BK’, a continuação de um sonho

Poucos poderiam imaginar, há dez anos, que o rap brasileiro chegaria a um lugar como aquele. No último sábado (19), BK’ reuniu cerca de 50 mil pessoas no Nubank Parque, em São Paulo, para celebrar uma década de Castelos & Ruínas, seu álbum de estreia.
Durante quase três horas e ao longo de 39 músicas, o rapper carioca revisitou sua trajetória diante de um estádio lotado e transformou uma comemoração pessoal em um daqueles acontecimentos que ajudam a dimensionar o quanto uma cultura avançou em um período relativamente curto.
Para compreender o tamanho daquela noite, no entanto, é preciso voltar para janeiro de 2016, quando o Néctar Gang veio a São Paulo para se apresentar no antigo Hole Club, pequeno espaço localizado na Rua Augusta, com capacidade para cerca de 300 pessoas.
Dias antes daquele show, conheci BK’ e toda a equipe do grupo ao recebê-los na casa dos meus pais para aquela que seria a primeira entrevista da história do Néctar. Ainda acanhados, eles chegaram na noite anterior à apresentação e passamos boa parte da madrugada trocando ideia. Em algum momento daquele encontro, ligamos as câmeras e gravamos durante aproximadamente uma hora.
Naquele momento, Castelos & Ruínas sequer havia sido lançado. O disco chegaria meses depois e lembro com clareza do impacto imediato provocado na cena. Nas comunidades de rap do finado Facebook, o álbum permaneceu durante dias no centro das discussões, com ouvintes destrinchando versos, conceitos e produções, enquanto tentavam entender de onde havia surgido aquele rapper capaz de apresentar uma obra de estreia tão complexa, técnica e madura. Existia a sensação de que não estávamos apenas diante de um bom lançamento, mas do primeiro passo de um artista que poderia alterar os parâmetros de sua geração.
Também tive a felicidade de registrar aquele momento. Gravei a primeira entrevista solo de BK’, na qual conversamos longamente sobre Castelos & Ruínas e destrinchamos diferentes aspectos da construção do álbum. Dez anos mais tarde, durante o show no Nubank Parque, um trecho daquela conversa apareceu nos telões diante de cerca de 50 mil pessoas — e aqui deixo registrado que me emocionei demais nesse momento.
O impacto de Castelos & Ruínas
O tamanho adquirido por Castelos & Ruínas não pode ser medido apenas pela carreira que BK’ construiu a partir dele. O álbum também ajudou a abrir um novo horizonte estético para uma geração que começava a ganhar espaço no rap brasileiro. Ao unir densidade lírica, técnica, conceito e uma produção sofisticada sem abandonar a intensidade característica do gênero, o trabalho mostrou outras possibilidades para artistas que surgiriam nos anos seguintes.
Djonga talvez seja um dos exemplos mais evidentes desse impacto. Um ano depois, o rapper mineiro lançou Heresia, sua estreia em álbum, e nunca escondeu o quanto o trabalho de BK’ havia ampliado sua própria percepção sobre o que poderia construir. Dez anos depois, os dois se encontraram diante de um estádio lotado e Djonga retomou justamente essa memória. “Se esse cara que parece comigo conseguiu, eu consigo também”, afirmou durante o show sobre o impacto provocado por C&R em sua trajetória.
A frase ajuda a explicar a dimensão histórica que um disco pode alcançar dentro de uma cultura. Influência não está apenas na reprodução de uma estética ou de uma sonoridade, mas também na possibilidade de ampliar o horizonte de quem vem depois. Castelos & Ruínas fez isso em 2016 ao apresentar um novo parâmetro para aquela geração. Uma década mais tarde, o show comemorativo do álbum produziu movimento semelhante ao transformar em realidade algo que, naquele período, parecia muito distante para um rapper brasileiro.
Uma carreira construída tijolo por tijolo
A chegada ao Nubank Parque também não aconteceu por acaso. Durante esses dez anos, BK’ construiu uma carreira que parece ter privilegiado o longo prazo e a obra como um todo em detrimento da instantaneidade. Há uma coincidência simbólica interessante entre essa trajetória e o próprio título de seu primeiro álbum: seu castelo foi construído tijolo por tijolo, sem que a necessidade de alcançar rapidamente o próximo patamar se sobrepusesse ao desenvolvimento artístico.
De Castelos & Ruínas a Gigantes, passando por O Líder em Movimento, Icarus e chegando a Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer, BK’ apresentou novas camadas de sua música enquanto aumentava o próprio sarrafo. Sua escrita se transformou, as produções ganharam outras dimensões e a relação entre música, conceito e imagem se tornou cada vez mais ambiciosa. Mesmo depois de uma estreia que estabeleceu uma identidade muito clara, o rapper nunca pareceu disposto a viver confortavelmente dentro da fórmula que havia criado.
Há outro mérito nessa construção que ajuda a compreender o que aconteceu no sábado. BK’ não é um artista de exposição constante. Sua vida não ocupa diariamente as redes sociais, suas aparições na imprensa são relativamente controladas e sua carreira não depende da manutenção permanente de uma persona pública fora da música. Ainda assim, ele conseguiu construir uma comunidade suficientemente forte para reunir dezenas de milhares de pessoas em torno de sua obra.
Essa característica ganha ainda mais importância em um período no qual o rap, como toda a indústria musical, passou a utilizar streams, posições em charts, seguidores e engajamento como algumas das principais medidas de sucesso. Esses números são relevantes, mas nem sempre correspondem à capacidade de criar identificação fora das plataformas. BK’ conseguiu transformar audiência em comunidade porque sua música estabelece uma relação que vai além da contemplação do sucesso individual.
Mesmo quando escreve sobre as próprias vitórias, há frequentemente uma dimensão coletiva em seus versos, seja ao falar sobre família, amigos, território, raça ou emancipação. Sua ascensão raramente aparece como um movimento solitário, e talvez esteja justamente aí uma das explicações para tantas pessoas se reconhecerem nessa caminhada.
O Castelo virou estádio
Há dez anos, o horizonte disponível para um rapper brasileiro era bastante diferente. Colocar alguns milhares de pessoas em uma casa de shows já representava uma conquista importante, enquanto festivais e eventos públicos eram fundamentais para que artistas do gênero conseguissem alcançar multidões maiores. Imaginar um rapper solo nacional como atração principal de um espetáculo próprio para dezenas de milhares de pessoas em um estádio ainda parecia uma projeção distante.
Por isso, o significado do Nubank Parque vai além do número registrado na noite. Durante muito tempo, espetáculos dessa escala dentro do rap foram associados no Brasil principalmente às atrações internacionais. Criou-se, inclusive dentro da própria indústria, uma percepção de que existia um teto para artistas nacionais do gênero e de que determinados espaços só poderiam ser ocupados com segurança comercial por nomes estrangeiros ou dentro da estrutura de grandes festivais.
BK’ rompeu essa barreira ao esgotar um espetáculo próprio para cerca de 50 mil pessoas. Não estava inserido em um festival com dezenas de atrações, não dividia com um artista internacional a responsabilidade pela venda dos ingressos e tampouco dependia de um grande nome estrangeiro para justificar aquela estrutura. O público estava ali para acompanhar uma história construída ao longo de dez anos dentro do rap brasileiro.
A importância desse feito não está em estabelecer uma competição com artistas de fora, muito menos em utilizar números de público como único parâmetro de relevância artística. O que a apresentação demonstra é que existe no Brasil uma audiência capaz de sustentar espetáculos de rap dessa dimensão com artistas nacionais. A partir de agora, quando outro rapper projetar um show próprio para 40, 50 ou 60 mil pessoas, haverá um precedente concreto mostrando que esse horizonte é possível.
A própria construção do espetáculo reforçou o caráter coletivo dessa conquista. Ao longo de quase três horas e 39 músicas, BK’ percorreu diferentes momentos de sua discografia em uma apresentação dividida em atos, passando por luz, sombra, canções românticas e uma espécie de coroação. As 13 faixas de Castelos & Ruínas estiveram presentes, algumas delas em novas versões, enquanto trabalhos posteriores ajudaram a mostrar como aquele artista de 2016 se transformou ao longo da década.
O palco também foi ocupado pelas conexões construídas nesse período. Luccas Carlos, L7NNON, Akira Presidente, Sain, Marcelo D2, Evinha, Febem, FYE, 2ZDinizz, Ashira, Djonga e Marina Sena estiveram entre os convidados da apresentação. Mais do que reunir participações capazes de aumentar o tamanho do espetáculo, a escolha ajudou a transformar o estádio em uma celebração da própria cena e das relações que acompanharam a trajetória de BK’.
Um dos momentos mais emblemáticos aconteceu com Febem durante “ESSE É MEU ESTILO”. Apesar da qualidade de sua discografia e do respeito conquistado dentro da cultura, ele é um daqueles artistas cujo reconhecimento da indústria nem sempre parece proporcional ao impacto de seu trabalho. Vê-lo diante de dezenas de milhares de pessoas, com o público cantando sua música, produziu uma imagem importante sobre aquilo que um palco dessa dimensão também pode representar quando é compartilhado.
A continuação de um sonho
Daqui a dez ou vinte anos, quando uma nova geração tentar reconstruir o caminho que levou o rap brasileiro aos estádios, o show de BK’ no Nubank Parque inevitavelmente fará parte dessa cronologia. Não porque reunir 50 mil pessoas determine sozinho o tamanho de um artista, mas porque aquela multidão materializou um processo cultural que começou muito antes de o gênero ter acesso a estruturas dessa dimensão.
Talvez por ter acompanhado uma pequena parte dessa história desde o início, a noite tenha adquirido para mim um significado ainda mais particular. Em 2016, vi um BK’ ainda acanhado entrar na casa dos meus pais antes de se apresentar para algumas centenas de pessoas na Rua Augusta. Meses depois, acompanhei o impacto de Castelos & Ruínas sobre uma geração e tive a oportunidade de conversar com ele sobre um disco que ainda começava a encontrar seu lugar na história. Dez anos depois, uma imagem daquele momento apareceu diante de uma multidão que seria praticamente impossível imaginar naquela madrugada.
BK’ costuma se definir como a “continuação de um sonho”, e talvez essa seja também a melhor maneira de compreender o significado de sua conquista. Antes dele, outras gerações empurraram os limites do que era possível para o rap brasileiro. Racionais MC’s, MV Bill, Marcelo D2, Emicida e tantos outros construíram caminhos em um período no qual os espaços eram menores e as portas ainda mais estreitas. A geração de BK’ recebeu esse legado e conseguiu ampliar novamente as fronteiras.
O processo não termina quando 50 mil pessoas deixam um estádio. Assim como Castelos & Ruínas fez Djonga olhar para outro artista negro e perceber que aquele caminho também poderia ser seu, existe uma nova geração que agora possui outra imagem como referência. Para um adolescente que começa a rimar hoje, um espetáculo de rap brasileiro em um estádio já não pertence ao terreno da imaginação.
Dez anos atrás, BK’ ajudou a ampliar aquilo que uma geração acreditava ser artisticamente possível. No último sábado, ampliou também aquilo que ela pode imaginar como destino. Se sua trajetória é a continuação de um sonho iniciado antes dele, o verdadeiro peso histórico daquela noite estará no que os próximos artistas decidirão construir a partir de agora.
O post BK’, a continuação de um sonho apareceu primeiro em TMDQA!.
Felipe Mascari




Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.