar” não foi uma turnê de ‘comeback’, mas sim de despedida. Isso porque, lá atrás, em 2014, quando o quarteto decidiu parar, eles não tiveram um momento íntimo para dizer adeus aos fãs.

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Foto: Rafael Strabelli

À época da ‘reunion’, que se desdobrou nos palcos entre 2023 e 2024, a Restart optou por não lançar nenhuma música inédita e focar 100% no repertório de clássicos da banda. Para Pe Lu, porém, se fosse para se manter na ativa como optaram os Jonas Brothers, a dinâmica teria que ser outra e avalia que isso poderia impactar nessa ideia de nostalgia. “Aí sim a gente iria pro estúdio, teria que fazer um trabalho novo, lançar um disco novo, trabalhar novas músicas. O normal de um artista. E aí acho que, em algum nível, deixaria de ter essa conexão direta com a nostalgia porque a gente estaria trabalhando, estaríamos ativos”, disse.

“Acho que o público, em algum lugar, sempre vai estar aberto a reviver… Falando no caso da Restart, acho que fez parte da vida das pessoas em um momento ali que a gente tem muita nostalgia. Que é uma adolescência, início da vida adulta, esses anos ali dessa juventude ‘mais jovem’ em que todo ser humano, em algum nível, tem alguma nostalgia dessa época. A banda tem a sorte de fazer parte do imaginário das pessoas nesse lugar, e outros artistas e bandas que ocupam esse mesmo lugar vão ter sempre a possibilidade de mexer em algum nível dessa coisa de quererem reviver”, destaca Pe Lu.

Na visão do artista, um projeto que é retomado sob o mote da nostalgia precisa necessariamente ter começo, meio e fim. “Acho que tem um limite no sentido de, se você vende um produto que é ‘puts, vamos reviver esse momento’, tem um limite, porque faz sentido isso uma ou duas vezes, e aí, talvez, em muito tempo, você reviver de novo esse momento. Acho que espaçado pode fazer sentido. Mas perde quando é uma coisa nostálgica, que brinque com a nostalgia, não ter um fim estipulado. Acho que fugiria da proposta”, pontua o cantor, que fez barulho ao início dos anos 2010 e que, junto à Restart, moldou o senso estético de toda uma geração naquele período. Não tem quem não lembre das calças skinny e armações de óculos coloridas.

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Foto: Instagram/@restartoficial

A construção de um show do zero – nostalgia que vem acompanhada de um grande desafio para produtores

Alguns dos ‘comebacks’ mais emblemáticos do pop nacional aconteceram nos palcos do Chá da Alice, evento criado por Pablo Falcão e Pedro Nercessian que circula desde 2009.

Já tendo apresentado ao público espetáculos inéditos de artistas como Xuxa, Anitta, Ludmilla, Luísa Sonza, Kelly Key e É o Tchan, o evento entrega uma experiência sensorial completa. A proposta é transportar os convidados para dentro de um universo lúdico e encantador que tem por inspiração o clássico “Alice no País das Maravilhas”. A ideia sempre foi de que o público não fosse apenas espectador, mas parte ativa da experiência.

No que se refere às atrações musicais escolhidas, podem ganhar um Chá pra chamar de seu artistas em ascensão, que estejam surgindo e movimentando a cena no presente, como foi o caso de Pabllo Vittar no apoteótico ano de 2017, quando ela causou ao lançar seu álbum de estreia, o “Vai Passar Mal”. Ou, ainda, escalar artistas que mobilizaram legiões de fãs anos atrás, mas que já não sejam mais ativos na indústria, a exemplo do Rouge, que já encabeçou algumas edições pontuais da festa desde o fim do grupo, em 2006.

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Foto: Instagram/@falcaopablo

“[As atrações escaladas] podem seguir dois caminhos. O primeiro é quando trabalhamos com artistas em ascensão — talentos que estão começando agora. Nesse caso, buscamos alinhar a energia do evento com a identidade desse artista, criando uma conexão entre o nosso universo e essa nova força que está surgindo no mercado. O segundo caminho é quando trazemos artistas que já fazem parte da memória afetiva do público. Aqui, o trabalho é outro: mergulhamos nesse universo para resgatar sensações, despertar lembranças e recriar aquela essência que marcou uma época. É quase como proporcionar uma viagem no tempo — um reencontro com emoções já vividas”, destaca o produtor Pablo Falcão, um dos criadores do Chá da Alice.

Entre trazer edições encabeçadas por novos artistas em ascensão ou aquelas que se apresentam com tom de ‘comeback’, Pablo diz que não há uma diferença discrepante quanto ao retorno financeiro. O que muda – e muito – é a exigência e o preparo em relação à estrutura do show.

“No caso dos artistas em ascensão, muitas vezes eles já vêm com uma estrutura mais pronta — banda, equipe técnica, direção musical — o que otimiza parte desse processo. Por outro lado, quando falamos de artistas ligados à memória afetiva, o cenário costuma ser diferente. Em geral, são artistas que não estão em circulação ativa, então não contam com uma estrutura montada. Isso faz com que a gente precise construir praticamente todo o espetáculo do zero: banda, arranjos, direção musical, além de toda a parte criativa. Por isso, nesses casos, o investimento tende a ser mais alto. Mas é justamente esse cuidado que permite resgatar a essência, recriar a atmosfera e entregar uma experiência potente, que realmente conecta o público com essa lembrança”, avalia o produtor.

Agora é um momento em que Rouge volta à tona aos olhos do público pelo fato de as integrantes – com exceção de Lissa – estarem envolvidas na produção do documentário que narra a história do girlgroup. Pablo Falcão analisa o case sob o ponto de vista de ser um exemplo em que a base de fãs imprime um potencial de ir alimentando uma sensação de nostalgia.

“No caso do Rouge, eu vejo muito valor em transformar isso em um grande acontecimento anual. Existe um público enorme, muito engajado, e a saudade é um ativo forte. Um espetáculo desse porte, acontecendo uma vez por ano, em um espaço grande, teria um impacto muito maior — seria esperado, desejado e vivido de forma intensa. Tenho certeza de que os fãs receberiam isso como um momento especial, quase como um reencontro — algo que realmente vale a pena esperar”, comenta Pablo.

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Foto: Carol Caminha

Impacto das ‘reunions’ no streaming: prioridade dos fãs ao catálogo antigo e quando artistas retornam à cena e encontram novos ‘concorrentes’

Quando uma banda, grupo ou projeto musical quebra anos de hiato e volta à tona para um reencontro, o impacto costuma ter reflexo instantâneo no streaming. E nem precisa de uma turnê com shows ‘sold out’ para esse fenômeno ser percebido…

O barulho que um ‘comeback’ muito aguardado ou muito surpreendente geralmente faz nas redes sociais mobiliza fãs, ou simplesmente admiradores, a irem atrás do repertório antigo. Gera uma curiosidade natural em revisitar aquelas faixas, reviver sensações que se tinha quando era aquilo o que se consumia em um outro momento, no passado. Apesar disso, promover um reencontro em um projeto comemorativo, mas também lançar material inédito pode surtir um efeito de chamariz para a base de fãs que se mantém fiel e também para novos públicos.

“Quando um grupo anuncia um retorno com material inédito, essa música nova tem uma missão muito específica. Ela é o frescor, o gatilho para a banda virar notícia de novo e garantir um espaço de destaque nas seleções de lançamentos da semana. Mas o grande volume de consumo mesmo sempre acaba indo para o catálogo antigo”, pondera o Editor Sênior da Deezer para a América Latina.

Ele complementa: “O que a gente nota na editoria é que a faixa nova chama atenção do fã para aquele artista. Só que, assim que ele entra no perfil da banda no aplicativo, bate aquela vontade incontrolável de reviver a própria história. O saudosismo fala muito mais alto nessas horas. Se a gente observar retornos gigantes recentes, seja em nível global como Oasis e Linkin Park, ou aqui no Brasil com o NX Zero, a dinâmica é a mesma. A magia do reencontro faz com que os discos lançados décadas atrás voltem a ter uma força de lançamento inédito dentro do nosso ecossistema”.

Não é publi para os Jonas Brothers, mas aqui dá pra linkar ao reencontro deles mais uma vez. A partir do momento em que os cantores de “When You Look Me In The Eyes” decidem permanecer ativos na indústria, com novos lançamentos, eles se afastam um pouco do tom principal de nostalgia e passam a competir por espaço com novos artistas, dentro do algoritmo das plataformas. De 2019, quando voltaram, até aqui, os irmãos de Nova Jersey lançaram 3 álbuns de estúdio, 2 álbuns ao vivo e um álbum no formato de trilha sonora.

“O ano do retorno sempre vai ser o pico da euforia. É o momento em que a banda resgata a memória afetiva de todo mundo depois de anos em silêncio. Mas, a partir do momento em que o grupo decide continuar na estrada direto nos anos seguintes, essa magia da raridade desaparece. Do nosso lado editorial, a gente vê que eles deixam de ser uma atração nostálgica e viram um artista ‘regular’ na indústria. O interesse do público não some do nada, mas ele estabiliza. Eles precisam disputar a atenção do fã de igual para igual com os artistas atuais e com as novidades da semana. O desafio para a banda, depois que a festa de reencontro acaba, passa a ser manter a sua relevância no cenário de hoje”, pontua Daniel, da Deezer.

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Foto: Twitter/@jonasbrothers

Uns se satisfazem ao acessar a nostalgia uma única vez; outros decidem perpetuá-la – perfis de fãs que coexistem

Quando o objeto de análise é o amor de fã por seu ídolo, não há certo ou errado, nem comportamento que pareça mais ou menos apropriado, contanto que faça bem àquela pessoa que nutre toda essa admiração.

Uma vez decretada uma ‘reunion’ geralmente em quebra a um longo período de hiato, todos os perfis têm valia ao artista, tanto os fãs que já se realizam ao acessar a nostalgia uma única vez, quanto aqueles que decidem perpetuá-la, indo a todos os shows, viajando até mesmo pra fora do país para viver esse momento mais vezes, engajando cada post nas redes sociais. Para esses fãs, não é só sobre reviver o passado. Diz mais sobre continuar construindo memórias com o artista e a base de fãs.

O primeiro grupo amplia o alcance e mostra a força geracional. O segundo sustenta a comunidade no dia a dia. E a soma dos dois em um só fandom é o que eleva ainda mais a carreira do artista e atribui a ele longevidade na indústria da música, fortalecendo ainda mais seu legado.

A página Vida nos 30 define esse contraste de perfis: “A gente vê isso com muito carinho, porque fala muito sobre como cada pessoa se relaciona com a própria história. Tem muita gente nos 30 que chega nesses shows com o sentimento de ‘era isso que faltava’, porque lá na adolescência não deu (faltou dinheiro, idade, apoio, oportunidade…), mas agora dá. E, às vezes, quando finalmente acontece, ver uma vez já traz esse alívio de poder dizer pra si mesmo: ‘eu consegui, eu vivi isso’”.

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Fotos: Instagram/@marina_bps

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Matheus de Carvalho

Aquela euforia nostálgica por trás de ‘reunions’ de bandas tem um limite de interesse para o fã?


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