C6 Fest: Penelope Lowenstein apresenta Horsegirl ao público brasileiro

A cena indie contemporânea carrega uma quietude que, paradoxalmente, faz muito barulho. Longe dos holofotes saturados do pop comercial, o trio Horsegirl – formado por Penelope Lowenstein, Nora Cheng e Gigi Reece – vem lapidando uma identidade que transforma o minimalismo em pura eletricidade. O som das guitarras limpas e a economia de notas não são sinais de timidez; são escolhas estéticas de quem aprendeu a usar o silêncio como armadura e o espaço vazio como convite à escuta atenta.
Criadas no asfalto cinzento e nos invernos rigorosos de Chicago, e mais tarde divididas entre as salas de aula e as calçadas de Nova York, as integrantes trazem na bagagem o espírito da cultura Do-It-Yourself (DIY). No entanto, quando essa sonoridade essencialmente urbana cruza o oceano e desembarca no Brasil, o contraste se transforma em crônica visual. Tocar à tarde, sob a luz natural e o abraço verde do Parque Ibirapuera, confere às texturas da banda uma inesperada atmosfera de piquenique psicodélico. É a crueza do concreto norte-americano ganhando novas cores sob o sol sul-americano (tipo de experiência que o C6 Fest faz de forma espetacular!).
Esse amadurecimento sonoro – que trocou as paredes intransponíveis de ruído da adolescência por arranjos onde cada erro é audível e cada nota importa – teve um empurrão cirúrgico na produção. Ao gravarem no icônico estúdio The Loft sob o olhar da vanguardista Cate Le Bon, as jovens musicistas entenderam o valor do desapego. Le Bon não moldou o Horsegirl à sua imagem, mostrando que o descarte de uma parte querida pode ser o único caminho para revelar a verdadeira alma de uma canção.
Em uma conversa exclusiva para o TMDQA!, a encantadora Penelope Lowenstein destrinchou essa transição para a vulnerabilidade dos palcos limpos, relembrou os ensinamentos de estúdio e compartilhou seu entusiasmo (e suas referências, que vão de The Velvet Underground a Novos Baianos) antes de sentir o calor do público brasileiro.
Confira o papo abaixo (:
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TMDQA! Entrevista Penelope Lowenstein (Horsegirl)
TMDQA!: Penelope, antes de mais nada, muito obrigado por nos atender. É um prazer falar com você!
Penelope: Eu quem agradeço, claro!
TMDQA!: Você provavelmente sabe que São Paulo é conhecida por sediar grandes shows e festivais. Há alguns meses, uma DJ alemã chamada horsegiirL estava tocando “happy hardcore” dos anos 90 aqui no Brasil – por outro lado, você e as meninas são a essência do indie rock minimalista. Se o universo colapsasse e vocês fossem forçadas a fazer um set colaborativo, como seria o som do “Horsegirl²”? Você colocaria uma máscara de cavalo ou faria ela tocar uma guitarra lo-fi?
Penelope: Ai meu Deus [risos] essa é uma ótima pergunta! Sim, talvez a gente tocasse guitarra usando as máscaras… Ou não, nós faríamos isso e ela faria um DJ set minimalista.
Sabe, agora precisamos fazer algo assim. Seria incrível! [risos]
TMDQA!: Fico feliz que você tenha abraçado minha loucura! [risos] Mas falando sério agora: vocês começaram a banda muito jovens, profundamente enraizadas na cena DIY de Chicago. De repente, você se viu estudando em Nova York e pegando a estrada. Olhando para trás, para a Penelope de 2019 que estava lançando “Forecast”, qual é a coisa mais “adulta” ou inesperada que a Penelope de hoje faz antes de subir ao palco?
Penelope: Deixa eu pensar… Acho que me surpreenderia o fato de não usarmos nenhuma distorção no nosso set agora. Para mim, a configuração ideal de guitarra hoje é apenas um pedal de afinação e mais nada.
Naquela época, eu gostava muito dos meus pedais, então acho que essa mudança pegaria o meu eu do passado de surpresa.
TMDQA!: Ótima resposta, até porque em entrevistas passadas você mencionou que queria trabalhar com o espaço e o vazio da mesma forma lúdica que usavam o ruído quando adolescentes – inclusive, para um guitarrista, o ruído costuma ser um escudo confortável. Historicamente e artisticamente, como foi “limpar” o som da guitarra e deixar o silêncio tocar junto? Isso fez você se sentir vulnerável?
Penelope: Sim, com certeza! Acho que os shows, depois que fizemos a transição para o minimalismo, pareceram muito diferentes. Se você cometesse um erro, dava para ouvir de verdade, ao contrário de quando se toca um set barulhento – se você for um pouco desleixada lá, é menos óbvio.
Mas há muitos momentos no nosso set do Horsegirl agora em que apenas uma de nós três está tocando por um instante, e tudo gira em torno de como as partes funcionam juntas – isso é incrivelmente vulnerável. Às vezes dá até um frio na barriga, em um palco de um festival enorme, pensar: “sou a única tocando agora” [risos] é muito estranho.
Mas é uma sensação legal, porque às vezes você sente que tem o público na palma da mão, e isso cria um ambiente lindo e atencioso. Então, ambos são especiais à sua maneira, mas são experiências muito diferentes como artista, eu acho.
TMDQA!: Penelope, gravar no The Loft com a produção da Cate Le Bon soa como um sonho que se torna realidade para qualquer fã de indie. Teve algum momento específico durante as sessões de gravação em que a Cate olhou para um dos arranjos de vocês e disse: “Tirem isso, menos é mais”, mudando completamente a alma de uma música?
Penelope: Sim, aconteceu algumas vezes! Mas não foi porque ela estava empurrando a própria estética dela para cima da gente; foi mais porque ela sabia o que estávamos tentando fazer. E às vezes, quando você escreve algo, você se apega a uma parte que criou, sem perceber que aquilo foi apenas um degrau para te levar à música real que você estava tentando compor.
Editar o próprio trabalho é muito difícil, e é útil ter uma perspectiva externa para dizer: “ok, o efeito que você quer é diferente da parte que você escreveu. Você está quase lá, mas talvez precise dar um passo além.”. Acho que um bom produtor traz essa perspectiva de fora e esse olhar de edição para te ajudar a alcançar o som que você acha que está fazendo, mas não tem o distanciamento para enxergar porque foi quem escreveu.
Ela fez isso em “Julie“, fez em “Rock City“… Essa era geralmente a perspectiva dela como produtora: tentar garantir que tudo o que estava ali realmente precisava estar ali.
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TMDQA!: Penelope, o show de vocês é o primeiro da tarde de sábado no Parque Ibirapuera, cercado por árvores, luz natural e uma vibe meio piquenique psicodélico – e vocês são uma banda muito urbana, moldada pelos invernos de Chicago e pelo concreto de Nova York. Como você acha que a música de vocês se transformará quando exposta ao sol e à natureza da América do Sul?
Penelope: Cara, eu tô muito curiosa! [risos] Veremos… sabe, eu não sou nem um pouco de um ambiente tropical, e percebo que tocar na Califórnia, por exemplo, já parece diferente para nós.
Então, não sei, estou animada. Ouvi dizer que o indie rock é grande no Brasil, então espero que haja uma sintonia mútua – mas sim, já me perguntei e me pergunto sobre isso todo dia antes do show [risos].
TMDQA!: O lineup do C6 Fest este ano traz uma mistura enorme de gêneros e gerações, indo de vocês até Robert Plant, de The xx até Cameron Winter (da banda Geese)… Se vocês pudessem convidar alguém do line para tocar com vocês no sábado, quem seria?
Penelope: Provavelmente o Cameron Winter! Embora eu ache que a gente more no mesmo bairro, então eu provavelmente poderia encontrá-lo em Nova York mesmo! [risos]
Mas acho o disco que ele acabou de fazer ótimo. Tomara que a gente consiga se trombar e dar um “oi”. Sou fã, com certeza.
TMDQA!: Sim, ele é especial. Bom, vamos para uma rodada de perguntas rápidas agora?Você poderia me dizer uma banda dos anos 90 que o mundo esqueceu, mas que você sempre vai defender?
Penelope: Ah, uma banda dos anos 90… Electrelane? Talvez elas sejam mais dos anos 2000, mas eu diria elas.
TMDQA!: Justo. Qual é a maior mentira que a indústria musical vende para bandas jovens?
Penelope: Nossa, boa pergunta! Acho que seria que você precisa fazer turnê constantemente?
TMDQA!: Qual é a melhor coisa sobre compor como um trio com a Nora e a Gigi?
Penelope: Você foi fofo com essa! Descobrir algo novo juntas, eu acho.
TMDQA!: Você poderia definir o público brasileiro em uma palavra, mesmo antes de tocar para eles?
Penelope: Bem, ouvi dizer que vocês são calorosos, mas não sei…
TMDQA!: Você vai ver! Bom, Penelope, meu nome é Eduardo e eu represento um site brasileiro chamado Tenho Mais Discos Que Amigos!. No final das nossas entrevistas, temos uma tradição: você poderia citar alguns álbuns que mudaram a sua vida e o porquê?
Penelope: Ok!
- Eu diria Loaded do The Velvet Underground, porque é uma aula de composição pop, esquisitice e timbres quentes de guitarra.
- East and West da Anna Domino, porque é melancólico, minimalista e super feminino de um jeito que eu amo.
- Acho que devo incluir Novos Baianos (Acabou Chorare)? Tive uma enorme obsessão por esse disco durante a pandemia. Ele me mostrou que o rock pode sim ter uma seção rítmica incrivelmente boa, algo em que os ocidentais nem sempre conseguem se encaixar perfeitamente, eu diria!
- Talvez Tour de France do Kraftwerk, porque também me surpreendeu que a música eletrônica pudesse ser tão estranha e, ainda assim, ter uma alma no fim das contas.
Então, esses são os meus quatro!
TMDQA!: Seleção espetacular! Penelope, muito, muito obrigado, foi uma entrevista maravilhosa.
Penelope: Muito obrigada, eu adorei! Tchau, nos vemos em São Paulo!
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Horsegirl no C6 Fest
Mais do que uma performance, o show do Horsegirl na tarde de sábado do C6 Fest promete ser um mergulho estético sem precedentes. É o cenário perfeito para quem quer ver a crueza do indie de Chicago se misturar à luz natural e às árvores do Parque Ibirapuera, criando uma autêntica e inusitada sensação ao público.
O TMDQA! é parceiro de mídia e estará presente no C6 Fest cobrindo cada detalhe e trazendo o melhor do festival para você. Nos encontramos na frente do palco!
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Eduardo Ferreira
C6 Fest: Penelope Lowenstein apresenta Horsegirl ao público brasileiro




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