“As coisas podem melhorar”, diz Graham Sayle (High Vis) sobre saúde mental e o acolhimento no Hardcore

Por Thais Lima
Para quem observa de longe, uma roda punk pode parecer um espaço dominado pela violência. Para quem está lá dentro, há um acordo coletivo: você pode liberar tudo o que acumulou, mas precisa cuidar de quem está ao seu redor. Se alguém cair, alguém vai levantar. A agressividade pertence à música e ao momento: não deve se transformar em violência contra o outro.
Essa foi uma das principais reflexões de Graham Sayle, vocalista do High Vis, durante uma entrevista exclusiva ao Tenho Mais Discos Que Amigos!, realizada após a apresentação da banda no Lollapalooza Chicago.
É extremamente importante, especialmente porque a sociedade não foi projetada para muitas pessoas”
No palco, Sayle fala abertamente sobre saúde mental, recuperação e a importância de procurar ajuda antes que comportamentos autodestrutivos assumam o controle. Na conversa, explicou que deseja usar a própria experiência para oferecer algo que nem sempre conseguiu enxergar em seus momentos mais difíceis: esperança.
Quem é o High Vis?
Formado em Londres em 2016 por músicos da cena hardcore britânica, o High Vis encontrou uma identidade própria ao expandir as fronteiras do gênero.
A banda preserva a urgência, o espírito comunitário e a crítica social do hardcore, mas mistura esses elementos ao Post Punk, Indie Rock, Britpop e à psicodelia dançante da cena conhecida como Madchester.
O resultado aparece em três álbuns: No Sense No Feeling, de 2019; Blending, de 2022; e Guided Tour, lançado em 2024.
No disco mais recente, o grupo fala sobre desigualdade, serviços públicos precarizados, saúde mental, dependência, culpa e a realidade da classe trabalhadora britânica. As músicas carregam indignação, mas raramente abandonam a esperança.
É justamente nesse equilíbrio que o High Vis encontra sua força: reconhecer a brutalidade da realidade sem aceitar que ela seja o fim da história.
“As coisas podem melhorar”
Antes da entrevista, durante o show no Lollapalooza Chicago, Sayle falou sobre reconhecer comportamentos destrutivos, abandonar vícios e aceitar ajuda.
Questionado sobre o que diria a alguém que está começando esse processo, o vocalista reconheceu que chegar ao ponto de pedir auxílio pode levar muito tempo. Muitas pessoas, segundo ele, fingem estar bem até que a situação se torne insustentável.
Se você reconhece que está em um estado problemático, existe muita ajuda disponível.”
A declaração carrega o peso de uma experiência pessoal. Sayle já falou publicamente sobre períodos marcados pelo abuso de álcool, isolamento, luto e dificuldade em demonstrar vulnerabilidade.
Durante muito tempo, ele não conseguia imaginar como seria uma vida sem esses padrões. A recuperação mostrou que outro caminho era possível.
Eu não conseguia me enxergar vivendo sem aquilo. Obviamente, chegou um momento em que tomou conta de mim. Mas quero transmitir esperança, porque as coisas podem melhorar muito.”
Essa transformação também permeia a música do High Vis. Se No Sense No Feeling retratava pessoas presas em ciclos autodestrutivos, os trabalhos seguintes passaram a buscar uma saída, ainda que imperfeita e construída aos poucos.
Vulnerabilidade também é resistência
A ideia de força apresentada pelo High Vis está longe de implicar a obrigação de suportar tudo em silêncio.
Em vez disso, Sayle usa o palco para lembrar que pedir ajuda, admitir o sofrimento e abandonar comportamentos nocivos também são formas de resistência.
O vocalista não prepara discursos rígidos para todos os shows. As falas surgem espontaneamente, especialmente quando se conectam ao significado de determinadas músicas e ao que ele sente naquele momento.
Isso ajuda a explicar por que suas palavras soam como uma conversa entre pessoas que reconhecem as mesmas dores.
A vulnerabilidade passa a fazer parte do senso de comunidade defendido pela banda: ninguém precisa fingir que está bem para pertencer a esse espaço.
Letras atentas ao mundo real
O High Vis também transforma problemas econômicos e injustiças sociais em matéria-prima para suas composições.
Em vez de buscar inspiração apenas nas discussões que dominam as redes sociais, Sayle procura observar o que acontece ao seu redor. Para ele, depender de algoritmos e de feeds para compreender a realidade pode distorcer a percepção do mundo.
Eu tento apenas manter os olhos abertos.”
Essa atenção surge com força em Guided Tour. “Mob DLA”, por exemplo, aborda os obstáculos enfrentados por pessoas no acesso à assistência pública no Reino Unido. Já “Mind’s a Lie” explora a saúde mental em uma sociedade que frequentemente trata o sofrimento e o isolamento como problemas individuais.
Deixar o emprego para viver da música
O crescimento do High Vis também levou Sayle a uma transformação prática: deixar o emprego para se dedicar integralmente à banda.
Durante anos, ele conciliou trabalho, ensaios e turnês, muitas vezes retornando de semanas na estrada e seguindo diretamente para a rotina profissional.
Abandonar essa estrutura trouxe liberdade, mas também eliminou a estabilidade que organizava seus dias.
É estranho não ter mais aquela rotina de acordar e ir trabalhar. Durante as turnês, tudo bem. Fora delas, ainda estou tentando encontrar estabilidade e saber o que fazer todos os dias.”
Apesar da dificuldade de adaptação, Sayle acredita que quem deseja seguir esse caminho precisa assumir um compromisso verdadeiro, inclusive com as partes menos glamourosas da carreira.
Se essa é a sua aspiração, você precisa se comprometer e fazer. Tem que vir de um lugar verdadeiro. Você precisa amar aquilo e também o trabalho duro.”
De penetras a atrações dos festivais
O nome High Vis surgiu a partir dos coletes de alta visibilidade usados por trabalhadores, e também de uma estratégia adotada pelos integrantes para entrar escondidos em festivais.
Segundo Sayle, vestir o colete correto e falar com confiança podia abrir muitas portas, principalmente para alguém com sotaque do Norte da Inglaterra.
Se você coloca um desses coletes, especialmente se tem sotaque do Norte, consegue escapar de praticamente qualquer situação. As pessoas simplesmente acreditam em você.”
Anos depois, a banda já não precisa mais de encontrar maneiras criativas de atravessar os portões. Agora, entra pela área dos artistas e ocupa os próprios palcos dos festivais.
No Lollapalooza Chicago, o grupo encontrou uma plateia pronta para transformar aquelas músicas em uma experiência coletiva.
Foi incrível. Eu adoro tocar em Chicago. A cidade parece uma cidade do norte da Inglaterra para mim. Todo mundo é muito gente boa.”
A primeira passagem do High Vis pelo Brasil
O próximo passo dessa trajetória será a estreia do High Vis no Brasil.
A banda se apresenta em 27 de setembro, no segundo dia do Balaclava Fest 2026, no Tokio Marine Hall, em São Paulo. O domingo também terá shows de DIIV, Beach Fossils, Wednesday, Sudan Archives, Winona Riders, Adorável Clichê e Budang (ingressos aqui).
Sayle contou que visitar o país sempre pareceu distante e difícil de imaginar.
Ir ao Brasil é uma das coisas que eu nunca pensei que aconteceria. Mal posso esperar.”
O vocalista ainda não sabe exatamente o que encontrará por aqui, mas já ouviu falar muito sobre a intensidade das plateias brasileiras. “Todo mundo me diz que é incrível”, ele comenta.
Se a apresentação no Lollapalooza Chicago servir de prévia, o encontro deve criar o ambiente ideal para a música do High Vis: barulhento, emocional e intenso. Vale lembrar que a banda também fará um sideshow no Bar Alto no dia 28/09.
Os discos que ajudaram a formar Graham Sayle
Para encerrar a conversa, perguntamos ao Graham Sayle quais álbuns de outros artistas mudaram sua vida.
Entre as escolhas de Sayle estão discos fundamentais para entender suas raízes no punk e no hardcore:
- No Warning — Ill Blood
- Cro-Mags — The Age of Quarrel
- Black Sabbath — Black Sabbath
- Bad Brains — Quickness
High Vis no Balaclava Fest 2026
- Data: 27 de setembro de 2026, domingo
- Festival: Balaclava Fest
- Local: Tokio Marine Hall
- Endereço: Rua Bragança Paulista, 1.281 — Várzea de Baixo, São Paulo
- Abertura dos portões: 15h
- Encerramento previsto: 23h
- Classificação etária: 16 anos
- Ingressos: disponíveis pela Ingresse
- Venda física sem taxa: Takkø Café — Rua Major Sertório, 553, Vila Buarque, São Paulo
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